Alvin e Heidi Toffler, no livro Guerra e Antiguerra, analisam a evolução dos conflitos ao longo do tempo, demonstrando o aumento da sua complexidade e consequente diminuição da liberdade de ação dos comandantes durante as operações.

Figura 1 – Evolução da Guerra (Fonte: O Autor)

O conflito é um fenômeno social caracterizado pelo choque de vontades, podendo envolver indivíduos, grupos ou nações. Os interesses antagônicos entre diferentes partidos geram situações que podem variar desde uma divergência pacífica até situações de extrema violência, em que se busca a solução dos contenciosos por intermédio da força. Na atualidade, a natureza do conflito, em seus diferentes níveis, tornou-se imprevisível, envolvendo atores não estatais competindo, muitas vezes, com estados. (EB20-MC-10.301 A Força Terrestre Componente nas Operações)

O ambiente operacional moderno apresenta características peculiares que influenciam, de forma marcante, a condução das operações militares. Fenômenos atuais como a crescente urbanização, a popularização do acesso aos meios de tecnologia da informação, a ampliação da capacidade de atuação e difusão da mídia, entre outros, conferem um elevado grau de complexidade ao cenário em que se desenrolam as operações militares. (EB20-MC-10.301 A Força Terrestre Componente nas Operações)

O ambiente operacional é o conjunto de condições e circunstâncias que afetam o espaço onde atuam as forças militares e que interferem na forma como são empregadas, sendo caracterizado pelas dimensões física, humana e informacional. (EB70-MC-10.223 Operações)

Figura 2 – Ambiente Operacional (Fonte: EB70-MC-10.223 Operações)

O cientista político Samuel P. Huntington, em seu livro O Soldado e o Estado, descreve que a administração da violência é uma das principais características da profissão militar. Essa tarefa coloca os comandantes militares na situação de terem que enfrentar diversos problemas, que são solucionados após serem analisados por meio de uma metodologia própria existente na doutrina militar.

O Exército Brasileiro adota o Processo de Planejamento e Condução das Operações Terrestres como uma metodologia para a solução dos problemas enfrentados durante os conflitos. Esse processo constitui-se no meio segundo o qual os comandantes, em todos os níveis, desenvolvem o exercício da autoridade visando ao cumprimento de uma missão. O processo adotado também os orienta para uma adequada tomada de decisão (EB20-MC- 10.211 Processo de Planejamento e Condução das Operações Terrestres).

A metodologia concebida para a solução de um problema militar, em qualquer nível, é sustentada pelo estudo de aspectos relevantes que são organizados e orientados por determinados fatores. As partes constitutivas dessa metodologia são os fatores da decisão, isto é, elementos que orientarão o processo decisório. Os principais fatores da decisão são: missão, inimigo, terreno e condições meteorológicas, meios, tempo e considerações civis (EB70-MC-10.223 Operações).

Os fatores da decisão descrevem as características de uma área de operações e são concentrados na análise de como podem afetar o cumprimento da missão. Eles permitem ao comandante e seu estado-maior abordar os aspectos relevantes que alteram o resultado das operações e aprimorar a consciência situacional (EB20-MC- 10.211 Processo de Planejamento e Condução das Operações Terrestres).

Os fatores da decisão sofreram atualizações nas últimas décadas dentro da Doutrina Militar Terrestre, como consequência da evolução dos conflitos e do aumento da complexidade do ambiente operacional. Até a década de 90, eles eram constituídos de missão, terreno e condições meteorológicas, inimigo e meios. Na década de 90, o fator tempo passou a ser considerado mais um fator da decisão, assim como o fator considerações civis, a partir da metade da segunda década do século XXI.

O estudo integrado dos fatores da decisão constitui-se em uma peça fundamental para que a decisão tomada pelos comandantes, em todos os níveis, seja a melhor para o cumprimento da missão em um ambiente operacional extremamente complexo como ocorre nos conflitos atualmente.

Ao se analisar o relacionamento dos fatores da decisão com o ambiente operacional, verifica-se que o terreno está diretamente relacionado à dimensão física, e as considerações civis à dimensão humana; entretanto, não se verifica qualquer relacionamento dos fatores da decisão com a dimensão informacional, cuja importância e impacto nos conflitos têm crescido de forma exponencial.

A dimensão informacional abrange os sistemas utilizados para obter, produzir, difundir e atuar sobre a informação. Reveste-se de destacada importância, uma vez que as mudanças sociais estão alicerçadas na elevada capacidade de transmissão, acesso e compartilhamento da informação (EB70-MC-10.223 Operações).

Outro ponto a ser destacado é que o estudo do terreno (dimensão física) e das considerações civis (dimensão humana) não estão sendo analisados de maneira totalmente integrada, conforme orienta o manual EB70-MC-10.223 Operações ao caracterizar o ambiente operacional.

Esse fato demonstra a necessidade dos fatores da decisão sofrerem uma nova atualização, a fim de serem analisados de uma forma mais integrada, proporcionando melhores condições para que a decisão a ser tomada seja a melhor possível. Seguindo nesta direção, sugere-se que os fatores da decisão passem a ser constituídos da missão, do ambiente operacional, do inimigo e dos meios.

Nos últimos anos, o Exército Brasileiro tem transformado a Doutrina Militar Terrestre com o objetivo de fornecer as ferramentas necessárias para enfrentar os desafios existentes em um ambiente operacional complexo.

Este artigo tem como objetivo propor uma discussão sobre a necessidade de atualização dos fatores da decisão, a fim de se melhorar as ferramentas disponíveis para os decisores durante os conflitos na atualidade e contribuir com o aperfeiçoamento da Doutrina Militar Terrestre.