Intervenção federal no Rio de Janeiro

Desde a assinatura do decreto presidencial que determina a intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro, proliferam na mídia e nas redes sociais os mais variados comentários e artigos. Alguns merecedores de atenção, outros contaminados ideologicamente, muitos deles irreais, fantasiosos e até ridículos. Sempre que o tema é segurança pública, voltam à TV os especialistas, vários deles sérios e competentes, outros nem tanto.

Questiona-se o real objetivo da medida. Teria sido uma providência embasada no dever constitucional do Estado de prover a segurança dos cidadãos? Ou, apenas, um artifício político para desviar as atenções do fracasso do governo federal no tema da reforma previdenciária? Ou, quem sabe, uma jogada meramente eleitoreira visando à melhoria da baixa popularidade do Presidente da República?

Qualquer que tenha sido o verdadeiro motivo, a intervenção na gestão da segurança do Estado do Rio de Janeiro é uma realidade. A priori, parece-nos que a situação caótica do Estado justificaria, plenamente, uma medida de intervenção federal que afastasse o atual governador. Entretanto, optou o Presidente por uma discutível medida setorizada, produzindo efeitos somente na gestão da segurança pública. Objetivamente, a medida era necessária e a decisão talvez tenha sido retardada em demasia.

Ninguém duvida de que os últimos governos estaduais do Rio vêm perdendo a luta contra a bandidagem. As causas são conhecidas: má gestão pública, incompetência administrativa, corrupção desenfreada, judiciário leniente, legislativo cooptado pelo crime, contaminação policial etc. Vale lembrar que o início do processo de desintegração da segurança pública no Estado remonta ao ano de 1983, quando o governador Leonel Brizola proibiu os efetivos policiais de subirem os morros.

O atual cenário da segurança pública no Rio revela-se insuportável: criminalidade fora de controle; órgãos policiais infiltrados, desmotivados e despreparados, incapazes, portanto, de reverter a situação; governo estadual assumindo a sua inoperância e incapacidade de comando; população acuada e vitimada diuturnamente; vastas áreas do território estadual sob total controle dos criminosos.

As Forças Armadas (FA) - instituições nacionais que detém o maior índice de confiabilidade da população -, por decisão do Presidente da República, (constitucionalmente, o seu comandante supremo), receberam a missão de assumir a gestão da segurança pública no Rio, na pessoa do Comandante Militar do Leste, General de Exército Walter Souza Braga Netto, nomeado interventor.

Terá sucesso a intervenção federal? As forças envolvidas conseguirão reverter essa lamentável situação? Os tão esperados resultados positivos dependerão de múltiplos fatores. Preliminarmente, é necessário frisar que o decreto em tela determina, apenas, uma intervenção federal na gestão da segurança pública. Não se trata, portanto, de uma intervenção militar. Ou seja, o governo da República está intervindo num Estado da federação, em setor específico, designando como interventor um oficial-general da ativa do Exército, comandante militar da área abrangida pelo decreto. Como se observa, num primeiro momento, não há no documento a determinação expressa de atuação direta do Exército - ou das FA - no combate à criminalidade. Efetivamente, o decreto dispõe que o comando da segurança pública será exercido pelo general interventor, que desempenhará seu cargo tipificado como de natureza militar, cumulativamente com o de Comandante Militar do Leste.

Portanto, há que se aguardarem as definições e as diretrizes que complementarão o decreto, sem o que será impossível avaliar o nível de emprego e engajamento das Forças Armadas em futuras operações contra o banditismo. Note-se que as FA, pelo decreto presidencial de 28 de julho de 2017, já estão acionadas no Rio em missões de Garantia da Lei e da Ordem. Tais ações continuam em pleno desenvolvimento, sendo que as forças federais têm atuado, basicamente, em apoio às operações policiais. Ou seja, até aqui, as tropas, em geral, têm sido coadjuvantes. Uma importante questão a esclarecer é se os militares continuarão apenas apoiando as polícias ou se, em face dos decretos de GLO e de intervenção, ambos em vigor, serão protagonistas e, via de consequência, empregados na primeira linha de combate e repressão à criminalidade.

Muitos alegam que as FA não estariam preparadas para essas missões. Ledo engano. Embora sua principal destinação constitucional seja a defesa da Pátria, de há muito que os nossos militares vêm se preparando para as ações subsidiárias de GLO. O melhor exemplo disso veio do Haiti. Desde 2004, cerca de 37 mil militares brasileiros participaram das operações no país caribenho, sendo 30.579 do Exército, 6.014 da Marinha e 357 da Aeronáutica. Foram 13 anos de excelente atuação dos nossos soldados, reconhecida internacionalmente. Na primeira fase das ações, o Brasil liderou as operações da ONU contra o crime organizado no Haiti, enfrentando o banditismo nas favelas mais violentas da capital (Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil). A missão foi cumprida com total eficácia, fazendo com que os criminosos se entregassem ou fossem abatidos.

Os militares brasileiros, hoje no comando da segurança pública no Rio de Janeiro, estão plenamente aptos a reverter esse trágico cenário em que aqui vivemos. Mas, para atingir plenamente esse objetivo, as forças atuantes - militares e policiais - necessitarão de diversas medidas de suporte, entre elas: unidade de comando; total segurança jurídica para as ações e efetivos envolvidos; recursos financeiros e meios operacionais adequados; comprometimento dos demais setores da administração pública (federal, estadual e municipal) no apoio às atividades de enfrentamento da criminalidade; liberdade de ação no planejamento e na execução das operações; integração entre os órgãos operacionais e de inteligência das organizações militares e policiais; apoio da sociedade, expresso pela mídia e pelas redes sociais, em que a população reconheça o trabalho desenvolvido pelas forças e demonstre compreensão por eventuais limitações ou transtornos ocasionados pelas operações.

Embora as pesquisas revelem alto índice de aprovação popular à intervenção no Rio de Janeiro, grande parte da mídia navega na contramão do desejo da sociedade e já começa a apontar suas baterias contra ela. São os idiotas do politicamente correto a anunciarem violações dos direitos humanos e das garantias individuais nas futuras operações de combate ao crime. Conhecemos muito bem esses arautos de ideologias jurássicas. Falarão em paz, desfilarão na zona sul do Rio em passeatas pela vida. Dirão que a batalha contra os criminosos será direcionada somente contra pobres e negros das comunidades. Cobrarão resultados estatísticos da diminuição da criminalidade, mesmo antes das primeiras operações. Exaltarão a necessidade do uso da "inteligência" - tema em que são analfabetos - com prevalência sobre as demais operações. Farão enorme barulho quando da morte de algum inocente. Mas, omitir-se-ão, vergonhosamente, como o fazem hoje, quanto às vítimas da bandidagem, civis inocentes, militares e policiais.

Por último, cabe-nos breve comentário sobre a estrutura da criminalidade no Estado do Rio. O crime organizado atua como uma verdadeira empresa. A receita financeira deriva, principalmente, de três fontes: comércio de drogas, armas e munições; roubo e furto de cargas e, mais recentemente, ataques a bancos e caixas eletrônicos. Com grande potencial financeiro, a "empresa" infiltrou-se no poder público, contaminando e aliciando efetivos policiais, políticos, legisladores, empresários, membros do judiciário etc.

Outro aspecto da complexa situação no Rio é o crime desorganizado. Trata-se do criminoso que age isoladamente, ou em pequenos bandos, não necessariamente vinculado às "empresas". São eles os responsáveis pela maioria dos delitos praticados, a todo o momento, contra os cidadãos fluminenses, principalmente nas vias públicas. Esse tipo de bandido, pela rapidez e dispersão das suas ações, é de difícil embate, exigindo numerosa presença policial nas ruas, além de grande mobilidade dos efetivos.

Resta-nos proclamar a nossa confiança nas ações das Forças Armadas e das forças policiais. Os resultados positivos não serão facilmente alcançados, muito menos com a rapidez desejável. O que se espera, em curto prazo, é a reversão do incremento da criminalidade e a retomada dos territórios ocupados pelo crime, melhorando a sensação de segurança do cidadão fluminense. Somente com o saneamento da gestão da segurança pública no Rio e o adequado e intenso combate ao crime, o Rio de Janeiro resgatará a sua condição de Cidade Maravilhosa.

*O autor é professor, oficial da reserva do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e da Academia Brasileira de Defesa, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB e fundador do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva do Exército - CNOR. O artigo não representa, necessariamente, o pensamento das entidades mencionadas.

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Soldados da Paz

No dia 15 de outubro de 2017, encerrou-se, definitivamente, a maior e mais longa participação das Forças Armadas brasileiras em uma missão no exterior. Desde 2004, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) trabalhou para tornar possível a paz e fortalecer as instituições haitianas, por meio de forte capacidade militar, muitas vezes, amparada pelo capítulo VII da Carta das Nações Unidas. Além disso, houve o esforço conjunto dos órgãos da Organização das Nações Unidas (ONU) e das entidades parceiras para a proteção dos direitos humanos e para o desenvolvimento econômico do país caribenho.

Nesse contexto, faço um relato e algumas reflexões sobre um período difícil e inesquecível da história da ONU, do Haiti e das Forças Armadas do Brasil.

No dia 12 de janeiro de 2010, por volta de 16:30 horas, pelo horário de Porto Príncipe, capital do Haiti, eu estava em frente ao prédio do Forte Nacional, base de uma das Companhias de Fuzileiros do Batalhão Brasileiro da MINUSTAH, aguardando a saída de uma viatura ¾ Land-Rover, que conduziria a mim, na época, major e comandante da 3ª Companhia de Fuzileiros de Força de Paz, e a um de meus comandantes de pelotão, um capitão, para receber 30 militares da minha subunidade, que chegariam ao aeroporto da capital, vindos do Brasil. Do meu grupo, além desse oficial, estava um subtenente, encarregado de material. Havíamos chegado um dia antes, compondo o 1º escalão do 12º Contingente Brasileiro.

Por volta das 16:50 horas, sentimos um leve tremor, que se assemelhava à passagem de um veículo pesado. Em seguida, o tremor aumentou e logo um abalo muito forte estremeceu o chão e fez estourar as janelas de vidro do Forte. Percebendo ser um terremoto, começamos a correr para nos distanciar do prédio. Naquele momento, dois militares da Companhia do 11º Contingente, a qual estávamos substituindo, encontravam-se a pouco mais de três metros à nossa esquerda, quando foram soterrados pela explosão (sim, explosão!) de um grande muro próximo a nós. Não houve como salvá-los. Só conseguimos retirar seus corpos com a ajuda de outros militares, mais de uma hora depois, cavando com as mãos e duas pás.

Após 30 segundos do abalo, olhei para o Forte Nacional e vi que aquela instalação centenária estava no chão. Junto a mim e ao capitão, havia alguns militares e crianças da vizinhança que vieram, chorando, em busca de abrigo. Ao redor, no bairro de Bel Air, só ouvíamos gritos de pânico da população. Uma densa poeira cobriu a região durante alguns minutos.

Aos poucos, surgiram os sobreviventes do Forte. Eram militares brasileiros, incluindo o subtenente de minha Companhia e o comandante que eu substituiria; policiais da ONU (UNPOL); e os haitianos que trabalhavam na Base, conhecidos como "bon bagay". Um subtenente do 11º Contingente estava soterrado em sua sala e, pelo menos, cinco haitianos da Polícia Nacional do Haiti (PNH), que ocupavam uma delegacia e um alojamento na instalação, estavam desaparecidos. A equipe médica do Forte atendia aos feridos, incansavelmente.

Não tínhamos notícias do grupo de combate daquela subunidade, que permanecia de serviço no Palácio Nacional, residência e local de despacho do Presidente do Haiti. Pensávamos em como tirá-los daquele lugar, o que foi feito por um blindado urutu do esquadrão da Cavalaria. Durante as oito horas posteriores, houve mais de 30 réplicas do terremoto, deixando o clima tenso e imprevisível.

As comunicações estavam inoperantes pela queda das antenas e a destruição dos equipamentos, e os celulares da rede móvel haitiana não funcionavam. As notícias vieram com a chegada da primeira viatura de socorro da Base General Bacelar, onde estava a maior parte do Batalhão. Assim, soubemos da dimensão do terremoto. Havia mortos por toda a região e o caos estava instaurado. A conhecida "Casa Azul", base de um pelotão brasileiro; o Quartel-General da MINUSTAH, localizado no Hotel Christopher; e vários prédios de autoridades públicas estavam destruídos.

As Unidades de Engenharia de Força de Paz, incluindo a do Brasil, estavam desdobradas para resgatar os feridos e abrir caminho nas ruas bloqueadas pela destruição. Uma dessas equipes chegou ao Forte Nacional à noite e somou esforços para salvar o subtenente que estava soterrado, mas ele não resistiu. Pela manhã e nos dias seguintes, as buscas pelos sobreviventes continuaram, começando uma das maiores operações de ajuda humanitária do mundo, com mais de 70 países envolvidos, com envio de tropas, equipes especializadas em salvamento e saúde, apoio em alimentos e água, e esforço de logística.

Presenciamos, em todos os militares do Exército Brasileiro, um verdadeiro sentimento de abnegação e de cumprimento do dever. Houve o trabalho incansável de tentar salvar vidas, proporcionado pelos integrantes da Engenharia e da Saúde; as ações em manter contínuo o apoio de alimentação e transporte, como o proporcionado pelo pessoal das cozinhas e os motoristas; e a manutenção do ambiente seguro e estável, diante de todo o caos existente, feito pelas tropas de Infantaria e Cavalaria, por meio de patrulhas e operações. São esses apenas alguns exemplos.

Trabalhando semanas em condições desfavoráveis, a tropa brasileira contribuiu para reduzir as consequências daquele terremoto. Foram incontáveis os exemplos de liderança em todos os níveis, bem como a certeza de que nossos militares têm alta capacidade de adaptação diante de situações inesperadas, mantendo sempre o foco na missão, a capacidade de agir e a compreensão do contexto em que estão envolvidos.

O Exército Brasileiro perdeu 18 militares, alguns dos quais, meus conhecidos. Em todo o Haiti, o número de mortos pode ter chegado a 300 mil, com prejuízos estimados em U$ 8 bilhões, sendo considerada uma das maiores catástrofes da história. A missão prosseguiu por mais sete anos e foi concluída com sucesso.

Aprendemos muito com a missão de paz no Haiti. Aprenderam o Brasil, a ONU, as Forças Armadas e o Exército Brasileiro. Cada indivíduo, de cada um dos 26 contingentes do nosso País, deixou sua contribuição para a construção da paz. Resta, agora, aos próprios haitianos, a consolidação de todo esse trabalho.

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Braço Forte, Mão Amiga: o Grito de Guerra do Exército Brasileiro

Segundo Olivier Reboul, o termo "slogan" remonta à expressão escocesa "sluagh-ghairm", que quer dizer "grito de guerra", utilizado por um clã na hora da batalha (Reboul, 1986, p. 7). Na França, a expressão transformou-se e ganhou sentido pejorativo relacionado a doutrinamento. No entanto, foram os Estados Unidos que tornaram o vocábulo conhecido mundialmente com o significado comercial que entendemos hoje.

Slogan

A comunicação social ganhou relevância extraordinária no cotidiano institucional, influenciando suas decisões. Com o Exército Brasileiro (EB) não poderia ser diferente. No passado, o processo decisório no EB abordava a missão, o inimigo, o terreno, o tempo e os meios. Hoje, esse mesmo processo ganhou mais um elemento: as considerações civis, que abordam, entre outros fatores, a opinião pública.

Para conseguir uma opinião pública favorável é preciso trabalhar profundamente a questão da comunicação social e do marketing. Uma importante ação a ser implementada é adequar o slogan das instituições às suas realidades e pretensões, a fim de influenciar os respectivos públicos. Nesse contexto, os slogans têm papel fundamental, pois são "valiosos instrumentos de comunicação para ajudar na criação ou manutenção da lembrança" (Pinho, 1996, p. 75).

O slogan é uma "frase concisa, marcante, geralmente incisiva, atraente, de fácil percepção e memorização, que apregoa as qualidades e a superioridade de um produto, serviço ou ideia" (Rabaça e Barbosa, 1978, p. 435). Tem o objetivo de exprimir, em poucas palavras, um diferencial, uma ideia, um produto ou um serviço.

Todos os dias somos bombardeados por inúmeros anúncios e marcas. É necessário, portanto, que cada instituição saiba, com clareza, a reação que deseja de seu público-alvo, a fim de criar um slogan forte e realista, posicionando-se de forma honesta e correta, criando, com esse público, uma conexão imediata.

"Braço Forte – Mão Amiga"

Seguindo tal linha de pensamento, o Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx) decidiu, nos anos 90, utilizar um slogan que posicionasse o Exército de forma adequada na mente dos brasileiros. Após diversas sessões de "tempestade de ideias", a frase "Braço Forte – Mão Amiga", concebida pelo Coronel Francisco Roselio Brasil Ribeiro, foi adotada como o slogan, transformando-se logo em grande sucesso.

O "Braço Forte" - com sua origem em Guararapes, na expulsão do dominador estrangeiro; na atuação de Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, de Norte a Sul do Brasil, pacificando e mantendo a unidade nacional; na Guerra da Tríplice Aliança; na Segunda Guerra Mundial; na dissuasão de inúmeros conflitos; na garantia da soberania nacional, dos poderes constitucionais, da lei e da ordem; e na salvaguarda dos interesses da Pátria.

A "Mão Amiga" - nas as ações da Força Terrestre em prol do desenvolvimento do País; no cumprimento de missões de manutenção da paz; no estímulo à cultura e aos desportos; no atendimento às situações de calamidade pública; no respeito à natureza e aos povos indígenas; no esforço de redução das carências sociais, perfurando poços, construindo açudes, distribuindo água em regiões assoladas pela seca e levando atendimento médico e odontológico às comunidades ribeirinhas da Amazônia e do Pantanal; no desenvolvimento nacional, com as obras de infraestrutura e na formação de mão de obra qualificada; entre outras.

Desse modo, o "Braço Forte" sempre esteve ao lado da "Mão Amiga", tornando o slogan uma identificação fácil de ser aceita pelos diferentes públicos.

E qual seria o motivo desse sucesso?

A resposta é que o "Braço Forte – Mão Amiga" atende a todos os requisitos de um bom slogan:

- é honesto, traduz o cerne da Instituição, transmite sua essência, é coerente com a história do Exército e promete o que ele realmente faz pelo povo brasileiro;

- é simples, curto e objetivo, transmitindo rapidamente a ideia principal e deixando a mensagem-chave na mente do público-alvo.

- revela sentimentos positivos, de comprometimento com a defesa da Nação, fazendo voto de dedicação e de respeito ao povo brasileiro e reafirmando sua vocação de solidariedade e de participação na vida nacional;

- é repetido sempre que possível, podendo ser veiculado em todos os produtos comunicacionais confeccionados pelo CCOMSEx;

- tem ritmo, é agradável de ser ouvido, fácil de ser pronunciado e repetido, sem necessidade de pausa, facilitando sua memorização e aceitação pelo público-alvo.

Outro ponto positivo deste slogan é a crescente importância da comunicação social e das atividades de Coordenação Civil Militar (CIMIC) relacionadas aos vulneráveis, refugiados e deslocados. São atividades que, muitas vezes, demandam uma mão amiga para garantir o sucesso da operação. Nas palavras do General de Divisão José Luiz Jaborandy Junior, antigo Comandante do Componente Militar das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH), uma das razões do êxito do Brasil em missões de paz é que "o soldado brasileiro, como nenhum outro, consegue unir as coisas do soldado com as coisas do coração". E o "Braço Forte – Mão Amiga" transmite essa ideia.

Para David Ogilvy, uma marca é "a soma intangível dos atributos de um produto; seu nome, embalagem e preço, sua história, reputação e a maneira como ele é promovido. A marca é também definida pelas impressões dos consumidores sobre as pessoas que as usam; assim como pela sua própria experiência pessoal." (Ogilvy apud Kapferer, 2003, p. 54). O valor de uma marca pode chegar a ser muito superior à soma de todos os seus ativos tangíveis.

Segundo o resultado do estudo da BrandZ (Plataforma Global de Marcas) e WPP (Serviços de Comunicações de Marketing), publicado no site da Revista Exame, em 8 de junho de 2016, a Google foi a marca mais valiosa do mundo em 2016, com um valor de 229,2 bilhões de dólares (valor muito maior que seus ativos tangíveis).

A marca do Exército Brasileiro, representada por sua logomarca (símbolo) e por seu slogan, sintetiza diversos elementos (racionais, emocionais e visuais) construídos através dos tempos. Por isso, assim como todas as grandes instituições do mundo, o Exército Brasileiro padronizou, em manual, a aplicação de sua logomarca, com o intuito de manter a sua identidade visual. Todos os produtos comunicacionais confeccionados pelo CCOMSEx, por outras organizações militares do Exército ou por qualquer instituição que tenha autorização para tal devem respeitar o "Manual de Uso da Marca do EB", aprovado pela Portaria n.º 885, de 4 de novembro de 2008, do Comandante do Exército.

O que DEVE vir no futuro?

Em razão de não dispor de verba publicitária, o EB depende de patrocínios, de parcerias e da veiculação gratuita de seus anúncios na televisão. Por outro lado, por estar presente em todos os cantos do País, a Instituição tem uma capilaridade impressionante, com influência marcante no cotidiano de inúmeras localidades. Tal presença e influência podem gerar oportunidades de divulgação da Força, traduzindo a importância de todos os integrantes do Sistema de Comunicação Social do Exército. Agências e seções de comunicação social devem ser proativas, tanto na disseminação das campanhas do Exército, quanto no respeito ao Manual de Uso da Marca.

Com a participação de todos, poderemos dar novo passo, atingindo outro patamar e, assim, como grandes corporações, divulgar o nosso "sluagh-ghairm" sem precisar utilizar o nome da Instituição, para que o "Braço Forte – Mão Amiga" continue a ser proferido nos momentos em que a sociedade mais precisar.

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Vá Exército! Vença a Marinha!

Quem já teve a oportunidade de visitar a Academia Militar do Exército dos Estados Unidos da América, localizada nas adjacências da pacata cidade de Highland Falls, a pouco mais de uma hora de carro da metrópole de Nova Iorque, não consegue disfarçar o deslumbramento diante da imponência das instalações da "Longa Linha Cinzenta". Diferentemente do que muitos possam imaginar, a expressão não foi cunhada em referência ao conjunto de pavilhões de arquitetura gótica, desenhados pelo arquiteto Ralph Adams Cram, no início do século XX, em um projeto que procurou preservar o design original das instalações que remontam ao ano de 1798.



O significado da frase é muito mais profundo! Refere-se aos laços únicos que vinculam as gerações de oficiais formados na mais antiga organização militar do Exército dos Estados Unidos em atividade. Membros de uma irmandade que viveram a inolvidável experiência de dedicar quatro anos de sua vida a uma rotina intensa de aulas, formaturas e treinamentos militares, em um processo árduo que permanece inalterado na sua essência, desde a criação da Academia em 1802.

A expressão baseia-se, ainda, no uniforme histórico utilizado por seus cadetes, cortado em um pesado tecido de lã cinza, com colarinhos rígidos, que, além de uma ligeira coceira, proporcionam um singular desconforto, compartilhado por grandes líderes da nação norte-americana. Entre eles, destacam-se dois ex-Presidentes dos EUA, inúmeros generais que ajudaram a escrever a história dos dois maiores conflitos armados mundiais e diversos políticos, empresários e personagens ilustres da sociedade americana.


A "Longa Linha Cinzenta" representa um caminho direto e imutável de disciplina, que baliza a formação dos oficiais do Exército Americano, para liderar com caráter e viver uma vida dedicada à nação, conforme prescreve o lema da Academia: "Dever, Honra, Pátria".

Ao deslocar-se pelas instalações da Academia, o visitante realiza uma viagem ao passado, mergulhando em um túnel do tempo e conhecendo uma parte importante da história do Exército dos EUA, a começar pela razão pela qual sua Academia é internacionalmente conhecida como Academia Militar de West Point. Durante a guerra da independência, entre 1778 e 1780, o engenheiro polonês Taddeus Kosciuszko, um dos heróis de Saratoga, foi designado para supervisionar a construção de posições defensivas em um terreno alto, acima de uma estreita curva do Rio Hudson, que infletia para o Oeste. Para o General George Washington, esta era a posição estratégica mais importante da América, possibilitando o controle do tráfego fluvial no Hudson e negando aos ingleses a utilização desse notável eixo logístico para o transporte de tropas e suprimentos. Logo após tomar posse do seu mandato, o Presidente Thomas Jefferson determinou a construção da Academia Militar do Exército Americano, no mesmo local onde as fortificações de Kosciuszko dominavam a sinuosa curva do Hudson para Oeste, vindo a ser conhecida mundialmente como Academia Militar de West Point.

Prosseguindo no passeio, ao chegar ao conjunto principal da Academia, o visitante depara-se com uma fachada moderna em granito New Hampshire e com janelas de vidro na cor âmbar, mas que em nada macula a harmonia da arquitetura das demais construções adjacentes. A Biblioteca da Academia de West Point foi inaugurada em 2008 e proporciona os meios mais modernos para a realização de pesquisas científicas, contando com várias salas de estudo para os cadetes e diversas áreas para a realização de eventos. De costas para a biblioteca, repousa, ironicamente, a estátua do General George Smith Patton Jr., conhecido por seu temperamento forte e certa aversão aos afazeres acadêmicos, eternizado pela atuação no norte da África, quando bateu o Africa Korps alemão, liderado pelo antológico General Erwin Rommel.



Mais adiante, surge a figura impassível do General Dwight David "Ike" Eisenhower, Comandante Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, cujo olhar acompanha, orgulhosamente, as gerações de futuros oficiais que, garbosamente, perfilam-se nas formaturas, no campo de parada à sua frente.

Um dos lugares mais espetaculares da Academia, sem dúvida, é o refeitório. Não há como não associá-lo ao interior de um castelo medieval. Adornando suas paredes, estão telas que retratam as figuras dos antigos superintendentes da Academia (ex-comandantes), como o General Douglas MacArthur, Comandante das Forças Armadas Americanas no Teatro de Operações do Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em um ambiente tão rico em história e tradições, um visitante, mesmo desatento, vai perceber uma frase que se repete em placas, casas, telhados e até em um túnel: "Go Army! Beat Navy!". Quase um mantra, a frase é repetida em palestras, discursos, formaturas e retrata uma salutar rivalidade histórica entre a Marinha e o Exército, que, ao aliar-se à paixão do povo pelo "futebol americano", torna-se quase uma obsessão. Em 2016, após um amargo jejum de 15 anos, o Exército finalmente venceu a Marinha por um placar de 21-7, no Estádio M&T Bank, em Baltimore. A memorável vitória foi encarada com tamanho entusiasmo pelo Secretário do Exército Americano, que o levou a cogitar a concessão de um feriado para todo o Exército, o que, ao final, acabou não se concretizando.



No auditório Robinson (assim alcunhado em homenagem ao General Roscoe Robinson Jr., veterano da Guerra do Vietnã e primeiro General de quatro estrelas negro do Exército Americano), uma vez ao ano, pode-se ouvir o vibrante e uníssono brado: "Vá Exército! Vença a Marinha!". É em português mesmo! Nesse dia, uma nova turma, com cerca de 1100 cadetes, vai escolher um entre oito idiomas (alemão, francês, espanhol, russo, mandarim, persa, árabe e português) para estudar, obrigatoriamente, durante dois semestres.

O Departamento de Línguas Estrangeiras é um dos treze departamentos acadêmicos de West Point. É na seção de português que o Assessor do Exército Brasileiro junto à Academia Militar dos Estados Unidos da América desempenha suas funções. A missão surgiu fruto de um acordo de cooperação firmado ao término da Segunda Guerra Mundial, pelos Presidentes Eurico Gaspar Dutra e Harry S. Truman. O trabalho em conjunto dos integrantes dos dois exércitos durante o conflito revelou a importância do conhecimento mútuo do idioma, visando a proporcionar uma  melhor integração em missões futuras.

Em 1946, chegou a West Point o Capitão Jorge Augusto Vidal, observador aéreo da FAB (1ª Esquadrilha de Ligação Aérea e Observação) na Segunda Guerra Mundial, com 62 missões de combate no currículo, iniciando um dos mais profícuos e duradouros intercâmbios entre os Exércitos Brasileiro e Americano. Trinta e três oficiais sucederam o Capitão Vidal nessa missão, tendo a honra de participar da formação de gerações de líderes militares do Exército Americano.

O Assessor Militar é integrante do corpo docente da Academia Militar, com as mesmas prerrogativas e deveres dos oficiais instrutores dos outros departamentos. Ele atua como instrutor de cursos básicos e intermediários da língua portuguesa, além de ser coordenador e instrutor do curso de leituras militares no idioma português. Esse curso é específico para os cadetes que optam pela graduação na língua portuguesa. A Academia oferece um leque com mais de 40 graduações (Direito, Engenharia Nuclear, Pscicologia, entre outras), permitindo aos cadetes aprofundarem seus estudos e graduarem-se em um ou dois idiomas. Existe, ainda, a possibilidade de buscar-se a graduação em duas áreas diferentes, podendo ser uma delas em língua estrangeira. 

No exercício de suas atribuições como instrutor, o Assessor Militar prepara avaliações, elabora e atualiza o plano de disciplina dos cursos sob sua coordenação, coopera com outros departamentos ministrando aulas e palestras sobre temas relativos ao Brasil e ao Exército Brasileiro, participa da avaliação dos atributos da área afetiva dos cadetes e auxilia na coordenação de intercâmbios entre a AMAN, o IME e West Point. Apesar de o ensino da língua portuguesa ocupar bastante tempo da agenda do Assessor Militar, sua missão principal vai muito além das aulas de gramática. Ao longo de dois anos, ele é responsável por participar diretamente da formação de mais de 150 futuros oficiais americanos, tendo encontros diários, nos quais, além de conteúdos didáticos sobre a língua portuguesa, compartilha seus valores e experiências profissionais, ao mesmo tempo em que representa o Exército e a cultura brasileira.



Alguns assessores foram, inclusive, convidados por cadetes americanos para atuarem como seus mentores no curso PL300 de liderança militar, considerado um dos cursos obrigatórios mais importantes do currículo de West Point. Isto reforça a perspectiva de que o Assessor Militar tem a oportunidade ímpar de influenciar na formação do caráter, no desenvolvimento dos atributos da área afetiva e nos aspectos da liderança junto aos cadetes americanos, que poderiam ter optado por mentores da sua própria nacionalidade.

Mais do que ensinar os cadetes americanos a bradar corretamente "Vá Exército! Vença a Marinha!", o Assessor Militar do Exército Brasileiro tem por dever compartilhar suas experiências profissionais e os ensinamentos práticos colhidos ao longo da carreira, de modo a conduzi-los a refletir sobre suas próprias experiências, para que possam, cada vez mais, desenvolver os atributos necessários a um líder militar, no complexo mundo em que brevemente irão atuar.

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Procurando o rumo

Interpretar o cenário nacional é um desafio ao discernimento. A multiplicidade de apelos de conteúdo emocional parece criar perplexidade, anulando nos brasileiros o senso de responsabilidade pelo próprio destino. Dessa forma, temas vitais, porém desgastantes, como os da segurança pública, podem ser relegados impunemente na agenda legislativa.

Outras questões essenciais têm sido, igualmente, postergadas de modo sutil, como as do ajuste fiscal e da governabilidade. O acerto das contas públicas torna inevitável a discussão da questão previdenciária, mas não pode prescindir da racionalização do setor público. Contudo, essa preocupação tem-se restringido ao âmbito do Executivo e implicado cortes de incentivos ao setor privado, investimentos federais e custeio, sobretudo, da segurança. Infelizmente, não há notícias de ajuste no topo de nenhum dos três poderes.

No tocante à governabilidade, o dilema constitucional vem sendo omitido da agenda, como se tabu fosse. Curiosamente, o caso da Previdência mostra que mesmo a carta magna é suscetível à mudança de opinião, quanto o é a biruta à força do vento.Na Constituinte de 1988, o MDB atendeu às corporações de servidores, ao unificar o seu regime previdenciário, antes dividido por categorias de celetistas e estatutários. A "conquista" da aposentadoria integral, celebrada por milhares de funcionários, mas sem a contrapartida do tempo de contribuição, selou o destino futuro da previdência pública. Agora, o mesmo partido propõe uma reforma sumária, presumindo a necessidade de erradicar privilégios. O projeto, de inspiração draconiana, não deixou margem para uma solução transitória, como a que foi aplicada às estatais. Por isso, a reação implacável das corporações. E de fato, se aprovado como está, somente restaria aos quadros públicos a opção do mercado de previdência privada, tornado extremamente promissor, pela expectativa de afluxo dos novos clientes.

A inadequação da ordem jurídica agrava o fenômeno da carência de lideranças. A "Constituição Cidadã" revestiu-se de "cláusulas pétreas", que o constituinte pretendeu perpetuar, à revelia da lei natural do progresso. No capítulo dos direitos individuais, por exemplo, o inciso XVIII do Art. 5º estabelece que: "A criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento". Ao interditar o direito de defesa do Estado, estimulou-se a proliferação de organizações-não-governamentais, hoje calculadas em mais de 700 mil, muitas delas projetadas para atender a interesses ocultos, como os do crime organizado e os dos órgãos de inteligência estrangeiros que operam no território brasileiro.

Com as regras em vigor, nenhum presidente seria capaz de impulsionar as reformas estruturais necessárias. O gigantismo do Legislativo e a complexidade dos interesses partidários conspiram contra a agenda. A ineficácia dos processos age em favor da inércia, quando não impede a aprovação das proposições estratégicas. O poder executivo está submetido a uma dependência perigosa do parlamento, ficando praticamente impossibilitado de aprovar qualquer legislação que afete os interesses dominantes. Em acréscimo, por razões atávicas, a administração pública tem, ainda, de conviver com a hipertrofia da fiscalização dos órgãos de controle. A lei merece ser escoimada de ambiguidades, para simplificar os processos administrativos, assegurar a punibilidade dos corruptos e proteger a gestão pública da ingerência externa.

Por outro lado, a fluidez do "espírito da época" tem estimulado o surgimento de "outsiders" capazes de ameaçar o espaço de poder dos atores do "estamento burocrático", dando ensejo aos balões de ensaio que, inexplicavelmente, surgem do nada. O mais recente foi a proposta de mudança para o regime semipresidencialista, uma solução que nega ao presidente os instrumentos da gestão política, assegurando a manutenção do "status quo".

Em resumo, portanto, a carência maior do Brasil de hoje é de ordem em todas as suas expressões: política, econômica, social e jurídica. E o primeiro passo para alcançá-la é a revisão da Carta Magna.

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