O espírito de corpo dos militares

O espírito de corpo dos militares

"(...) um grupo não é somente uma autoridade moral regendo a vida de seus membros (...) ele libera um calor que aquece e reanima os corações, que os abre à simpatia e derrete os egoísmos" (Durkheim, 1978:30). Embora carregado de figuras de linguagem, esse texto de um dos autores clássicos da Sociologia descortina um campo fértil para o surgimento do espírito de corpo nos agrupamentos sociais.

Haroche (2006:10) definiu 'espírito de corpo' como: sentido genérico de 'espírito de grupo' que, em certos aspectos, se confunde com o 'espírito comunitário', o 'espírito tribal' e 'clânico' e também com o espírito sectário" (apud: Freud, 1921/1997). Outro autor assim o define: "... recurso coletivamente incorporado que permite a cada um dos membros de um grupo integrado de participar do capital individualmente adquirido por todos os outros". (Bourdieu, 1989: 258-259, apud: Cunha e Hering, 2012: 251 e 256).

Via de regra e notadamente no meio militar, o espírito de corpo não deve ser confundido com o corporativismo no seu sentido distorcido, entendido nessa ótica como instrumento que privilegia interesses de uma categoria e que, por vezes, atenta contra a ética e os valores.

Isso é, em certa medida, fácil de explicar, pois na 'cultura militar' a servidão do trabalho na caserna dependente da sinergia do sistema de valores pessoais e coletivos. O profissional militar é preparado para o exercício cívico da violência levado às últimas consequências, e ninguém em paz de espírito e sã consciência conseguiria puxar o gatilho se não estivesse firme no propósito dos preceitos castrenses que comunga e que jurou defender, com o sacrifício da própria vida.

Como reflexo de uma identidade coletiva, formada a partir de uma espécie de relação simbiótica de seus integrantes, o espírito de corpo dos militares se forja nas escolas de formação, em qualquer nível, onde a práxis é transmitida de geração em geração por militares mais antigos. Esses chamados instrutores veem os seus instruendos como aprendizes que, paulatinamente, irão substituí-los e carregarão parte do legado profissional que foi transmitido, uma forma de herança familiar na lógica da sucessão.

Aos militares, o espírito de corpo não é uma representação, mas um verdadeiro laço real e necessário ao desempenho da função. Nesse meio, rivalidade e desconfiança são deixados de lado, porque tudo é pelo coletivo e em prol do grupo. Essa dinâmica, embora possa parecer contraditória, é favorável ao surgimento da iniciativa e da liderança. Como explicar as calorosas e concorridas reuniões de turma das escolas militares, passados 40, 50 anos de formação? Como explicar o sentimento de pertencimento ao segmento militar entre civis, mesmo quando inexistem as condições do compromisso legal do serviço? O espírito de corpo abre o leque de respostas a grande parte dessas perguntas.

Sou oficial da turma de formação do ano de 1993 da Academia Militar das Agulhas Negras (escola de formação dos oficiais de carreira do Exército Brasileiro). Foram pouco mais de 500 (quinhentos) aspirantes que se formaram naquela oportunidade.

Curioso que, passados mais de 24 (vinte e quatro) anos daquele momento, guardamos ainda um forte sentimento de camaradagem e apreço quando reencontramos um companheiro da turma, mesmo que o convívio no passado tenha sido curto. Nesses reencontros, mesmo os menos conhecidos se tornam "os amigos mais próximos" pelo simples fato de pertencerem à turma. Esse mecanismo de identificação com o outro é resultado do espírito de corpo. Transferimos a todos do grupo, indistintamente, o mesmo sentimento de camaradagem.

O espírito de corpo é, portanto, uma face visível do alto grau de endogenia da Instituição Militar, construído no sacrifício das experiências da caserna, principalmente, nas adversidades e na superação dos limites, por isso ele tem conotações próprias em nosso meio, diferentemente de outros grupos. É uma das características basilares que mantém as Forças Armadas vivas e será o mecanismo de coesão em tempos de crise, o sustentáculo da nossa hierarquia e disciplina.

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O líder faz a síntese dos anseios do grupo: um estudo de caso

O líder faz a síntese dos anseios do grupo: um estudo de caso

Ao contrário do que muitos pensam, a violência que caracteriza o conflito árabe-israelense no Oriente Médio tem raízes e causas relativamente recentes. Árabes e judeus são dois povos semitas que mantiveram relação de harmonia ao longo da história, inclusive, durante a ocupação árabe na Península Ibérica (711 – 1492), ocasião em que os judeus conheceram um período de liberdade econômica, cultural e religiosa.

Do mesmo modo, as pequenas colônias judaicas no Oriente Médio viveram em paz com a maioria árabe-muçulmana até o final da Primeira Guerra Mundial, não tendo fundamento os argumentos que pretendem explicar o conflito existente hoje, com antagonismos religiosos e raciais seculares.

Trata-se de questão política, gerada por motivações ideológicas, psicossociais e econômicas bastante precisas, que se misturam, de modo mais forte, a partir do surgimento de uma proposta estruturada do movimento sionista (no final do século XIX), que continha, em seu bojo, a criação do Estado de Israel na Palestina.

O presente estudo refere-se a dois líderes do conflito entre judeus e palestinos - Ariel Sharon e Iasser Arafat -, ambos com forte atuação no campo militar e político, homens que souberam fazer a síntese dos anseios de seus povos.

Ariel Sharon, nascido na Palestina, filho de judeus russos, participou de todas as guerras nas quais se envolveram os judeus, desde a criação do Estado de Israel. Sempre foi considerado estrategista brilhante e homem de ação, do tipo que "resolve a questão". Entretanto, em diversas ocasiões, foi acusado de haver ultrapassado os limites que o bom senso permitia, provocando reações políticas e militares desnecessárias. Conta-se que, em 1953, numa operação tipo comandos, em uma vila, provocou a morte de dezenas de civis inocentes.
Também ficou conhecido por discutir asperamente com os superiores hierárquicos, demorando cerca de nove anos para ser promovido a general. Não demonstrava ser um indivíduo religioso e não se alinhava aos radicais sionistas.

Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi o principal mentor da ocupação da Cisjordânia com assentamentos judaicos, que garantissem a posse daquela região para Israel. Em 1972, no cargo de ministro da defesa, atacou as forças da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), expulsas da Jordânia e homiziadas no Líbano, de onde apoiavam, militarmente, as facções políticas islâmicas contra os cristãos libaneses, provocando uma guerra civil naquele país, antes considerado a "Suíça do Oriente Médio". Com o apoio de Israel, os cristãos libaneses, talvez como vingança, teriam massacrado 800 civis palestinos.

Mais tarde, Sharon tornou-se o Primeiro Ministro de Israel, posição à qual foi alçado quando os judeus se viram pressionados pelas ameaças das guerrilhas dos radicais islâmicos, que usam o terrorismo sistemático como principal arma. A política de Sharon sempre foi "olho por olho, dente por dente".

Sob suas ordens, o Exército de Israel provocou constantes retaliações contra os terroristas palestinos homiziados entre a população civil, causando a morte de inocentes. Sharon entendia que os judeus nunca deveriam ser fracos novamente.

Iasser Arafat nasceu no Egito e era, aparentemente, homem religioso, embora não fosse fundamentalista islâmico. Quando tinha 30 anos, criou a Al Fatha (A Vitória), grupo terrorista que precedeu a OLP, entidade patrocinada com dinheiro e armas pela extinta URSS.

Era considerado o líder que construiu a identidade e o nacionalismo palestinos. Foi pai aos 73 anos, mas sua mulher e filho viviam em Paris, longe da guerra. Tornou-se o presidente da Autoridade Palestina em 1994, ocasião em que renunciou, publicamente, ao terrorismo e pareceu entender que não haveria solução puramente militar para o conflito.

Contudo, a partir dessa época, perdeu o controle sobre os fundamentalistas pertencentes a diversos grupos radicais menores, que intensificaram as ações terroristas por meio de mísseis e "homens-bomba", alguns dos quais parecem ter sido treinados desde crianças.

Sharon e Arafat têm algumas características comuns que favorecem a liderança:
- eram "homens de ação", visivelmente comprometidos com a causa das respectivas nações. Foram personagens que não se mantiveram no conforto dos gabinetes, mas que se engajaram pessoalmente na guerra e na política, responsabilizando-se pelos resultados das decisões que tomavam.

- revelaram enorme iniciativa, tendo participado ativamente da história recente de seus povos, por meio da implementação de medidas para resolver os problemas existentes.

- Sharon procurou garantir a defesa do Estado de Israel, aumentando a área disponível aos judeus e fortalecendo as Forças Armadas. Já Arafat construiu a identidade e o nacionalismo palestinos. Além disso, buscou novos espaços para os refugiados, empregando a guerra irregular, que usa o terrorismo e a guerrilha como instrumentos.

- ambos eram homens de grande coragem, testados continuamente em combate e em confrontos políticos.

É interessante verificar que o atributo coragem sempre surge como importante para a liderança nas situações de guerra.

Por fim, nas contínuas crises vividas por seus povos no longo confronto do Oriente Médio, o mais relevante é que os dois líderes foram capazes de fazer a síntese dos anseios de cada grupo: segurança (judeus) e território (palestinos).

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