O Sargento e a Criação do Cargo de Adjunto de Comando

Um Exército forte resulta da soma do valor de todos os seus integrantes e, por isso, todos devem ter o mesmo nível de comprometimento com a missão e com os valores que sustentam nossa Instituição, independentemente da posição que ocupem na escala hierárquica. É necessário, portanto, que todos os militares tenham pleno conhecimento de suas atribuições e que demonstrem, diariamente, elevado grau de dedicação à carreira das Armas.

O sargento teve sempre identificação forte com a instrução e a formação dos militares, por ser o agente executor nos pequenos escalões e por tornar-se uma das primeiras referências para os jovens que adentram aos quartéis e que se deparam com um universo de informações, exigências e valores muito distintos daqueles vivenciados na sociedade. Com o passar do tempo e com a experiência adquirida ao longo da carreira, o sargento continua a manter contato direto com a tropa e com as praças mais jovens, em virtude das funções que desempenha, do convívio diário e do grau de liderança que exerce no âmbito de sua organização militar.

A criação do cargo de Adjunto de Comando, que decorre da política de fortalecimento da dimensão humana da Força, visa destacar o subtenente ou o sargento com reconhecida liderança e capacidade de trabalho, designando-o para exercer a tarefa de assessorar os comandantes, em todos os níveis, nos assuntos relacionados às praças.

Apesar do pouco tempo de criação do cargo, já é possível perceber os resultados dessa iniciativa, ao vermos os militares designados para o desempenho da função disseminando valores militares e agregando seus pares e subordinados, sendo facilitadores na solução das demandas e contribuindo, decisivamente, para o fortalecimento do espírito de corpo nas organizações militares.

A experiência e o entusiasmo pela carreira, aliados ao conhecimento profissional, são algumas das ferramentas empregadas pelo Adjunto de Comando na tarefa de orientar e motivar pares e subordinados, bem como no assessoramento aos comandantes em assuntos relacionados à esfera de atribuições do cargo.

A presença do Adjunto de Comando nos mais diversos escalões da Força tem sido uma referência muito positiva, permitindo a contribuição com o ponto de vista dos graduados, que é baseado nas experiências vivenciadas e nas funções desempenhadas desde o início da carreira, seja nas frações elementares das Armas, Quadros e Serviços, seja nas tarefas administrativas necessárias ao funcionamento das Unidades.

No entanto, ainda se faz necessário o amadurecimento de uma cultura institucional para que o Adjunto de Comando seja inserido no dia a dia dos quartéis, pois a presença de uma praça integrando o Estado-Maior Especial e exercendo a função de assessoramento é criação recente, que será consolidada com o desempenho efetivo do cargo pelos militares nomeados e com o envolvimento dos comandantes em todos os níveis.

Numa época em que se valoriza, cada vez mais, o principal ativo das organizações, que é o capital humano, as mudanças que visam garantir a participação e o comprometimento de todos os seus integrantes devem ser incentivadas e apoiadas, para que o resultado dessas medidas seja eficaz e duradouro.

"Não há nada mais difícil de manejar, mais perigoso de conduzir ou mais incerto de suceder do que levar adiante a introdução de uma ordem de coisas, pois a inovação tem por inimigos todos os que se deram bem nas condições antigas,e por defensores frágeis todos aqueles que talvez possam se dar bem nas novas".
Maquiavel - O Príncipe, 1532

Continuar lendo
  3054 Acessos
  2 comentários
Marcado em:
3054 Acessos
2 comentários

O que o Exército me ensinou sobre liderança: o desenvolvimento de líderes subordinados

O Exército Brasileiro é uma Instituição baseada em dois pilares muito sólidos: hierarquia e disciplina. A hierarquia impõe um ordenamento da autoridade legal, que é outorgada a todos os integrantes da Força em posição de comando. A disciplina, livremente aceita quando do ingresso na profissão das armas, impõe a obediência àquele ordenamento hierárquico.

Por outro lado, a organização do Exército é, essencialmente, ternária, o que significa o seguinte: o grupo básico, denominado "grupo de combate", reúne dez militares, comandados por um sargento. Três grupos de combate formam um "pelotão", comandado por um tenente. Três pelotões formam uma "companhia", comandada por um capitão. Três companhias formam um batalhão e assim sucessivamente, escalando os diversos comandos até o mais alto nível, aquele que comporta vários milhares de soldados, comandados por um general de exército.

Logicamente, a esquematização  acima é uma simplificação, que objetiva, apenas, chamar atenção para o fato de que o Exército é uma organização que exige a presença de líderes em todos os níveis de sua cadeia hierárquica. Isso quer dizer que o desenvolvimento das lideranças subordinadas deve ser prioridade dos comandantes em todos os níveis. Um elo fraco fará romper toda a corrente. E, para ter sucesso, o comandante depende, fundamentalmente, do sucesso de seus subordinados.

O ensino formal da Liderança, em todas as escolas de formação, aperfeiçoamento e altos estudos do Exército, responde pelo embasamento técnico e teórico sobre o assunto, que por si só não basta. É no corpo de tropa que o desenvolvimento das lideranças ocorre efetivamente.

Antes de tudo, tal desenvolvimento ocorre pelo exemplo, mas não somente. Uma prática importante é o cuidado que os chefes mais antigos devem ter em evitar o microgerenciamento. Evitar chamar para si a responsabilidade pela execução das tarefas que deveriam ser feitas por seus líderes subordinados. O comandante "centralizador", que exige ser sua a palavra final sobre tudo, inibe seus comandados, impedindo-os de se desenvolverem e de ganharem experiência e autoconfiança.

Outra ferramenta importante é a atribuição da missão pela finalidade, ou seja, o comandante diz ao líder subordinado qual é o objetivo a ser cumprido, quais os parâmetros a ser atingidos, quais são as condicionantes impostas. Desse modo, estabelece o "que" fazer. O "como" fazer deve ser decidido pelo líder subordinado. Isso lhe permite tomar decisões na sua esfera de atribuições, de acordo com o desenrolar dos acontecimentos e em razão de fatos novos e imprevistos. Esse exercício torna o líder mais capaz de tomar decisões e não um mero cumpridor de tarefas impostas rigidamente.

A orientação leal e franca, com o reconhecimento por parte dos superiores da atuação meritória dos líderes subordinados, bem como a correção, a supervisão e a direção próxima, quando a situação assim exigir, são muito importantes e constituem outra prática fundamental para o desenvolvimento dos atributos necessários ao bom desempenho dos comandantes, de todos os níveis. Assim, o Exército continua a desenvolver seus quadros com o firme propósito de contar com líderes que conduzam a Instituição ao cumprimento de todas as missões impostas pela sociedade brasileira.


Continuar lendo
  1687 Acessos
  3 comentários
1687 Acessos
3 comentários

O que o Exército me ensinou sobre liderança: a liderança nos diferentes níveis

Um questionamento bastante frequente quando se está tratando do assunto Liderança é se ela ocorre do mesmo modo, em todos os níveis. Um jovem tenente, comandante de um pelotão formado por cerca de trinta homens, lidera da mesma forma que um general, que comanda alguns milhares?

A resposta não é tão simples como pode parecer. Para tentar esclarecer o assunto, precisamos tratar dos conceitos de Liderança Direta e Liderança Indireta. A primeira é aquela exercida pelos comandantes diretamente sobre seus subordinados. É a liderança do "olho no olho", em que o líder estabelece vínculos diretos com seus liderados. É nela que o exemplo se manifesta de modo mais intenso. A última é aquela exercida pelos comandantes de nível mais elevado, por intermédio de seus líderes subordinados, sem o contato direto, utilizando-se de uma cadeia de comando.  

Assim, parece claro que, enquanto os líderes nos primeiros níveis de uma cadeia de comando, como os tenentes, exercem basicamente a Liderança Direta, aqueles que estão nos últimos níveis exercem, em muito maior proporção, a Liderança Indireta. Enquanto os primeiros lideram times, os últimos comandam "times de times".

Se as crenças e os valores que forjam o caráter do líder permanecem imutáveis ao longo de todos os níveis da organização, as competências, certamente, não são as mesmas. A Liderança Direta exige ação para o atingimento de objetivos definidos. A Liderança Indireta exige a capacidade de inspirar líderes subordinados à ação para o atingimento de vários objetivos, diferentes e complementares, que, em conjunto, levarão a organização como um todo a alcançar suas metas.

Se, na Liderança Direta, as competências técnicas são fundamentais, na Indireta as habilidades político-estratégicas ganham destaque. Um tenente conhece todos os modernos sistemas de armas utilizados por seu pelotão. Um general cria visão de futuro, impulsiona as mudanças em direção dessa visão e alinha estratégias para que se chegue até lá.

Neste ponto, podemos retornar à pergunta do primeiro parágrafo. Líderes de diferentes níveis lideram da mesma forma? A resposta a essa pergunta é dada ao se verificar que tipo de liderança está sendo exercida naquele momento: direta ou indireta? Meditar sobre isso nos auxilia a entender melhor o fenômeno da Liderança.

(Colaboração de aluno da ECEME)

Continuar lendo
  1437 Acessos
  3 comentários
1437 Acessos
3 comentários

O processo de interiorização de migrantes venezuelanos no Brasil

As primeiras notícias do fluxo de migração de venezuelanos para o Brasil, em grande quantidade, ocorrem nos municípios de Pacaraima (cidade fronteiriça à Venezuela) e Boa Vista, ambos no Estado de Roraima. A situação fez com que instituições governamentais tomassem providências para conter o movimento migratório e resolver os problemas sociais advindos da situação contingencial que não era vista na região. A crise econômica, política, social e alimentar da República Bolivariana da Venezuela causou essa explosão de deslocamento das pessoas e levou milhares de venezuelanos a entrar no Brasil por via terrestre (outros seguiram para Colômbia, Equador, México, Chile, Argentina e Panamá).

Continuar lendo
  1554 Acessos
  2 comentários
1554 Acessos
2 comentários

O líder faz a síntese dos anseios do grupo: um estudo de caso

Ao contrário do que muitos pensam, a violência que caracteriza o conflito árabe-israelense no Oriente Médio tem raízes e causas relativamente recentes. Árabes e judeus são dois povos semitas que mantiveram relação de harmonia ao longo da história, inclusive, durante a ocupação árabe na Península Ibérica (711 – 1492), ocasião em que os judeus conheceram um período de liberdade econômica, cultural e religiosa.

Do mesmo modo, as pequenas colônias judaicas no Oriente Médio viveram em paz com a maioria árabe-muçulmana até o final da Primeira Guerra Mundial, não tendo fundamento os argumentos que pretendem explicar o conflito existente hoje, com antagonismos religiosos e raciais seculares.

Trata-se de questão política, gerada por motivações ideológicas, psicossociais e econômicas bastante precisas, que se misturam, de modo mais forte, a partir do surgimento de uma proposta estruturada do movimento sionista (no final do século XIX), que continha, em seu bojo, a criação do Estado de Israel na Palestina.

O presente estudo refere-se a dois líderes do conflito entre judeus e palestinos - Ariel Sharon e Iasser Arafat -, ambos com forte atuação no campo militar e político, homens que souberam fazer a síntese dos anseios de seus povos.

Ariel Sharon, nascido na Palestina, filho de judeus russos, participou de todas as guerras nas quais se envolveram os judeus, desde a criação do Estado de Israel. Sempre foi considerado estrategista brilhante e homem de ação, do tipo que "resolve a questão". Entretanto, em diversas ocasiões, foi acusado de haver ultrapassado os limites que o bom senso permitia, provocando reações políticas e militares desnecessárias. Conta-se que, em 1953, numa operação tipo comandos, em uma vila, provocou a morte de dezenas de civis inocentes.
Também ficou conhecido por discutir asperamente com os superiores hierárquicos, demorando cerca de nove anos para ser promovido a general. Não demonstrava ser um indivíduo religioso e não se alinhava aos radicais sionistas.

Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, foi o principal mentor da ocupação da Cisjordânia com assentamentos judaicos, que garantissem a posse daquela região para Israel. Em 1972, no cargo de ministro da defesa, atacou as forças da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), expulsas da Jordânia e homiziadas no Líbano, de onde apoiavam, militarmente, as facções políticas islâmicas contra os cristãos libaneses, provocando uma guerra civil naquele país, antes considerado a "Suíça do Oriente Médio". Com o apoio de Israel, os cristãos libaneses, talvez como vingança, teriam massacrado 800 civis palestinos.

Mais tarde, Sharon tornou-se o Primeiro Ministro de Israel, posição à qual foi alçado quando os judeus se viram pressionados pelas ameaças das guerrilhas dos radicais islâmicos, que usam o terrorismo sistemático como principal arma. A política de Sharon sempre foi "olho por olho, dente por dente".

Sob suas ordens, o Exército de Israel provocou constantes retaliações contra os terroristas palestinos homiziados entre a população civil, causando a morte de inocentes. Sharon entendia que os judeus nunca deveriam ser fracos novamente.

Iasser Arafat nasceu no Egito e era, aparentemente, homem religioso, embora não fosse fundamentalista islâmico. Quando tinha 30 anos, criou a Al Fatha (A Vitória), grupo terrorista que precedeu a OLP, entidade patrocinada com dinheiro e armas pela extinta URSS.

Era considerado o líder que construiu a identidade e o nacionalismo palestinos. Foi pai aos 73 anos, mas sua mulher e filho viviam em Paris, longe da guerra. Tornou-se o presidente da Autoridade Palestina em 1994, ocasião em que renunciou, publicamente, ao terrorismo e pareceu entender que não haveria solução puramente militar para o conflito.

Contudo, a partir dessa época, perdeu o controle sobre os fundamentalistas pertencentes a diversos grupos radicais menores, que intensificaram as ações terroristas por meio de mísseis e "homens-bomba", alguns dos quais parecem ter sido treinados desde crianças.

Sharon e Arafat têm algumas características comuns que favorecem a liderança:
- eram "homens de ação", visivelmente comprometidos com a causa das respectivas nações. Foram personagens que não se mantiveram no conforto dos gabinetes, mas que se engajaram pessoalmente na guerra e na política, responsabilizando-se pelos resultados das decisões que tomavam.

- revelaram enorme iniciativa, tendo participado ativamente da história recente de seus povos, por meio da implementação de medidas para resolver os problemas existentes.

- Sharon procurou garantir a defesa do Estado de Israel, aumentando a área disponível aos judeus e fortalecendo as Forças Armadas. Já Arafat construiu a identidade e o nacionalismo palestinos. Além disso, buscou novos espaços para os refugiados, empregando a guerra irregular, que usa o terrorismo e a guerrilha como instrumentos.

- ambos eram homens de grande coragem, testados continuamente em combate e em confrontos políticos.

É interessante verificar que o atributo coragem sempre surge como importante para a liderança nas situações de guerra.

Por fim, nas contínuas crises vividas por seus povos no longo confronto do Oriente Médio, o mais relevante é que os dois líderes foram capazes de fazer a síntese dos anseios de cada grupo: segurança (judeus) e território (palestinos).

Continuar lendo
  1623 Acessos
  0 comentários
1623 Acessos
0 comentários