Crise na caverna – Um case de Comunicação

Um treinador de futebol, ex-monge, resolve levar seu time de doze jovens para explorar uma caverna. De repente, a aventura torna-se tragédia. O mundo acompanha, atentamente, cada passo da equipe de resgate em Tham Luang.

O que esse real e espetacular roteiro cinematográfico tem a ver com gerenciamento de crises? Tudo. É a resposta que resume a questão.

Crises são situações de anormalidade com efeitos potenciais de destruição da imagem de pessoas, instituições e países. São capazes de agravar circunstâncias conflituosas e de gerar o estopim para conflitos armados. Para lidar com adversidades, é necessário antecipação, rapidez, proativade e "pré-atividade" na execução das tarefas essenciais ao controle de desdobramentos desenfreados.

No caso da caverna, não só a vida dos garotos do time de futebol "Javalis Selvagens" estava em jogo, mas também a reputação de todo um país. Então, tudo deveria ser feito para salvá-los e, consequentemente, preservar a imagem da Tailândia perante o mundo.

As ações iniciais foram tomadas quando o grupo foi dado como desaparecido. Especialistas em mergulho em áreas restritas, de naufrágios e desmoronamentos foram logo convocados, chegando ao local no terceiro dia. Em decorrência da comoção mundial, rapidamente centenas de pessoas passaram a viajar para aquele país asiático, particularmente, para a desconhecida província de Chiang Rai. Sem demora, jornalistas, mergulhadores, voluntários e turistas deslocaram-se para o "olho do furacão".

Como sempre acontece ao longo da história, os militares, "heróis-protagonistas" em catástrofes mundiais, assumiram o controle, o planejamento e a execução das diversas ações. Foi preciso reunir, de imediato, os meios disponíveis em pessoal e material. Porém, após extrapolados os recursos locais, a participação internacional foi essencial para o êxito das operações. A solidariedade humana foi amplamente explorada pela mídia estrangeira.

As autoridades tailandesas fizeram o isolamento do local, aproveitando a estrutura física da caverna para evitar que imagens não desejadas circulassem pelo mundo. O controle das imagens que vazaram foi eficiente, apesar da grande pressão da imprensa. Nesse contexto, foi relatada a prisão de um repórter cinematográfico por utilizar drone para obter imagens aéreas.

A mobilização foi rapidamente preparada e envolveu atividades de saúde, transporte, alimentação e apoio às famílias dos jovens. Além disso, foi montada uma estrutura de comunicação social, responsável por manter os jornalistas informados e realizar entrevistas coletivas com os coordenadores.

Os principais porta-vozes foram o Governador da província, Narongsak Osatanakorn, e o Contra-Almirante Arphakorn Yuukongkaew, responsáveis pelo procedimento de resgate, junto aos chefes das forças auxiliares e da defesa civil locais. Verificou-se, nitidamente, que todos passaram por media training para aperfeiçoar as habilidades nas entrevistas.

Em face do prejulgamento do técnico Ekkapol Chanthawong por parte da opinião pública, pela iniciativa de ter levado as crianças para a malsucedida aventura, foram divulgadas informações positivas a fim de preservar sua imagem. Dessa forma, ele foi considerado elemento-chave nessa terrível situação, pois utilizou técnicas milenares de meditação e sobrevivência, manteve a estabilidade mental dos jovens e cultivou a esperança, iniciativas fundamentais em situações dessa natureza.

Tudo ia correndo bem, até que tomba um herói – Saman Kunan – militar da reserva da Marinha Tailandesa. Tal foi seu espírito de renúncia que pediu férias do trabalho de segurança, no aeroporto de Suvarnabhumi, para participar como voluntário no salvamento. Adversidade: essa é a palavra que mostra para o que os profissionais de gerenciamento de crises devem se preparar. Tudo pode acontecer!

Desse modo, surge, inesperadamente, a necessidade de se destacar a ação meritória de Kunan, que perdeu a vida para salvar outras. Ações foram adotadas pelas Forças Armadas da Tailândia para informar a sociedade internacional sobre a fatalidade. Houve comovente homenagem póstuma, com honras militares, ao herói mundial que morreu cumprindo a missão.

Porém, torna-se necessário manter a impulsão do resgate. Cada momento era precioso para que o objetivo final fosse alcançado – o salvamento dos treze aprisionados. Imediatamente, o almirante Arpakorn pronunciou-se, bem treinado, em coletiva de imprensa. Assumindo a narrativa do discurso, destacou em frases de efeito: "Nosso moral ainda é forte. Vamos em frente e continuamos trabalhando. Apesar disso, prosseguiremos até cumprir nossa missão!"

Como o time estava muito debilitado, fruto de duas semanas preso na caverna, foram realizadas ações médicas e de reposição alimentar para que pudesse atingir condições físico-sanitárias mínimas, uma vez que era necessário atravessar trecho submerso nos estreitos túneis da caverna de Tham Luang.

Levando-se em consideração a ansiedade das famílias em ter de volta seus entes queridos, os coordenadores adotaram a tática de não divulgar quais meninos seriam resgatados inicialmente. Essa conduta foi tomada para não gerar exigência de priorização por parte das famílias. Escolheram-se os que estavam em melhores condições físicas, seguidos pelos que iriam, gradativamente, restabelecendo as condições nutricionais.

O resgate foi planejado para acontecer em três ou quatro dias, devido às fortes chuvas de monções na Tailândia, nessa época do ano. À medida que os meninos eram retirados, a pressão da imprensa internacional por informação aumentava, particularmente pelo nome dos resgatados e o real estado físico deles. Foi necessário preservar essas informações para que não houvesse prejuízo ao resgate.

Buscando notícias sobre o assunto na Internet, observa-se que existem poucas imagens. Sedentos por informações, os meios de comunicação internacionais utilizaram-se de infográficos, reportagens gravadas em outros locais e imagens de casos semelhantes. Essa observação mostra a eficiência da proteção e do controle informacional realizada pelo grupo de gerenciamento de crises tailandês.

Com o desenrolar do salvamento, ocorreram problemas como falha nas bombas de drenagem da água e aumento do nível da água nas galerias. Contudo, esses fatos foram controlados para que a situação se conduzisse de modo favorável.

Felizmente, todos os treze garotos foram salvos. Infelizmente, tombou um soldado.

Após o resgate, foram divulgadas imagens dos sobreviventes em um hospital tailandês, onde ficaram em recuperação por alguns dias. Passarão para a história como os "Javalis Selvagens" – campeões da "Copa da Sobrevivência de 2018".

Sem desmerecer os que trabalharam no resgate, ressaltam-se aqueles que atuaram nos bastidores da crise e em seu gerenciamento, por trás das cortinas, vendo o pano descer ao final do espetáculo, felizes por terem cumprido anonimamente suas tarefas.

Parabéns, guerreiros tailandeses da comunicação!

Missão cumprida!

Continuar lendo
  799 Acessos
  6 comentários
799 Acessos
6 comentários

Amizade ou interesse?

Não existem países amigos; não há amizade. O que existe são interesses. Aliás, as nações estão em eterno conflito de interesses. Contraditório? Não.

Amigo é o indivíduo com o qual se mantém relação de afeto, consideração, respeito, lealdade e espírito de ajuda. Países não possuem nem sentimentos, nem remorsos. Mesmo que tenham ressentimentos, não dispõem de atributos afetivos. Contudo, isso não significa que sejam inimigos e que não exista cooperação entre eles.

Existe relação profícua quando há algo importante, útil, vantajoso, benéfico ou conveniente entre as partes. Assim, os povos relacionam-se na busca de obterem ganho. Às vezes os interesses colocam-nos em situações opostas, o que amplifica as divergências.

Ocorre desavença na falta de entendimento, na divergência e na contestação entre os envolvidos. Segundo o Manual de Campanha Estratégia – C 124-1, conflito "é o enfrentamento intencional entre oponentes, predispostos a usar variado grau de violência. Possui ampla faixa de abrangência que vai do conflito entre indivíduos ou grupos de indivíduos ao que ocorre entre Estados ou grupos de Estados. A guerra é o conflito no seu grau máximo de violência." Dessa forma, países somente estão em situação de hostilidade quando há violência, em maior ou menor grau. A teoria do manual é estrita e contribui para limitar o conceito.

Atualmente, as disputas devem ser observadas num espectro mais amplo, pois "guerras ou divergências" acontecem, diariamente, nos diversos campos do poder, e não exclusivamente pelo uso da força ou da violência. Dentro de um mesmo território, também pode haver desentendimentos. Como exemplo, no Brasil, criou-se o conceito de "guerra fiscal" entre Estados ou cidades que aprovam incentivos fiscais com o objetivo de atrair empresas. Evidencia-se, nesse caso, clara disputa econômica entre governos estaduais ou municipais.

O conflito de interesses é a situação gerada pela discordância de algo importante entre os envolvidos. É nesse sentido que se explica o porquê de as nações estarem em eterna desavença. Normalmente, ela é vencida por aqueles que possuem maior poder para impor sua vontade.

Essa capacidade tem origem no potencial que o país tem de articular, de forma inteligente e criativa, seus diversos campos do poder, barganhando para atender a seus objetivos. O emprego de diferentes áreas do poder chama-se estratégia. E uma boa estratégia diminui as possibilidades de conflito.

No tocante à situação de divergências, podemos mencionar a ausência de relações diplomáticas entre China e Nicarágua e a disposição chinesa em investir num canal naquela região. Nesse caso específico, a China não reconhece a independência de Taiwan, adotando a postura de não manter relacionamento diplomático com governos que reconhecem a ilha como país.

A Nicarágua, que mantém relações diplomáticas com Taiwan, tem intenção em construir um canal para fazer frente ao do Panamá. Portanto, é candidata a receber investimentos chineses para a abertura dessa nova passagem pela América Central, unindo os oceanos Atlântico e Pacífico. A China, que é grande exportadora e importadora, é interessada nesse possível empreendimento, pois permitirá encurtar distâncias, barateando o custo dos fretes. Percebe-se, portanto, a existência de divergência política e interesse econômico entre as duas nações.

Algumas disputas não se resolvem sozinhas, por isso, há necessidade de conciliadores, mediadores, tribunais, comissões, organizações e instituições, entre outros, para a solução dos conflitos. Mesmo que os países possuam fortes relações comerciais, nada impede que haja, por exemplo, divergências em taxações de produtos negociados entre eles. Nesses casos, é preciso que organismos busquem uma solução para essas controvérsias de menor intensidade.

Como se observa, ainda que povos não estejam em guerra, podem entrar em conflito em outros campos, normalmente, no econômico. Ainda que haja parcerias econômicas, sempre serão questionados se há vantagens mútuas ou "soma zero" entre eles. "Ganha-ganha" ou jogo de "soma não zero", no contexto da teoria dos jogos, são aqueles em que todos os participantes se beneficiam de forma cooperativa. Segundo a mesma teoria, o jogo de "soma zero" refere-se ao ganho de um jogador que implica, necessariamente, na perda do outro. É possível que nas relações internacionais o jogo de "soma zero" esteja mais próximo da realidade, mesmo que no dia a dia essa situação não seja ostensiva e tão explícita.

O biógrafo grego Plutarco, nascido há quase dois mil anos, escreveu diversas obras, entre elas, "Como tirar proveito de seus inimigos". Apesar de o livro tratar do aperfeiçoamento moral entre homens, fazendo analogia simplista em relação à convivência entre nações, pode-se considerar, como reflexão, um dos seus pensamentos: "É próprio de um homem ponderado tirar proveito de seus inimigos".

Desse modo, não significa que os países sejam inimigos, mas é de sua natureza a busca de vantagens. Eles sempre procuram obter ganhos quando se relacionam, sendo obrigados a ceder em algum ponto. É verdade que pode haver afinidade entre povos, seja por ligações culturais, seja pela origem comum ou conveniência, mas os benefícios nacionais serão prioritários. Nas relações internacionais, reza a máxima "amigos, amigos, negócios à parte". O que existe são os interesses de cada um, afinal, "uma coisa é a relação de amizade, outra é a comercial".

Continuar lendo
  1262 Acessos
  4 comentários
1262 Acessos
4 comentários

Exército é destaque em produção científica nas Américas

O Exército Brasileiro está no centro de um dos mais seletos grupos acadêmicos do mundo, a partir da relevância da Biblioteca Digital do Exército (BDEx), criada recentemente na Instituição. A Universidade de Salamanca, na Espanha, reconheceu esse feito, formalizado no 56º Congresso Internacional de Americanistas (ICA), em 2018, com a apresentação do artigo "Biblioteca Digital do Exército: compartilhando informações, conhecimento e integrando a produção científica militar nas Américas". *

A Biblioteca tem sido o canal de fomento da produção científica e da discussão dos assuntos de defesa e segurança nacional. Esse projeto inovador foi elaborado pelo Centro de Doutrina do Exército, analisado e selecionado em um universo de mais de dez mil trabalhos para apresentação no ICA. O artigo defende a biblioteca digital como repositório temático, instrumento de difusão e compartilhamento do conhecimento produzido por militares designados para cursos no exterior.

O objetivo da plataforma é proporcionar visibilidade para as produções bibliográficas e científicas (manuais, instruções, regulamentos e artigos, monografias, dissertações e teses) e outras publicações que possam servir de base para pesquisas de interesse dos exércitos do continente americano. O projeto é um banco de dados em formato digital, que abriga temas de doutrina militar e assuntos de interesse do Exército, visando à gestão e à preservação do conhecimento, e à integração com o meio acadêmico.

A proposta de modernizar os meios de difusão do Exército com plataformas digitais open source (código aberto), que tiveram custo zero e otimizaram a utilização de recursos humanos, materiais, financeiros e tecnológicos, foi amplamente aceita pela Força, resultando na aprovação da Diretriz da Biblioteca Digital em 27 de março de 2018, o que, além de normatizar importante instrumento no apoio à gestão do conhecimento, também estabelece que os trabalhos de final de cursos de pós-graduação no exterior sejam disponibilizados na Biblioteca.

A Biblioteca Digital reforça a constante busca do Exército em melhorar os serviços para a comunidade, por meio da organização da informação e da transparência de suas atividades. Nesse aspecto, a Biblioteca pode ser acessada pela Internet, de qualquer lugar do mundo, por civis e militares, possibilitando acesso a informações de toda ordem. O projeto alcançou tamanha dimensão que, hoje, é referência para outras instituições, despertando a atenção da Universidade de Salamanca, na Espanha (quarta universidade mais antiga da Europa). Em consequência, a Força foi convidada para apresentar a plataforma na comemoração dos 800 anos da Universidade, no 56º Congresso Internacional de Americanistas, motivo de orgulho não só para os autores do trabalho, como também para o Exército.

O Congresso Internacional de Americanistas ocorre sob o lema "Universalidade e particularismo nas Américas" e chama atenção sobre a dialética entre a universalidade e os particularismos na produção do conhecimento. A visibilidade que a apresentação trará para o Exército será imensa, uma vez que poderá abrir portas ao aperfeiçoamento do intercâmbio de conhecimentos entre as américas, como foi o caso do convite do Ministério da Defesa espanhol para que a Biblioteca Digital passasse a integrar a Biblioteca Ibero-americana de Defesa, da qual fazem parte Chile, Peru, México, Colômbia, Espanha, entre outros países.

Esse Congresso teve início em 1875 e possui caráter interdisciplinar e inclusivo, reunindo pesquisadores que estudam no continente americano, a partir da análise de política, economia, cultura, línguas, história e pré-história, com o objetivo de formular novas hipóteses que possam enriquecer e reformular grandes teorias gerais das ciências e humanidades. Nesse contexto, vislumbra-se a importância do convite ao Exército Brasileiro para apresentar seu trabalho sobre o compartilhamento do conhecimento adquirido por militares em cursos no exterior, algo pouco difundido e, hoje, referência para várias instituições. Dessa forma, as barreiras físicas para a difusão da informação já não são mais obstáculos, visto que a tecnologia da informação e comunicação veio ampliar e acelerar os fluxos de informação e conhecimento.

O sucesso da Biblioteca Digital do Exército, como plataforma de difusão da informação e compartilhamento do conhecimento, despertou o interesse do Exército por outras formas de gestão da informação em plataformas digitais, tais como: EB EVENTOS (responsável pelo gerenciamento do evento, desde a inscrição até a disponibilização de certificados, e pela guarda do material produzido e apresentado); EB REVISTAS (responsável pela editoração e disponibilização de revistas eletrônicas) e EBUSCA (metabuscador capaz de indexar as bases de dados e facilitar a recuperação da informação). Em virturde do projeto   de portfólio das plataformas digitais de apoio à gestão do conhecimento,iniciado pela Biblioteca Digital do Exército, as produções intelectuais consideradas de interesse da Força são disponibilizadas, atualmente, para públicos dos mais diversos setores da sociedade.  Isso alinha a Força à vanguarda da gestão do conhecimento.

http://www.bdex.eb.mil.br,

* Os autores do artigo "Biblioteca Digital do Exército: compartilhando informações, conhecimento e integrando a produção científica militar nas Américas" são oficiais do Centro de Doutrina do Exército: Cel Cav Isaías de Oliveira Filho,  1º Ten de Biblioteconomia Ana Izabel Batista da Silva e 2º Ten de Arquivologia Priscylla Silva Araujo.

Continuar lendo
  1076 Acessos
  7 comentários
1076 Acessos
7 comentários

Crimes de guerra e ação fiscalizatória em conflitos armados

A respeito da repressão às violações das normas incriminadoras ou do cometimento dos intitulados crimes de guerra, cabe, inicialmente, uma remissão sobre as regras que regem a conduta dos participantes de um conflito armado.

O comportamento nesse cenário é regulado pelo Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA), também denominado Direito Internacional Humanitário (DIH). Trata-se de área do Direito Internacional dedicada à regulação do limite das hostilidades, com uso de determinados meios e métodos, e ao resguardo de certos bens e do zelo humanitário com pessoas protegidas, como feridos, enfermos, prisioneiros de guerra, internados civis, populações civis, e suas subcategorias.

O DICA estabelece mecanismos para garantir o respeito a essas normas, reconhece a responsabilidade individual e considera responsáveis pelas violações às regras os próprios indivíduos que as cometeram, ou que tenham dado ordens a terceiros para as cometerem, exigindo que esses infratores sejam punidos. Entre as infrações estabelecidas pelo DICA, as mais graves são consideradas crimes de guerra e seus autores são processados e julgados como criminosos.

No universo dos delitos de maior gravidade, incluem-se: homicídio intencional, tortura, tratamentos desumanos e atos que causem, intencionalmente, grandes sofrimentos desnecessários, conforme a previsão contida nas Convenções de Genebra de 1949, nos seus Protocolos Adicionais de 1977, e no Artigo 8º do Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional. O Brasil internalizou esses atos internacionais ao seu ordenamento jurídico pátrio, os quais estão em plena vigência.

Quanto à ação fiscalizatória do dever de cumprir e fazer cumprir as disposições normativas, o Estado é o principal garantidor do Direito Internacional dos Conflitos Armados e assume obrigações para afastar e mitigar violações que possam ser cometidas por seus agentes; ele também é o responsável pela ação ou omissão diante de particulares ou grupos que realizem, sem autorização, funções "próprias de Estado" e incorram em infrações decorrentes desse exercício.

Portanto, a fiscalização primária é do Estado, que tem a obrigação de reprimir todas as violações ao regramento humanitário e de dar publicidade aos atos infracionais também cometidos pela parte oponente. Aduzindo a esse dever fiscalizatório, há a previsão no Artigo 90 do Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra de 1949 (PA I), da constituição de uma Comissão Internacional para o Apuramento dos Fatos.

A Comissão é um órgão permanente, cuja função principal consiste em investigar todos os fatos que se alega constituírem infrações graves às disposições do DICA. É um mecanismo importante, que cuida da aplicação e do cumprimento do regramento humanitário em tempos de conflito armado.

Outra fonte de informações sobre supostas violações às leis do Conflito Armado é o jornalismo, considerando-o subárea das Ciências Sociais impregnada de responsabilidade social. Em determinado instante, uma matéria jornalística se transforma em documento relevante na busca do sancionamento das violações.

Quanto ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), como instituição neutra, imparcial e independente, faz-se imperioso ressaltar sua condição de principal promotor e divulgador do DICA no âmbito mundial. Uma vez que a qualidade de fiscal é incompatível com os requerimentos de neutralidade, pode ser que não se contemple nenhuma atribuição dessa espécie ao CICV, pois seu papel é de guardião e não de fiscal, e menos ainda de juiz.

São exemplos de violações graves ao DICA: matar ou ferir militares que tenham deposto suas armas e que não participam mais das hostilidades; e recrutar crianças para participar das hostilidades. A primeira condenação proferida pelo Tribunal Penal Internacional foi anunciada na Câmara de Julgamento pelos crimes de guerra de recrutamento e alistamento de crianças menores de 15 anos e pelo uso delas em conflitos no Congo, nos anos de 2002 e 2003.

Fica claro e evidenciado que crimes de guerra podem ocorrer não somente em conflitos armados internacionais (CAI), como também em conflitos armados não internacionais (CANI). A esse respeito, há um paradoxo devido à configuração da lei penal militar brasileira. É possível o cometimento de crime de guerra por agentes envolvidos em um conflito armado não internacional de fato, contudo, a denúncia deverá ser por violação da norma incriminadora inerente aos crimes militares em tempo de paz, diante das condições conceituais exigidas pelo Código de Penal Militar – "Crimes militares em tempo de guerra" (Art. 10), "Tempo de guerra" (Art. 15) e "Crime praticado em presença do inimigo" (Art. 25).

Por oportuno, merece destaque a adequada preparação das Forças Armadas como fato gerador do efeito dissuasório desejado para inibir as práticas contrárias à lei. O Estado brasileiro obriga-se a atuar de maneira concordante com diversas obrigações internacionais assumidas, observando as convergências entre as Convenções de Genebra e as disposições da Convenção Americana de Direitos Humanos, como o direito à vida das pessoas fora de combate e o direito de não ser submetido a torturas e tratamentos desumanos, discriminatórios, cruéis ou degradantes.

Inevitavelmente, o regramento humanitário e os direitos humanos incidem, cada vez mais, no amplo espectro das operações militares, o que demanda das Forças Armadas atuação mais cuidadosa, precisa, eficiente e eficaz na utilização da força legal para enfrentar a violência, sob avaliação dos parâmetros de efetividade e de controle dos organismos de supervisão e da opinião pública.

Nesse contexto, a atual "Diretriz para Integração do Direito Internacional dos Conflitos Armados às Atividades do Exército Brasileiro" (2016) visa estabelecer as orientações básicas, de caráter geral, para subsidiar o planejamento e as ações de integração do DICA, em todos os níveis de ensino, preparo e emprego do Exército Brasileiro, por meio de operadores qualificados, fortificando a cultura de respeito aos direitos fundamentais da pessoa e aos bens protegidos, durante o cumprimento da missão constitucional da Força Terrestre.

O Exército Brasileiro vem atuando por meio do aproveitamento de lições aprendidas de países que atravessam conflitos armados e da designação de militares para capacitação em Direito Internacional dos Conflitos Armados (DICA) e em Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) nas nações amigas. Além disso, tem cooperado com envio de instrutores para o International Institute of Humanitarian Law, na Itália, e de especialistas nas consultas temáticas promovidas pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Medidas sancionatórias devem ser aplicadas, com eficácia, nos casos de desrespeito ao DICA, para impedir que um comportamento reprovável seja tolerado ou mesmo aceito. As sanções penais e disciplinares assumem a função preventiva dissuasória, a fim de contribuir com a conscientização do dever de observar as normas e a demonstração de que a cadeia de comando defende, com firmeza, os valores éticos, profissionais, militares e fundamentais do DICA.

A regulamentação do uso seletivo da força exige operar sempre nos limites da lei, permitindo a conquista de parâmetros de confiança da opinião pública. O apoio da população às ações empreendidas pelo Exército Brasileiro, sob os contornos legais e a ética profissional militar, faz parte do êxito operacional para se alcançar o estado final desejado.

Continuar lendo
  554 Acessos
  8 comentários
554 Acessos
8 comentários

Estejamos preparados! A guerra sequer começou

O livro "1984" – último romance de George Orwell – foi escrito em 1949. Para o autor, seriam necessários 35 anos para que alguns dos mecanismos do controle e da manipulação da informação e dos recursos tecnológicos visualizados naquela época se transformassem em realidade. Se ele acertou em uns aspectos, errou longe noutros. O autor vislumbrava um futuro aterrorizante, com grande parte da população sem acesso à informação.

Mas, o que se verifica nos dias atuais está distante dessa conjectura. Devido à velocidade com que ocorrem as transformações, é difícil imaginar o que acontecerá daqui a 35 anos, pois as possibilidades são infinitas.

Desse modo, correndo-se o risco de errar tal como Orwell, podem-se levantar algumas perspectivas para anos vindouros.

Os grandes desafios que surgem da nova sociedade, a começar pela difícil tarefa de descobrir como manter a popularização dos meios de comunicação e suas constantes inovações tecnológicas, podem aproximar pessoas de audiências distintas fazendo uso de diversas linguagens. Com a evolução da Internet e da tecnologia, o público, que até então só consumia a notícia, pode agora produzir o seu próprio conteúdo.

As informações são voláteis, possuem pouca durabilidade, sendo rapidamente superadas, o que exige maior dinamismo na produção do conhecimento. A partir do advento da Internet, os paradigmas da comunicação sofreram se não uma ruptura, um abalo profundo nos seus fundamentos. O modelo simplificado "emissor – mensagem – receptor" ganhou complexidade: a de que todos podem ser potenciais emissores. A mensagem tornou-se mais veloz em um mar de informações, que chega a números impressionantes, como as 300 horas de conteúdo disponibilizado por minuto no YouTube.

As oportunidades de toda essa conexão e comunicação cada vez mais rápida e com maior abrangência exigem agilidade e preparo. A lentidão e o despreparo oferecem a outra face: a ameaça. Porém, qual a estratégia para enfrentar um cenário desses?

Nem sempre a empresa maior derrota a menor, e sim a mais rápida vence a mais lenta. A velocidade é cada vez mais importante também na manutenção da credibilidade e no fortalecimento da imagem das organizações.

Então, respondendo à pergunta, o preparo para esse cenário é ter, além do conhecimento técnico, estruturas capazes de responder às demandas em pouco tempo, evitando que uma exposição negativa perdure. Quanto mais permanecer em evidência, maior será o dano à imagem.

Um vídeo gravado por celular pode atingir milhares (ou milhões) de pessoas em poucos minutos, não sendo possível controlá-lo. Porém, o que aparecerá nas imagens? Pode ser um militar ajudando uma senhora a atravessar a rua ou usando uma viatura para descarregar lixo em área de preservação ambiental.

Se o vídeo, que ganhará milhares de visualizações no YouTube, for o da primeira opção, ótimo! Caso seja o da segunda, a resposta terá que ser rápida. Respondendo ou posicionando-se da forma certa – e aí não se trata somente de comunicação –, a resposta deve ter atitude compatível com os valores da Instituição. O erro, que poderia ser uma ameaça, transforma-se em oportunidade para que se reforcem as mensagens e se ganhe ainda mais credibilidade.

Outra questão a ser abordada encontra-se na decadência de valores ou na valorização de novas convicções sociais. Os últimos anos têm demonstrado a falta de credibilidade de diversas instituições governamentais, fazendo com que a sociedade busque aquelas que comprovam correção, tradição, valores éticos e morais. Assim sendo, essa pode ser uma janela de oportunidades para o Exército, que é, reconhecidamente, a Instituição que representa, com naturalidade, essas necessidades.

Há, em andamento, luta silenciosa e desigual nos bastidores da comunicação entre a valorização daquilo que as pessoas de bem consideram "correto" e as forças obscuras que cultuam o "errado". As Forças Armadas e, em especial, o Exército Brasileiro, são as instituições que mais têm atendido às diversificadas demandas da sociedade, até aquelas intangíveis e apenas no imaginário dos cidadãos. As crescentes correntes de pedido de participação em assuntos que, muitas vezes, não são missões constitucionais, demonstram a elevada confiabilidade da população nas três Forças, situação comprovada por pesquisas de opinião.

Por fim, esses dois fatores – a dinâmica provocada pelas inovações tecnológicas e as mudanças culturais e de valores – vão motivar ajustes ou correções de rumo da comunicação social.

Estejamos preparados! A guerra sequer começou.

Continuar lendo
  1782 Acessos
  7 comentários
1782 Acessos
7 comentários