Dois heróis brasileiros: um estudo sobre a camaradagem

Entre os deveres militares, a camaradagem é conceituada na Cartilha Valores e Ética Profissional Militar, do Programa Raízes, Valores e Tradições, como “capacidade de estabelecer relações amistosas com superiores, pares e subordinados”. Se, em tempo de paz, figura como importante atributo para o perfeito funcionamento das instituições militares, quando em combate, a camaradagem revela-se essencial para a sobrevivência e para o cumprimento de missões de elevados risco e complexidade.

A história militar brasileira é rica em episódios que demonstram como a camaradagem é valiosa em situações que levam os combatentes a situações extremas. Foi o que ocorreu na noite de 12 para 13 de dezembro de 1944, por ocasião da quarta tentativa brasileira de conquistar o Monte Castello, durante a Segunda Guerra Mundial.

Desde o mês de novembro, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) tentava subjugar a importante posição estratégica, cuja conquista permitiria a ruptura da Linha Gótica, rede defensiva alemã apoiada na cordilheira dos Apeninos. Apesar da coragem e tenacidade dos pracinhas da FEB, três tentativas de ataque haviam fracassado dada a qualidade das posições alemãs, que dominavam o terreno e os acessos à elevação.

No dia 12 de dezembro, desenvolvia-se mais um ataque, e o Capitão João Tarciso Bueno liderava a 1ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria em sua progressão rumo ao Monte Castello. Quando o inimigo conseguiu ajustar seus fogos sobre a subunidade, o Capitão Bueno identificou a situação crítica e passou à frente de seus homens para liderá-los pessoalmente. Pouco a pouco, a eficácia das armas alemãs foi provocando numerosas baixas e a progressão arrefeceu. Diversas subunidades, em setores vizinhos, já haviam recebido ordens para retrair, mas o capitão prosseguiu com seus homens, até ser colhido por uma rajada de metralhadora que lhe provocou graves ferimentos. Caído em uma vala, inconsciente, com várias costelas partidas e com o pulmão esquerdo trespassado por um tiro, o capitão permaneceu no terreno, enquanto os remanescentes de sua combalida companhia retraíam.

Depois de ser informado que o comandante de uma de suas subunidades jazia ferido na “terra de ninguém”, o comandante do batalhão organizou patrulhas para tentar resgatá-lo. Com a proteção da noite, diversas patrulhas vasculharam a região a procura do oficial ferido, uma delas liderada pelo célebre patrulheiro Sargento Max Wolff Filho, mas nenhuma logrou êxito, pois o Capitão Bueno havia rastejado em busca de água e caído em um córrego. Resignado, mas temendo perder mais homens, o comandante do batalhão sustou o envio de novas patrulhas.

Um integrante da 1ª Companhia, no entanto, não se conformou com a situação. Tratava-se do Soldado Sérgio Pereira, natural de Minas Gerais, ordenança do Capitão Bueno. Sabia que seu comandante havia sido visto, pela última vez, com vida, ainda que gravemente ferido, e tomou uma decisão: sairia pela “terra de ninguém” e só retornaria com seu chefe e camarada, ainda que isso pudesse custar-lhe a vida.

Armou-se, equipou-se, pegou algumas granadas de mão e, silenciosa e solitariamente, partiu oculto pela escuridão do inverno italiano. Por muitas horas caminhou, rastejou, correu e escondeu-se de patrulhas inimigas, até que conseguiu chegar aos arredores de Abetaia, localidade em poder dos alemães. Depois de ter passado pelos cadáveres de companheiros que haviam perecido na jornada, já pensava em desistir devido à aproximação das luzes da madrugada. Sua persistência, no entanto, foi recompensada. Ao vasculhar um riacho com águas quase congeladas pelo frio, conseguiu localizar seu capitão, inconsciente. Verificando que ele ainda estava vivo, o Soldado Sérgio transportou-o nos ombros por alguns quilômetros, cuidando para não fazer ruídos. Em seguida, rastejou em uma parte aberta do terreno, trazendo seu chefe nas costas até, finalmente, alcançar as linhas avançadas da FEB. Sua obstinação e seu elevado senso de camaradagem haviam salvado seu capitão.

O General Mascarenhas de Moraes, Comandante da FEB, elogiou o Soldado Sérgio nos seguintes termos: “É um magnífico exemplo de dedicação ao chefe, que tenho a mais grata satisfação de apontar à FEB”. O Monte Castello cairia em poder dos brasileiros somente em 21 de fevereiro de 1945, após um quinto e bem-sucedido ataque, abrindo o caminho para o vale do Rio Pó.

Por sua liderança, o Capitão Bueno foi promovido e condecorado pelo Brasil e pelos Estados Unidos. O Soldado Sérgio também recebeu uma promoção e condecorações por bravura. De volta ao Brasil, ambos permaneceram grandes amigos até o fim de suas vidas. Um belo exemplo de camaradagem legado para todos os integrantes da Força Terrestre por esses dois heróis brasileiros, naquela gelada e silenciosa noite de inverno em 1944.

 

 

Capitão João Tarciso Bueno

 

 

Soldado Sérgio Pereira recebendo a medalha Bronze Star das mãos do General Truscott

 

Liderança militar: lições da história de três “Mes...
Exército Brasileiro: distribuição de medicamentos ...

Posts Relacionados

 

Comentários 11

Visitantes - CESAR ANTONIO MOREIRA em Terça, 11 Mai 2021 11:39

Já tinha lido este ato de bravura do Soldado Sérgio Pereira, porém, gostaria de acrescentar que quando em retorno da Itália formou-se em Direito e foi Delegado da Policia Civil do Rio de Janeiro, além de que toda semana visitava o General João Tarciso Bueno, fortalecendo uma amizade entre ambos para toda vida.

Já tinha lido este ato de bravura do Soldado Sérgio Pereira, porém, gostaria de acrescentar que quando em retorno da Itália formou-se em Direito e foi Delegado da Policia Civil do Rio de Janeiro, além de que toda semana visitava o General João Tarciso Bueno, fortalecendo uma amizade entre ambos para toda vida.
Visitantes - CESAR ANTONIO MOREIRA em Terça, 11 Mai 2021 11:30

Já tinha lido esse ato de bravura do Soldado Sérgio Pereira, gostaria de acrescentar que quando este voltou da Itália, formou-se em Direito e foi Delegado de Policia

Já tinha lido esse ato de bravura do Soldado Sérgio Pereira, gostaria de acrescentar que quando este voltou da Itália, formou-se em Direito e foi Delegado de Policia
Visitantes - Carlos Chagas em Segunda, 10 Mai 2021 12:28

Fabulosa história!! Quantos filmes merecedores de Oscar podia se fazer com as histórias militares de nossa FEB..

Fabulosa história!! Quantos filmes merecedores de Oscar podia se fazer com as histórias militares de nossa FEB..
Visitantes - GILBERTO MARTINS LOUREIRO em Segunda, 10 Mai 2021 12:01

Excelente as matérias. Sou Ten R2 Inf Gilberto, turma de 1973, CPOR-RJ. Abraços fraternos em nossos guerreiros!

Excelente as matérias. Sou Ten R2 Inf Gilberto, turma de 1973, CPOR-RJ. Abraços fraternos em nossos guerreiros!
Visitantes - ISRAEL BLAJBERG em Segunda, 10 Mai 2021 11:35

Conheci o Vet Sergio Pereira, era a humildade em pessoa. diretor da Ass Ex Cmb BR (Rua do Lavradio).

Conheci o Vet Sergio Pereira, era a humildade em pessoa. diretor da Ass Ex Cmb BR (Rua do Lavradio).
Visitantes - José Morais em Domingo, 09 Mai 2021 22:20

Orgulho de ser brasileiro por causa do exército quê temos.

Orgulho de ser brasileiro por causa do exército quê temos.
Visitantes - Guilherme Marques Almeida - TC em Sexta, 07 Mai 2021 09:20

Excelente artigo! Grandes histórias que vêm à tona, honrando a nossa Pátria!

Excelente artigo! Grandes histórias que vêm à tona, honrando a nossa Pátria!
Visitantes - FERNANDO MARAN em Quinta, 06 Mai 2021 21:17

Gosto de acompanhar temas de NOSSA HISTÓRIA MILITAR!

Gosto de acompanhar temas de NOSSA HISTÓRIA MILITAR!
Visitantes - FERNANDO MARAN em Quinta, 06 Mai 2021 21:16

Gostaria de receber, constantemente, os ´´POSTS``!

Gostaria de receber, constantemente, os ´´POSTS``!
Visitantes - Joao em Quinta, 06 Mai 2021 20:08

Bela história.

Bela história.

Muito legal a história! Sabia que nossos militares foram responsáveis pela tomada do Monte Castello depois da desistência da missão por dos vários outros países. Mas desconhecia esta particularidade, bem como as três primeiras tentativas que não obtiveram êxito. Infelizmente não temos cultura de valorizar nossa história, nosso mérito e nossos heróis!

Muito legal a história! Sabia que nossos militares foram responsáveis pela tomada do Monte Castello depois da desistência da missão por dos vários outros países. Mas desconhecia esta particularidade, bem como as três primeiras tentativas que não obtiveram êxito. Infelizmente não temos cultura de valorizar nossa história, nosso mérito e nossos heróis!
Visitantes
Segunda, 18 Outubro 2021

By accepting you will be accessing a service provided by a third-party external to http://eblog.eb.mil.br/