Inteligência eficaz não pressupõe ausência de confronto

“Os espiões são os personagens centrais de uma guerra. Sobre eles repousa a capacidade de movimentação de um exército” (SUN TZU).

A literatura e o cinema ajudaram a cristalizar a percepção de que a boa inteligência é aquela que se baseia essencialmente na espionagem. Autores como Tom Clancy, Ian Fleming e Frederick Forsyth eternizaram personagens dotados de múltiplas qualidades, requeridas tanto para trabalhos de campo quanto para análise de informações. No mundo real, sabemos que isso raramente funciona. Bons analistas são dotados de atributos cognitivos que não têm a ver com a arriscada tarefa de garimpar dados brutos cuja qualidade é diretamente proporcional à periculosidade do ambiente em que estão diluídos. É o trabalho de análise dos dados, por sua vez, que resulta no assessoramento preciso ao tomador de decisão. Mas para que esse auxílio possa existir, é necessário que os fragmentos de informação cheguem ao analista.

É curioso, portanto, que determinados “especialistas” em segurança pública -  profissão em franca e lucrativa expansão no Brasil -, ao se expressarem sobre confrontos entre forças policiais e criminosos, repitam mecanicamente, na ausência de argumentação mais concreta e pragmática, que o problema da segurança pública no Rio de Janeiro é que “falta inteligência”. Além de ser vocalizada de modo recorrente e quase inconsciente, essa assertiva sugere também outra falácia: a de que a fricção ocorrida entre facínoras armados de fuzil, entrincheirados em fortalezas naturais, e os agentes policiais que tentam efetuar suas prisões, poderia ter sido evitada se “houvesse mais inteligência”.

O emprego eficaz da inteligência não pressupõe ausência de confronto, simplesmente porque o modo de obtenção da informação desejada é dependente do comportamento do alvo que a retém, podendo ser ele (o alvo) uma pessoa, uma emissão eletromagnética ou uma imagem de satélite, por exemplo. É descabida a noção de que será sempre possível acessar um dado importante, negado e protegido contra a difusão indiscriminada, de modo insidioso e disfarçado, sem o ônus da superação de determinadas barreiras físicas. Quando os obstáculos interpostos entre o agente e o dado buscado se valem de meios violentos, como nos casos da atividade de inteligência militar ou policial, não raro haverá fricção com desdobramentos imprevisíveis. A própria doutrina de operações militares contempla essa modalidade de obtenção de informações: o chamado Reconhecimento em Força.

Novamente é interessante notar que, licenças poéticas e exageros do cinema à parte, o próprio imaginário popular não só admite que um agente de inteligência altamente hábil tenha “permissão para matar”, como também enxerga, com naturalidade, o fato de que ele descarre sua arma cada vez que a missão exige. Também é comum a confusão entre – inteligência e investigação policial – como se fossem sinônimos. E como se o primeiro estivesse restrito ao trabalho técnico de obtenção de provas para instrumentalizar um inquérito, que é a essência do segundo.

A História Militar é pródiga em exemplos de como o emprego prévio da inteligência foi decisivo para as fases posteriores das campanhas, quando as operações de vulto são deflagradas. Embora a glamourização e a escassez de exemplos conhecidos deem grande destaque à espionagem sutil como técnica de inteligência, o fato é que dezenas de milhares de agentes - civis e militares - tombaram em decorrência de confrontações armadas, quer na tentativa de manutenção do disfarce, quer no patrulhamento ostensivo atrás das linhas inimigas. O próprio Direito Internacional dos Conflitos Armados, realístico por natureza, admite a existência da atividade de espionagem como ação basilar para o sucesso das operações militares, embora não estenda ao espião capturado em ação a proteção do Estatuto do Combatente. Como se sabe, grande parte dos países pune a espionagem de modo severo, em alguns casos com a pena capital.

A operação do Comando Conjunto da Intervenção Federal nos Complexos do Alemão, Penha e Maré, no dia 20 de agosto, foi didática no sentido de demonstrar dois aspectos. Primeiro, o emprego integrado de diferentes abordagens da atividade de inteligência, que permitiu tanto efetuar prisões em flagrante, sem nenhum disparo sequer, quanto mapear preliminarmente os principais pontos de interesse no terreno. Segundo, o grau de irracionalidade da criminalidade carioca que ultrapassa todos os limites do razoável: mesmo cercados por 4.200 homens, 20 blindados e 3 aeronaves, os criminosos se recusaram a aceitar a rendição oferecida, partindo para um confronto em meio à população civil inocente. O saldo indesejável de 8 óbitos - 5 bandidos e 3 militares do Exército -  somente reforça o fato de que, não fosse a sinergia obtida pelas inteligências militar e policial, certamente o desfecho teria sido ainda mais doloroso e lamentável. Nota-se que houve também, de modo concreto, a aplicação das três funções operacionais básicas: sensoriamento (coleta e busca de dados), processamento (análise dos dados e tomada de decisão) e atuação (uso legítimo da força).

 Embora tenha caráter atual, seja abrangente e esteja alinhada aos objetivos do Estado brasileiro, a Política Nacional de Inteligência (Decreto nº 8.793, de 29 de junho de 2016) não visualiza a possibilidade de que agentes possam, no decorrer da busca sigilosa de dados, obter uma excludente de ilicitude na prática de eventuais atos que, mesmo estando tipificados como crime, sejam indispensáveis à sustentação de seu personagem na organização ou atividade que tenta escrutinar. Obviamente isso esbarra em questões sensíveis de limites éticos indispensáveis ao exercício do poder no Estado Democrático de Direito, mas é uma possibilidade que poderia ser trazida à discussão quando se fala em eficácia da atividade de inteligência com fins de proteção da sociedade. Infelizmente, o que temos visto é uma discussão ideologizada e a cegueira epistêmica de certos especialistas que disseminam absurdos como: “o que falta à inteligência é mais transparência”.

Nada no juramento feito pelos policiais e militares os obriga a sublimar seu instinto básico de autopreservação, sobretudo em face de um fora da lei armado de fuzil que, negando-se à rendição oferecida, atira impiedosamente contra eles. Isso nada tem a ver com inteligência. Trata-se de uma resposta proporcional e legítima contra indivíduos cruéis que se acostumaram a atacar policiais outrora enfraquecidos e compreensivelmente desmotivados, devido ao abandono a que foram submetidos por décadas de negligência e descaso.

As Forças Armadas e a Sociedade
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Comentários 12

Visitantes - Martins em Sexta, 07 Setembro 2018 15:03

A política “fake ideologized” anda por trás de tudo o quanto está ocorrendo no Brasil. Infelizmente o poder público civil fracassou e abriu as portas para esse caos absoluto. Essa do politicamente correto só serve para dar proteção a um sistema que se julga capaz de fazer juízo de valor somente das coisas que lhes convém estas por vezes inconfessáveis. Pobre Brasil! A que ponto chegou!? Inegável que a sociedade de mais alto padrão de vida, fechou os olhos para todos os graves problemas em sua volta e o resultado disso é que agora ela cobra dos outros, aquilo que poderia ser evitado se esta saísse pelo menos um pouco de suas áreas de conforto procurando entender os problemas dos excluídos e abandonados às suas próprias ‘más’ sortes; resultado: todos estão agora suplicando por uma solução ou quem sabe, um milagre. Voltando à “fake ideologized”, só não enxerga quem quer e infelizmente aqueles milhões de compatriotas que são enganados sistematicamente por políticos em suas maiorias ideologicamente somente em favor de seus próprios benefícios. Para eles o que interessa é o poder seja de qual bandeira for desde que continuem enganando aos milhões de nativos desprovidos de um mínimo de conhecimento pátrio e formados pelo sistema alienador deles. Para o deleite de milhões desses seres graduados pela forte ausência de um estado patriota, com exceção das forças armadas e parte da segurança pública, o candidato líder nas pesquisas de intenção de voto, foi atacado covardemente por elemento de comportamento desconhecido. O tempo dirá de onde partiu a tal ordem, se foi de Deus como afirmado pelo próprio, o Deus dele não é o Altíssimo senhor celestial e sim o baixíssimo ser das trevas. Hoje comemora-se 196 anos da nossa independência. Aquele brado forte retumbante às margens do rio Ipiranga ainda ecoa por esse imenso solo mãe gentil, mas aqueles dizeres do nosso pavilhão nacional precisam ser resgatados urgentemente para por fim a essa guerra fratricida que tanto nos aflige. “Ordem e Progresso” no contexto da política e “Brasil acima de TODOS, Deus acima de TUDO”, no âmbito da glória e espiritualidade.

A política “fake ideologized” anda por trás de tudo o quanto está ocorrendo no Brasil. Infelizmente o poder público civil fracassou e abriu as portas para esse caos absoluto. Essa do politicamente correto só serve para dar proteção a um sistema que se julga capaz de fazer juízo de valor somente das coisas que lhes convém estas por vezes inconfessáveis. Pobre Brasil! A que ponto chegou!? Inegável que a sociedade de mais alto padrão de vida, fechou os olhos para todos os graves problemas em sua volta e o resultado disso é que agora ela cobra dos outros, aquilo que poderia ser evitado se esta saísse pelo menos um pouco de suas áreas de conforto procurando entender os problemas dos excluídos e abandonados às suas próprias ‘más’ sortes; resultado: todos estão agora suplicando por uma solução ou quem sabe, um milagre. Voltando à “fake ideologized”, só não enxerga quem quer e infelizmente aqueles milhões de compatriotas que são enganados sistematicamente por políticos em suas maiorias ideologicamente somente em favor de seus próprios benefícios. Para eles o que interessa é o poder seja de qual bandeira for desde que continuem enganando aos milhões de nativos desprovidos de um mínimo de conhecimento pátrio e formados pelo sistema alienador deles. Para o deleite de milhões desses seres graduados pela forte ausência de um estado patriota, com exceção das forças armadas e parte da segurança pública, o candidato líder nas pesquisas de intenção de voto, foi atacado covardemente por elemento de comportamento desconhecido. O tempo dirá de onde partiu a tal ordem, se foi de Deus como afirmado pelo próprio, o Deus dele não é o Altíssimo senhor celestial e sim o baixíssimo ser das trevas. Hoje comemora-se 196 anos da nossa independência. Aquele brado forte retumbante às margens do rio Ipiranga ainda ecoa por esse imenso solo mãe gentil, mas aqueles dizeres do nosso pavilhão nacional precisam ser resgatados urgentemente para por fim a essa guerra fratricida que tanto nos aflige. “Ordem e Progresso” no contexto da política e “Brasil acima de TODOS, Deus acima de TUDO”, no âmbito da glória e espiritualidade.
Visitantes - Moacir Sérgio e Silva em Sexta, 07 Setembro 2018 01:54

Cel Carlos parabéns pelo artigo ! Os ditos ( especialista de TV ) não acrecentam nada ao conhecimento as tropas federais ou estaduais, só sabem criticar as atuações, ficar atrás de uma ( TV) é fácil quero ver é especialista ir a campo junto a tropa para ver realmente o que acontece no dia a dia e na situação de cada pelotão na cena onde está, os ditos ( especialista de TV) se quer conhecem as técnicas do general (san tzsu ) de quer sabem que os aliados usaram o engodo na segunda guerra técnica de San tzsu, se quer perceberem o uso da técnica recentemente pela força terrestre que teve o êxito de encontrar os infiltrados no movimento Nacional dos caminhoneiros, que tinham ideias exclusas, parabenizoa todos da força terrestre, deixemos que os ditos ( especialista de TV) falem pois até papagaio fala ! Os mesmos tem ciúmes por não ter cacife para acompanhar um soldado seja pé Preto ou PQD, enquanto isto os soldados crescem intelectualmente, e cumprem a missão constitucional. Sd Moacir Sérgio e Silva 291 ccsv 33 BIMEC turma de 1992 a 1994.

Cel Carlos parabéns pelo artigo ! Os ditos ( especialista de TV ) não acrecentam nada ao conhecimento as tropas federais ou estaduais, só sabem criticar as atuações, ficar atrás de uma ( TV) é fácil quero ver é especialista ir a campo junto a tropa para ver realmente o que acontece no dia a dia e na situação de cada pelotão na cena onde está, os ditos ( especialista de TV) se quer conhecem as técnicas do general (san tzsu ) de quer sabem que os aliados usaram o engodo na segunda guerra técnica de San tzsu, se quer perceberem o uso da técnica recentemente pela força terrestre que teve o êxito de encontrar os infiltrados no movimento Nacional dos caminhoneiros, que tinham ideias exclusas, parabenizoa todos da força terrestre, deixemos que os ditos ( especialista de TV) falem pois até papagaio fala ! Os mesmos tem ciúmes por não ter cacife para acompanhar um soldado seja pé Preto ou PQD, enquanto isto os soldados crescem intelectualmente, e cumprem a missão constitucional. Sd Moacir Sérgio e Silva 291 ccsv 33 BIMEC turma de 1992 a 1994.
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Domingo, 21 Outubro 2018