Passagem de Comando das Organizações Militares do Exército: Ritual e Simbolismo

Quando se pensa em rituais e simbolismos, vem à cabeça, no senso comum, algo pertencente ao mundo místico de civilizações antigas, compreendendo sacrifícios, entidades e magia. Embora considerados temas clássicos da Antropologia (disciplina que tem nas diferenças culturais entre os coletivos humanos seu principal objeto de estudo), as teorias sobre rituais e simbolismos conduzem a pensar, de forma ampla, sobre modos de significação e experiências sociais diversas, envolvendo coletividades, sejam elas de profissionais, de religiosos, de políticos, sejam urbanas ou rurais, quaisquer que sejam, em qualquer período histórico.

Na trajetória da humanidade, alguns grupos de pessoas internalizaram características peculiares, maneiras de "ser" e "agir" que, ao longo do tempo, tornaram-se marcas indeléveis de uma "personalidade coletiva", forjada naquilo que sempre acreditaram, praticaram e defenderam. Assim são os militares, grupo de homens e mulheres, com marca cultural própria, baseada, sobretudo, em valores e crenças. Nesse sentido, a Antropologia pode contribuir para explicar a permanência do espírito militar que, apesar de ter atravessado conjunturas históricas distintas, faz com que o Exército de hoje seja o mesmo Exército de ontem.

Por definição, para Rodolpho (2004), os rituais dão forma à vida das pessoas e demonstram a ordem e a promessa de continuidade de determinados grupos sociais. Seu valor está no fato de que podem servir como ferramenta conceitual importante para a compreensão e a interpretação desses mesmos grupos, de seus valores e de suas crenças.

O antropólogo britânico Victor Turner, uma das maiores referências acadêmicas no estudo dos rituais e simbolismos, definiu-os como partes de um grande sistema de significados, característicos de determinadas culturas. Para o autor, os rituais seguem uma ordem e estrutura, possuem um sentido coletivo, com propósito definido, partilham atos formais e padronizados, evidenciam o que, embora usual, difere do cotidiano. Os rituais, ainda, envolvem valores, são presenciados por testemunhas e possuem alto grau de institucionalização.

Já os símbolos se caracterizam por serem as menores unidades de um ritual e expressam, no campo material, aquilo que se opera no nível mental. Os símbolos, de uma forma simplista, instrumentalizam os rituais. A eles atribuem-se propriedades que não possuem objetivamente, mas que possibilitam incorporá-los ao mundo real.

No escopo das tradições castrenses mais significativas, encontra-se a Passagem de Comando (considera-se igualmente a Passagem de Chefia ou Direção) das Organizações Militares, evento que traduz muito da cultura militar, notadamente do culto aos Símbolos Nacionais do Brasil e às referências históricas.

Sob essa ótica, é possível afirmar que as Passagens de Comando se encaixam perfeitamente no ideário proposto por Turner. Esse ritual castrense é, portanto, um mecanismo de reprodução da vida social dos militares, que possibilita o entendimento das relações existentes no âmbito da caserna, das crenças e dos valores cultuados, e que se repete, sistematicamente, da mesma forma, em todas as Organizações Militares espalhadas pelo País.

Sendo assim, fica claro observar que cada evento pertencente às Passagens de Comando, a exemplo da inauguração do retrato do Comandante sucedido, a entrega do distintivo de comando, as diferenças nos uniformes militares dos participantes, a leitura da referência elogiosa consignada e as palavras de despedida do Comandante substituído, a formação da tropa e a tomada do dispositivo para a cerimônia de transmissão do cargo, traz à tona símbolos próprios, confere significação e, principalmente, ressonância afetiva a todos os presentes.

O ritual da Passagem de Comando é, assim, o início de um processo de construção de uma nova relação social, incluindo a pessoa do novo Comandante, a sua família, a nova Organização Militar e a cidade que os recebe. Para aquele que deixa o Comando, as vivências durante esse período transitório, seguramente, deixarão marcas permanentes na personalidade, com reflexos nas vidas profissional e pessoal.

Para os militares, que o desempenho do cargo de Comandante exige atributos bastante peculiares do oficial. Dessa forma, a Passagem de Comando se traduz em evento que extrapola uma simples cerimônia protocolar. Caracteriza-se objetivamente como um ritual de compromisso e confirmação dos valores do Exército, por ser transformador na vida dos Comandantes e da própria Organização Militar.

Continuar lendo
  1056 Acessos
  0 comentários
1056 Acessos
0 comentários

A reestruturação da remuneração dos militares das Forças Armadas e os efeitos na redução de gastos do Governo

 

A forte crise econômica que se abate sobre o País requer medidas de contenção de gastos, no âmbito da administração pública. Independentemente dos fatores que deram origem à atual crise, seus reflexos são sentidos diretamente por grande parcela da população brasileira, quer pela perda de poder aquisitivo, ocasionada pelo retorno da inflação, quer pela redução da oferta de emprego, levando à mudança de hábitos de consumo e à busca por novas alternativas de renda.

 O Governo Federal tem anunciado, entre outras reformas, a necessidade de uma Reforma Previdenciária que se traduz em mais um grande esforço ao qual todos os cidadãos brasileiros serão submetidos. A argumentação está em que o Tesouro Nacional não tem como arcar com os elevados déficits gerados pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS), pelo Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) e pelas pensões pagas às pensionistas de militares.

Continuar lendo
  1778 Acessos
  3 comentários
1778 Acessos
3 comentários

Despesas com militares: a busca pela equidade e isonomia - Gen Div Eduardo Castanheira Garrido

Recentemente, surgiram questionamentos sobre o orçamento da Defesa e a sua distribuição entre despesas de pessoal, investimentos e custeio. Uma leitura da LOA 2016 demonstra que de um total de R$ 82 bilhões, cerca de R$ 10 bilhões são destinados a investimentos e outros R$ 10 bilhões para custeio, sendo o restante destinado ao pagamento de pessoal.

Continuar lendo
  714 Acessos
  0 comentários
714 Acessos
0 comentários

Major Apollo: o Herói que não pode ser esquecido

​Há dezoito anos, na madrugada de 21 de janeiro, o Exército viu partir um de seus melhores soldados e a Força Expedicionária Brasileira (FEB) perdeu um dos seus maiores heróis.

A galeria dos destaques da FEB reservara para aquele combatente um lugar de relevância. Em 19 de maio de 1945, no teatro de operações da Itália, o 1º Tenente da Reserva Apollo Miguel Rezk, comandante de pelotão da 6ª Cia do 2º Btl do Regimento Sampaio, era solenemente condecorado pelo General Lucien Truscott, comandante do 5º Exército americano, com a "Distinguished-Service Cross", mais importante medalha de bravura do governo dos Estados Unidos, pela tomada de La Serra, em apoio à 10ª Divisão de Montanha. O Ministro da Guerra do Brasil, General Newton Estillac Leal, ao promover o Ten Apollo ao posto de Capitão, destacou:

"A promoção se justifica, sobretudo, em virtude da conduta excepcional desse oficial no teatro de operações da Itália, onde, entre as diversas condecorações recebidas por bravura, lhe foi conferida a medalha "Distinguished-Service Cross", do Exército americano, por heroísmo extraordinário em ação, distinção máxima somente concedida a este combatente brasileiro."

Anteriormente, em 30 de março de 1945, o Ten Apollo já recebera, na frente de combate, a "Silver Star", outra importante condecoração do Exército americano, por sua destacada atuação no ataque a Monte Castelo, em 12 de dezembro de 1944. Pelo governo brasileiro, foi condecorado com quatro medalhas: "Medalha de Sangue" (ferimento em ação), "Cruz de Combate de 1ª Classe", "Medalha de Campanha" e "Medalha de Guerra". As ações do Ten Apollo, que ultrapassaram os limites da existência física, transformaram-se em páginas gloriosas da história militar do nosso país, onde, infelizmente, os verdadeiros heróis não são cultuados.

O Ten Apollo foi um dos 452 oficiais R/2 combatentes – de um total de 1070 oficiais subalternos da FEB – que embarcou para a Itália, em 22 de setembro de 1944, com o 2º escalão. Declarado Aspirante a Oficial da Reserva da Arma de Infantaria no CPOR/RJ, em 29 de novembro de 1939, o jovem não se descuidou de sua formação civil: formou-se em Perito-Contador, na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro, e em Economia, na Faculdade de Economia e Finanças do Rio de Janeiro.

Ao retornar da Itália, após uma passagem pelo COR (Curso de Oficiais da Reserva), prosseguiu na carreira militar, assim como inúmeros oficiais R/2 febianos, e serviu no Regimento Sampaio até 1947, quando foi transferido para o Batalhão de Guardas. A promoção a Capitão veio em 1951, a contar de 1947. Em 1955, foi transferido para a 5ª RM e designado Ajudante de Ordens do General Mário Perdigão.

O Capitão Apollo teve a sua carreira interrompida precocemente. Um antigo problema de pés planos, agravado pelo congelamento no frio intenso do inverno italiano, conhecido como pé-de-trincheira, deixou-o inapto para o serviço ativo. Em 09 de dezembro de 1957, aos 39 anos, foi promovido a Major e reformado.

Esteve presente em seu funeral um oficial da marinha americana, representando o adido. Pouco antes do sepultamento, o militar, ao ser informado que o herói não recebera promoção por bravura, dirigiu-se à filha do Major Apollo nos seguintes termos: "não entendo vocês brasileiros. Na minha terra, alguém com as importantes condecorações de guerra do Major Apollo teria recebido, ao longo de sua vida, as homenagens, o respeito e a gratidão de seu povo."

Em 1999, o Conselho Nacional de Oficiais da Reserva instituiu a Medalha "Major Apollo Miguel Rezk" para homenagear militares e civis que tenham se destacado em ações de apoio aos oficiais da reserva.

"Conspira contra sua própria grandeza o povo que não cultiva seus feitos heroicos".

Continuar lendo
  1919 Acessos
  2 comentários
1919 Acessos
2 comentários

Ainda há Chefia com Liderança

O tema da chefia – de que já tratei neste Blog (Chefia com Liderança e Disciplina Consciente) – adquire interesse especial na relação chefe-subordinado quando ocorre num quadro de natureza autocrática, em que o chefe não deseja ser autoritário. Trata-se de pessoa não escolhida pelos chefiados, que nada lhe delegaram, e que precisa conquistar legitimidade perante eles, além da legalidade institucional que possui. Caso típico do serviço público, das instituições militares e eclesiais, e das corporações empresariais, nos quais o chefe é escolhido pelos níveis superiores da organização, em tese devido a seus méritos.

Continuar lendo
  901 Acessos
  0 comentários
Marcado em:
901 Acessos
0 comentários