Passados mais de 150 anos da Dezembrada, que reflexões ainda podem ser feitas pela Força Terrestre?

Autores: Maj Fagundes
Segunda, 09 Março 2026
Compartilhar

Quando nos debruçamos sobre a História Militar Brasileira, em especial no tocante à Guerra do Paraguai, a campanha de dezembro de 1868 — a famosa Dezembrada — continua sendo um dos exemplos mais impressionantes de ousadia, manobra e quebra de paradigma. Passados mais de 150 anos, muitos dos dilemas enfrentados por Caxias e seus comandantes continuam presentes em nossos exercícios, planejamentos e discussões doutrinárias. Talvez por isso, a Dezembrada nunca tenha perdido sua força como referência profissional e vasto plano para reflexões.

Aquele momento da Guerra da Tríplice Aliança traz uma lição central: o pensamento militar brasileiro sempre foi capaz de grandes soluções quando combinou criatividade, liderança forte e entendimento profundo do terreno e do inimigo. A manobra do Piquissiri, executada após a queda de Humaitá, mostra exatamente isso. Em vez de insistir em ataques frontais contraposições fortificadas, Caxias optou por uma solução que muitos consideravam impraticável: desbordar o dispositivo paraguaio atravessando o Chaco, construindo por meio de sua Engenharia, em poucos dias, mais de dez quilômetros de estrada em uma região alagada e pantanosa.

Figura 1: Planta da estrada do Chaco

Fonte: Grala – ECEME (1986)

A observação e estudo da manobra envolvente de Caxias revela uma aplicação clara de Princípios de Guerra basilares, como Surpresa, Manobra, Economia de Meios e Unidade de Comando. Solano López e seus generais acreditavam que aquele movimento seria improvável. Essa confiança equivocada criou as condições para o êxito aliado. Do observado, é lícito concluir que o sucesso não foi fruto apenas de uma Engenharia efetiva e do apoio cerrado da Armada, mas sim de uma leitura correta da oportunidade, fruto do faro e experiência de Luis Alves de Lima e Silva, único Duque que recebeu tal título por seus próprios méritos e serviços prestados ao Império.

A partir desse movimento envolvente, desenrolou-se uma sequência de engajamentos que desarticulou o Exército de Solano López. Itororó, apesar do custo elevado em pessoal e material e de erros na transmissão de ordens, reforçou a importância da clareza da intenção do comandante — algo que a doutrina atual preconiza enfaticamente. O vigor, convicção e ímpeto pessoais de Caxias, avançando e se arrojando ele próprio na estreita ponte, não foi apenas um momento clássico da História militar brasileira; foi demonstração inconteste de Liderança, ainda hoje decisiva para transformar planos em resultados, atingindo o Estado Final desejado estipulado pela cadeia de comando.

Figura 2: Esboço original do dispositivo da Batalha de Itororó


 

Fonte: Arquivo Histórico do Exército - O autor (2018)

Na batalha do Avaí, vemos outro aspecto que permanece atual: erros de apreciação por parte do inimigo criam oportunidades. Ao aceitar combater em campo aberto e em desvantagem numérica, o General paraguaio Caballero ofereceu o terreno ideal para que Caxias empregasse um duplo envolvimento clássico, onde a Cavalaria pôde ser empregada na plenitude de suas capacidades. Entretanto, a batalha em tela também expôs uma vulnerabilidade que continua atual e imprescindível para qualquer Força Terrestre, seja em preparo ou emprego: a sustentação Logística. Tropas avançando mais rápido do que se pode sustentá-las enfrentam inevitavelmente o desgaste, e no confronto do Avaí isso ficou evidente, obrigando a tropa a utilizar meios locais para garantir sua alimentação.

Por fim, Lomas Valentinas encerrou a Dezembrada com sobejas provas da interoperabilidade aliada, da sincronização de fogos e da continuidade da impulsão do ataque. Ali, a força paraguaia perdeu de maneira irreversível sua capacidade de realizar contraofensivas, deixando clara a lição de que quando sincronização, massa e propósito se combinam, a ofensiva torna-se uma realidade inexorável.

Encerrada há quase 160 anos, abrindo as portas para a conquista de Assunção, capital paraguaia, a Dezembrada ainda ecoa no presente. Miguel de Cervantes, em sua imortal obra Dom Quixote, afirmou que a História Militar é “repositório de fatos, exemplo e aviso”. E ela o é, sobretudo, quando revela como pensamos, como combatemos e onde costumamos falhar. A campanha de 1868 nos lembra que, mesmo em momentos de desgaste extremo, soluções criativas podem surgir — desde que exista comando, iniciativa e disciplina intelectual para integrá-las ao planejamento e posterior execução.

Figura 3: Teatro de operações onde se desenvolveram todas as atividades da Dezembrada

Fonte: A Guerra do Paraguai – Lima (2016)

Em nosso esforço coletivo e constante para que a Força Terrestre continue evoluindo, precisamos olhar para episódios como este não como distantes e esquecidos fatos históricos, mas como exercícios permanentes de reflexão profissional. A Dezembrada não é apenas uma vitória histórica; é um vasto espelho e repositório doutrinário, com lições e ensinamentos que perduram e influenciam a Doutrina Militar terrestre hodiernamente.

REFERÊNCIAS

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das letras, 2002.

GRALA, major Ramão. Aplicação dos princípios de guerra hoje reconhecidos, na GTA- manobra de flanco, dezembrada e campanha da cordilheira. Rio de Janeiro: Escola de Comando do Estado-Maior do Exército, 1986, monografia do Curso de Altos Estudos.

LIMA, Luiz Octavio de. A guerra do Paraguai. São Paulo: Planeta, 2016.

MORGADO, Sérgio. A Manobra de Piquiciri- Parte 1. Revista da Cultura, Rio de Janeiro: FUNCEB, ano X número 17, 2010.

VELÔZO, Fernando Gomes Pedrosa. A história militar tradicional e a "Nova História Militar". Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011.

CATEGORIAS:
História

Comentarios

Comentarios

فئات الملاحة

Artigos Relacionados