História, Memória e Verdade

"Nós, que conhecemos de ouvido a consciência de outrem, não temos a pretensão de julgar o que nos está escondido."

Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Vol. I.

"Nesse terreno, a sinceridade se impõe porque escrever memórias é um ajuste de contas do eu com o eu ─ e é ilícito mentir a si mesmo."

Pedro Nava, Beira-Mar, Memórias IV.

Em relação aos militares brasileiros que se dedicaram ao ofício das letras, o volume autobiográfico por eles produzido, considerando todas as vertentes do gênero memorialístico (v.g. diários, cartas), é escasso. Em vista da profusão e diversidade de enfrentamentos bélicos nos quais nossas Forças Armadas estiveram envolvidas — para uma catalogação pormenorizada e sistemática, o “Dicionário de Batalhas Brasileiras, escrito por Hernâni Donato, continua insuperável —, são relativamente poucos os relatos dos agentes primários ligados a esses conflitos.

Ainda que existam biografias em profusão, sobretudo quando relacionadas aos patronos das Forças Armadas — grande parte publicadas pela Biblioteca do Exército, os relatos em primeira pessoa, como ressaltou oportunamente Pedro Calmon, são parcos. Por exemplo, Francisco de Paula Cidade, na importante obra “Síntese de Três Séculos de Literatura Militar Brasileira, busca fazer um inventário das principais produções literárias de caráter militar produzidas desde os enfrentamos coloniais ─ sobretudo a partir da Batalha de Guararapes ─ até meados da década de 1950, quando são publicadas as “Memórias do Marechal Mascarenhas de Moraes.

Mais que inventariamento e análise de obras literárias stricto sensu, Cidade analisa aproximadamente quarenta títulos com caráter especificadamente militar, formando uma suma das principais referências sobre o tema. Enfrenta, cronologicamente, a evolução do nosso pensamento técnico militar. Mas seu foco circunscreve-se ao âmbito da sinopse crítica, ensaística e erudita, cuidando por objeto aqueles trabalhos cujo conteúdo limita-se ao fazer prático da atividade bélica: a tática, a estratégia, o recrutamento, uniformes, logística etc.

Porém, ainda que escassas — seja pela falta de novas edições ou edições republicadas em número quantitativamente reduzido —, essas obras memorialísticas merecem atenção imensa do pesquisador e historiador das nossas tradições militares. Atenção merecida, sobretudo, pela dimensão moral da consciência desses agentes.

Ressalta-se, como exemplo, a quase totalidade das obras escritas do Visconde de Taunay — com destaque às suas “Memórias”, “Narrativas Militares: Cenas e Tipos” e “Diário do Exército — e aquelas publicadas por iniciativa do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, responsável pela publicação de depoimentos de importantes militares brasileiros, tais como Gustavo Cordeiro de Farias — “Meio Século de Combate: Diálogo com Cordeiro de Farias —, Odilio Denys — “Ciclo Revolucionário Brasileiro — e Ernesto Geisel. Não poderiam ser ignoradas as obras de Juarez Távora — “Uma Vida e Muitas Lutas, em três volumes —, Góis Monteiro — “O General Góis Depõe” —, e parte dos trabalhos de Lyra Tavares, Ernany Ayrosa da Silva e Juracy Magalhães e Souto Mallan. Em certo sentido, comparativamente, a preservação de registros relacionados à Força Expedicionária Brasileira é profuso.

Essas obras, relatos em primeira pessoa, por trazerem consigo a personalidade e caráter do elemento humano — partes indissociáveis não apenas das narrativas históricas, mas da vivência daqueles que as sentiram e perceberam —, permitem que as gerações subsequentes possam compreender o passado numa clave que não apenas foge dos lugares-comuns daquelas abrangentes e impessoais estruturas de análise — v.g. luta de classes, fim da história, infraestrutura e superestrutura, historicismo, Estado-nação etc. —, mas possam elas integrar, no terreno da História, a responsabilidade “individual” nascida daquele fundo subterrâneo e insubornável que é a personalidade humana.

A importância das memórias está em que ao desprezar a presença da individualidade daqueles que operaram imersos em situações verdadeiramente acontecidas, a adoção daquelas estruturas de pensamento provoca a perda ou desconsideração por aquilo que Von Herder — já no séc. XVIII — chamava de "drama interior da humanidade". Indo além, sem que o próprio historiador tenha incorporado em si mesmo valores como sinceridade e unidade de consciência, atributos próprios do indivíduo humano, é inútil querer reconstruir, apenas ideológica ou documentalmente, os processos históricos sobre os quais se debruça.

Aqui, memória não é objeto, mas centro da consciência, vivência que perdura e floresce ─ é o “santuário amplo e infinit que nos conta Santo Agostinho nas suas "Confissões". É a sinceridade que nos transmite Pedro Nava na epígrafe aqui utilizada.

Por certo, essa reconstituição do ocorrido requer do historiador não apenas acesso a determinadas fontes de informação (v.g. livros, mapas, documentos, dados primários etc.), mas grande esforço imaginativo para se propor e reconstruir hipóteses, hipóteses essas amparadas em profunda plausibilidade e razoável senso das proporções. Nesse aspecto, as obras teóricas de José Honório Rodrigues podem descortinar importantes perspectivas. No conjunto amplo e diversificado dos seus escritos, uma parcela representativa dos seus trabalhos — que resiste pioneira contra a passagem dos anos — centralizou-se na delimitação específica da metodologia da pesquisa historiográfica e acertada interpretação dos registros históricos.

Disciplina estritamente teorética — cujo conteúdo tem por objeto caráter nitidamente epistemológico, ou seja, reflexão sobre as etapas, limites e possibilidades do conhecimento humano —, o livro mais representativo dessa categoria é o estudo "Teoria da História do Brasil: Introdução Metodológica", de 1949. Ainda que cronologicamente antigo, constitui referência ainda oportuna e relevante.

Com o objetivo de capacitar o historiador, no exercício da pesquisa, a distinguir o verdadeiro e o falso, o certo e o incerto, o duvidoso e o admissível, fica claro que não é apenas através dos confrontos de dados que a verdade histórica pode ser aperfeiçoada, mas de um esforço imaginativo capaz de (re)construir, retroativamente, o sentido e pensado por parte daqueles indivíduos e como eles integraram isso nas situações por eles vivenciadas. O processo de humanização do agente histórico, mais que um ângulo de análise e interpretação, é a própria substância da qual História é parte integrante.

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