O Manual de Fundamentos EB20-MF-07.101 - Conceito Operacional do Exército Brasileiro – Operações de Convergência 2040 levanta, em sua primeira página, o seguinte questionamento: Como a F Ter, inserida no contexto de operações conjuntas, combinadas e interagências, será empregada face aos desafios impostos pela complexidade que caracterizará o ambiente operacional futuro, no horizonte de 2040?
A utilização contínua do carro de combate, em um contexto de Força Tarefa Blindada, permeia este tema, uma vez que o emprego destas plataformas sempre acompanhou a evolução da guerra. Ainda assim, com o avanço das tecnologias “anti-tank” — como mísseis de precisão, drones e munições inteligentes — e diante da alta demanda de manutenção que esses meios impõem, abre-se espaço para que seja retomado um velho questionamento: o meio blindado continua relevante? A observação dos conflitos recentes demonstra que sim: não só continua relevante, como permanece como um instrumento fundamental no campo de batalha moderno.
Na Guerra do Golfo (1991), o binômio formado pelo M1A1 Abrams Main Battle Tank (MBT) e pelo M2 Bradley Infantry Fighting Vehicle (IFV) foi decisivo para a rápida vitória da coalizão, combinando mobilidade, proteção blindada, ação de choque e poder de fogo1. Em conflitos mais recentes, como nas operações conduzidas por Israel em Gaza e no sul do Líbano, o MBT Merkava e o IFV Namer mostraram a eficácia da integração entre carros de combate e infantaria blindada, especialmente em ambientes urbanos e assimétricos2. Já na Guerra da Ucrânia, mesmo sob a ameaça constante de drones e munições guiadas, os blindados continuam sendo empregados de forma decisiva e em larga escala3, desde que inseridos em um sistema que envolva, de forma sinérgica, todas as funções de combate.
O Exército Brasileiro, ciente da importância perene da tropa blindada no campo de batalha moderno, vem investindo no Programa Estratégico Forças Blindadas, que busca transformar suas Brigadas Blindadas e Mecanizadas por meio da obtenção coordenada de novos meios de combate sobre rodas e lagartas4. Contudo, reconhece-se que a simples modernização do material não garante o êxito de uma Força-Tarefa Blindada. Para alcançar a plena eficiência, é indispensável o adestramento contínuo das guarnições de carros de combate, que devem aprender com as lições dos conflitos contemporâneos, compreender as nuances do emprego atual dos blindados e adaptar-se às exigências do ambiente operacional.
Em uma tropa de carros de combate, este adestramento segue uma sequência lógica que tem como base a Diretriz de Blindados do Comando Militar do Sul. Durante o ano de instrução, os pelotões de carros de combate são certificados nos níveis individual, guarnição e pelotão, participam dos Programas de Adestramento Básico de Pelotão e Subunidade (PAB Pel e SU), e, por fim, coroam o ano de instrução em um exercício nível Grande Unidade que, no caso da 6ª Bda Inf Bld, é a Operação Punhos de Aço.
A Operação Punhos de Aço 2025, que ocorreu entre 6 e 10 de outubro, foi um excelente momento para colocar em prática, no terreno, tudo que foi aprendido durante o ano de instrução, bem como identificar boas práticas e oportunidades de melhoria para o emprego de Forças Tarefas Blindadas. Por ocasião da participação da FT 1º RCC neste exercício, verificou-se a validade perene das quatro primeiras camadas da chamada “Survivability Onion”5 – Don’t be there, don’t be detected, don’t be acquired, don’t be engaged. (Não esteja lá, não seja detectado, não seja adquirido, não seja engajado - tradução nossa).
Para não ser detectado, ou diminuir esta possibilidade, a lição é simples e contundente: o básico funciona. Apesar da proliferação de meios modernos de aquisição de alvos — drones ISR, sensores térmicos e sistemas de reconhecimento remoto — uma camuflagem bem executada continua a degradar severamente a capacidade de detecção e identificação do inimigo. Isso inclui medidas elementares, porém eficazes, como desenfiamento em curvas do terreno, emprego de vegetação para disfarçar o contorno do carro e disciplina no funcionamento dos motores, visando reduzir assinaturas térmicas visíveis e infravermelhas. Procedimentos táticos igualmente simples — dispersão adequada e movimentação apenas em horários e itinerários planejados— ampliam ainda mais a capacidade de sobrevivência da guarnição.
Percebeu-se, também, que a preocupação com os vetores aéreos e como enfrentá-los deve ganhar mais espaço no processo de planejamento. É válida a discussão de se ampliarem as funções específicas de vigias do ar, com o aumento da vigilância por parte do pelotão de fuzileiros que, desta forma, ganharia mais protagonismo nas medidas antidrone. Além disso, equipar este pelotão com jammers portáteis — uma prática já experimentada com tropas em conflitos no leste europeu — deve ter o debate aprofundado, pois constitui medida eficiente para mitigar a ameaça que esses vetores representam às tropas blindadas.
Como último ensinamento colhido, também de grande importância, destaca-se a necessidade de um comando e controle claro e eficaz. Experiências mostram que é improvável que as comunicações funcionem perfeitamente durante toda a manobra — seja por ação inimiga de guerra eletrônica, seja por limitações dos meios VHF em determinado terreno. Partindo desta premissa, torna-se imprescindível que todos compreendam com precisão as tarefas e o propósito da missão, a intenção do comandante e o estado final desejado — especialmente os comandantes de carros de combate. Para atingir este entendimento de forma plena, é necessário ensaiar. Os ensaios de sincronização devem ocupar grande parte do tempo da tropa que estiver em zona de reunião, de modo que, em contingências que prejudiquem o comando e controle, cada elemento saiba exatamente o que fazer para empregar a iniciativa alinhada à intenção do comandante.
Estes ensinamentos verificados durante a Operação Punhos de Aço, entre outros, confirmam que as técnicas, táticas e procedimentos basilares do emprego de tropas blindadas corroboram para que o carro de combate mantenha papel central na manobra terrestre do presente, e continue sendo elemento essencial no combate do futuro. No ambiente operacional contemporâneo, caracterizado pela volatilidade, complexidade, incerteza e ambiguidade, além da constante ameaça de sensores, drones e guerra eletrônica, a superioridade não será alcançada apenas pela tecnologia, mas pela combinação de adestramento rigoroso, disciplina tática e liderança eficaz.
Por fim, enfatiza-se que a preparação prévia, o domínio da intenção do comandante, a iniciativa e a disciplina em todos os escalões, garantem a coesão da tropa quando as comunicações falham. Já o apoio mútuo entre o carro de combate e o fuzileiro reforça a letalidade e a proteção de uma Força Tarefa Blindada. Dessa forma, é pertinente concluir que o fortalecimento de procedimentos já consolidados em nossa doutrina mostra-se como fator diferencial para o sucesso das operações, especialmente com as ameaças e características presentes no campo de batalha moderno.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Exército Brasileiro. Estado-Maior do Exército. Manual de Fundamentos EB20-MF-07.101 – Conceito Operacional do Exército Brasileiro: Operações de Convergência 2040. 1. ed. Brasília: EME, 2023.
BURGESS, Michael; GAIDOW, Svetoslav. Survivability for Deployable Protected Land Vehicles: concepts, models and applications. Journal of Battlefield Technology, v. 18, n. 2, p. 7-13, jul. 2015.
EUROPEAN SECURITY & DEFENCE. Namer Heavy APC and IFV. European Security & Defence Magazine, v. 6, n. 6, p. 42-45, 2018
FORÇAS BLINDADAS. Programa Estratégico Forças Blindadas. 2025. Disponível em: https://epex.eb.mil.br/index.php/programas-estrategicos-do-exercito/forcas-blindadas. Acesso em: 18 out. 2025.
SZNAJDERMAN, Bruno. Ucrânia diz ter abatido 3 mil tanques e 9 mil blindados russos em 2024. Gazeta do Povo, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ucrania-diz-ter-abatido-3-mil-tanques-e-9-mil-blindados-russos-em-2024/. Acesso em: 15 out. 2025.
UNITED STATES. General Accounting Office. Operation Desert Storm: Early Performance Assessment of Bradley and Abrams (GAO/NSIAD-92-94). Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1992.
1 UNITED STATES. General Accounting Office. Operation Desert Storm: early performance assessment of Bradley and Abrams (GAO/NSIAD-92-94). Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1992.
2 EUROPEAN SECURITY & DEFENCE. Namer Heavy APC and IFV. European Security & Defence Magazine, v. 6, n. 6, p. 42-45, 2018. Disponível em: https://euro-sd.com/wp-content/uploads/2019/07/ESD_06_2018_WEB.pdf. Acesso em: 12 out. 2025.
3 SZNAJDERMAN, Bruno. Ucrânia diz ter abatido 3 mil tanques e 9 mil blindados russos em 2024. Gazeta do Povo, 2025. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/ucrania-diz-ter-abatido-3-mil-tanques-e-9-mil-blindados-russos-em-2024/. Acesso em: 12 out. 2025.
4FORÇAS BLINDADAS. Programa Estratégico Forças Blindadas. 2025. Disponível em: https://epex.eb.mil.br/index.php/programas-estrategicos-do-exercito/forcas-blindadas. Acesso em: 12 out. 2025.
5 BURGESS, Michael; GAIDOW, Svetoslav. Survivability for Deployable Protected Land Vehicles: concepts, models and applications. Journal of Battlefield Technology, v. 18, n. 2, p. 7-13, jul. 2015.
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