A gênese da brasilidade e o contexto atual

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  • "(...) Fusão de raças, forte semente, / Em Guararapes pujante surgiu, (...)". Esse trecho do Hino a Guararapes resume bem o evento histórico que é considerado a gênese de nossa nacionalidade. A intenção do texto é demonstrar a convergência entre nossa brasilidade e a formação do Exército Brasileiro.

Em 1580, com a morte do Rei de Portugal, o Rei da Espanha, Felipe II, unificou as coroas portuguesa e espanhola, formando a União Ibérica. Em consequência, tratou de eliminar as relações comerciais que Portugal tinha com a Holanda, já que os holandeses estavam em guerra contra os espanhóis. Nesse período, a Marinha Portuguesa esteve enfraquecida e a principal estratégia de combate dos holandeses era atacar as colônias da União Ibérica.

A primeira invasão holandesa no Brasil Colônia aconteceu em Salvador, sede do Governo-Geral, mas o objetivo principal da Holanda era a ocupação do Porto de Recife, ponto estratégico para a expansão de seus domínios, por estar mais próximo da Europa e dos engenhos produtores de açúcar. No momento das invasões holandesas, o Brasil Colônia estava militarmente enfraquecido, devido à crise econômica e política de Portugal, quase não havendo fortes e fortalezas.

No dia 14 de fevereiro de 1630, chega ao litoral pernambucano a expedição holandesa, com mais de 70 navios, 8 mil homens e 1100 canhões. Recife e Olinda são ocupadas e as forças de resistência têm que se reorganizar no interior do território de Pernambuco, sob a liderança de Matias de Albuquerque.

Em 19 de abril de 1648, a resistência havia mobilizado uma força libertadora, que contava com a participação de brancos, negros, índios e mestiços (algo nunca visto na colônia), todos do mesmo lado, comandados por Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Filipe Camarão. Essa força impôs duas fragorosas e decisivas derrotas ao adestrado exército holandês nos Montes Guararapes. A luta combinou táticas de guerrilha e de emboscada, utilizando meios expeditos de combate, como chuços, escudos de couro endurecidos, paus afiados, tostados e, principalmente, tendo o terreno a favor dos luso-brasileiros Essa nova forma de combate foi decisiva na vitória da força libertadora e ficou conhecida como "Guerra Brasílica". Estava pronto o embrião de uma força brasileira que cunhava sua própria doutrina de luta.

Nesse contexto, quando Pernambuco ainda estava dominado pelos holandeses, pode-se observar que Portugal já não tinha mais o domínio da colônia e que o invasor holandês, representado, principalmente, pela figura de Mauricio de Nassau, trouxe melhorias significativas para o Recife. Então, o que motivaria a reunião de cidadãos locais na composição de um exército libertador, formado por pessoas de interesses difusos, culturas diferentes e posições antagônicas, em um território já dominado e distante de sua metrópole?

A resposta parece estar no vínculo que uniu esses indivíduos - negros escravos, forros, mestiços, brancos e índios - para lutar em defesa do seu território, numa "fusão de raças". Foi o vinculo afetivo, que ligava essa gente a sua terra paterna, que proporcionou a união de todos para a libertação de sua Pátria. Ali houve o início da formação de um povo, uma "forte semente". Essa foi a gênese da nacionalidade brasileira, construída na dificuldade e com a união de diversas culturas em prol da defesa de uma iminente Nação.

Dessa forma, alcançou-se a vitória e a primeira definição de gente brasileira, forjada na batalha desigual contra um poderoso exército, superando dificuldades com coalizão, criatividade e inovação. Hoje, percebe-se que o berço da nossa nacionalidade está ligado à composição de um vitorioso exército libertador, formado pela fusão de raças. Esse laço de identidade, constituído entre a população e o Exército Brasileiro, fica evidente pela capacidade de que a Instituição tem de representar os diversos segmentos da sociedade brasileira, agregando valores em defesa da Pátria.
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A contribuição da linguagem e das práticas discursivas para a legitimação institucional

Ao longo de toda a sua trajetória histórico-social, o homem vem tentando organizar, conceituar e representar o conjunto de experiências materiais e imateriais que o identificam no mundo. Essas representações se materializam por meio da linguagem, produção cultural que se constitui em um universo de signos utilizados como instrumentos de comunicação ou de suporte para a manifestação do pensamento.

Os atuais estudos da linguagem, em especial, da Análise de Discurso, têm como princípio o conceito de língua como um fato social, cuja existência baseia-se na necessidade humana de comunicação.

Em sua obra "Comunicação e discurso: introdução à análise de discursos", Milton José Pinto define análise de discurso como "(...) uma prática analítica de produtos culturais empíricos (...) que (...) procura mostrar, à luz das modernas teorias sociais, como e porque tais produtos produzem certos efeitos de sentido."

Dessa maneira, trata-se de ciência que situa seu objeto – o discurso – no campo das relações entre o linguístico e o histórico-ideológico, e que busca as determinações sociais, políticas e culturais dos processos de construção de sentido. Sob essa perspectiva, pode-se considerar que, como representação e significação da realidade, o discurso constitui o mundo em significados, contribuindo para a composição de nossas identidades sociais e para a construção das relações sociais e dos sistemas de crenças e de conhecimentos.

A legitimação e a aceitação social desse conhecimento e dessas crenças materializam sem o discurso. Tal legitimação ocorre em nível das interações individuais, potencializa-se nas relações grupais e, principalmente, na constituição de organizações e instituições.

Assim considerado, institucionalmente, o processo de legitimação de uma organização, dentro da sociedade, ocorre pelo que Jesús Martín Barber em sua obra dos meios às mediações", chama de mediações feitas, basicamente, pela linguagem, por meio das práticas discursivas. Pode-se dizer, portanto, que a legitimação de uma instituição como o Exército Brasileiro é reforçada socialmente por um discurso que transmitirá seus valores, suas crenças, seus conhecimentos e suas verdades tanto para seus integrantes, quanto para a sociedade.

Dessa forma, dentro do cenário institucional militar, visualiza-se um contexto de práticas discursivas, no qual ritos, regras e convenções - como a hierarquia, a disciplina e o papel de cada integrante nas relações sociais – são determinantes nos vínculos e nas trocas simbólicas.

Acredito ser de extrema importância o estudo da linguagem como instrumento dessas práticas discursivas, que vêm tecendo significados e contribuindo, ao longo da história, para a percepção da identidade institucional da Força, não somente quando transmitem e reforçam
valores, crenças e rituais que lhes são próprios, mas também quando justificam uma ordem institucional e asseguram a transmissão daquele conjunto de vivências acumuladas e repassadas chamado conhecimento, que, em última instância, condiciona a legitimação da Instituição na sociedade.

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A AMAN e a manutenção dos valores militares

Nas últimas décadas, devido à série de fatores que não serão comentados neste texto, a sociedade brasileira foi se modificando e, pouco a pouco, a população foi deixando de cultivar valores importantes, anteriormente reconhecidos como necessários ao aperfeiçoamento do indivíduo e ao convívio social harmônico, seja no exercício das diversas profissões, seja no relacionamento interpessoal. Para o Exército Brasileiro, que recebe seu pessoal dessa sociedade, as citadas mudanças tornaram-se grave problema a ser enfrentado, uma vez que vêm causando a progressiva deterioração de valores militares fundamentais, como patriotismo, espírito de corpo, disciplina e respeito às leis, à hierarquia, aos camaradas e às pessoas em geral.

No caminho da depreciação dos valores militares, vê-se, como consequência, a progressiva destruição das tradições castrenses, pois cidadãos que têm valores diferentes não podem ter as mesmas tradições. Estas são os elos da corrente de coesão que une o passado ao presente e que permitem o entendimento entre as antigas e as novas gerações de profissionais militares. Além disso, são o estabelecimento de laços de liderança entre os diversos níveis da hierarquia. Sem sólidas tradições, prejudica-se o bom funcionamento da Instituição.

Por isso, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), escola formadora dos oficiais combatentes do Exército Brasileiro, é preciso executar um trabalho proficiente, que sustente a formação correta dos cadetes que, dentro em pouco, integrarão a coluna vertebral da Instituição. É fundamental formar oficiais motivados e compromissados, capazes de fornecer aos seus futuros subordinados exemplos pessoais ligados aos valores militares que o Exército precisa manter.

A seguir, será mostrado o core de valores fundamentais que precisam ser internalizados por aqueles que comandarão outros militares e que administrarão os meios coercitivos mais poderosos de que o Estado dispõe. Internalizar ou interiorizar um valor é o processo pelo qual a pessoa, inconscientemente, incorpora ao seu caráter um valor, que foi para ela identificado por outro indivíduo ou por um grupo social.

Do ponto de vista filosófico, o termo "valor" refere-se a uma propriedade das coisas ou do comportamento individual pelo qual é satisfeito um determinado fim, julgado relevante por um grupo. A lealdade, por exemplo, é valor essencial para quem precisa trabalhar em grupo, como é o caso dos militares.

Imagine-se um grupo militar no qual os integrantes sejam desleais. Nessa situação, as pessoas não confiarão umas nas outras. Isto será trágico, porque, em tal equipe, não haverá cooperação, camaradagem e coesão, o que impossibilita o trabalho com unidade de propósitos, em busca do cumprimento das missões.

É relevante destacar que cada conjunto humano costuma ter os seus próprios valores e que o grupo militar tem os seus muito bem identificados. Os valores militares delimitam a cultura grupal, auxiliam na construção do caráter de seus integrantes e, em consequência, balizam as suas atitudes. No Exército, isso ainda acontece porque a maioria de seus integrantes internalizou os valores grupais.

Os valores, quando incorporados, tornam-se características individuais ou atributos da área afetiva, que levam a pessoa a agir de uma determinada maneira. Conforme um antigo glossário do Centro de Estudos de Pessoal (CEP), um atributo da área afetiva pode ser definido como uma característica relativamente consistente do indivíduo para responder, de uma determinada maneira, às situações que se apresentam.

Na AMAN, o discente deverá identificar e internalizar valores imprescindíveis à formação de seu caráter, para que possa, no futuro, comandar grupos militares, tornando-se, com suas atitudes, exemplo vivo desses valores. Desse modo, se um cadete internalizou o valor "lealdade", pode-se inferir que esse militar tenderá a agir de maneira leal com superiores, pares e subordinados. Se um dia falhar, tanto o grupo, quanto a própria consciência o acusarão.

Mas, o que vem a ser "caráter"?

No sentido geral, é o conjunto das características individuais e das condições fundamentais de inteligência, de sensibilidade e de vontade que distinguem uma pessoa das demais. Sob o aspecto moral, é a energia da vontade e a firmeza de princípios e propósitos que conferem ao indivíduo uma diretriz bem definida em sua conduta. Essas são as características da chamada "pessoa de caráter", isto é, daquela que possui o "senso moral" corretamente orientado.

No estudo da personalidade, podem ser considerados dois aspectos:
- o hereditário (temperamental); e
- o psicossocial / ambiental (caracterológico).

Assim, a base hereditária da personalidade expressa-se por meio do "temperamento", enquanto que o "caráter" representa a face ambiental.

Não é tarefa simples obter modificações no temperamento ou no caráter de alguém. Segundo Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional (1995), para se modificar, o indivíduo deverá adquirir consciência das próprias emoções, aptidão indispensável e sobre a qual se fundam outras, como o equilíbrio emocional, base da autodisciplina, que era citada por Aristóteles como princípio fundamental do caráter.

O caráter consolida-se conforme o ser humano internaliza valores nos cinco níveis taxonômicos do domínio afetivo: receptividade, resposta, valorização, organização e caracterização. Na AMAN, procura-se obter a adequação do caráter dos discentes. O que se deseja é desenvolver nesses jovens um caráter compatível com as exigências da cidadania e com as necessidades da vida militar, particularmente, aquelas impostas pelas situações de combate, dando aos discentes instrumentos que os capacitem a comandar, com proficiência, na paz e na guerra.

Considera-se que obter a internalização dos valores militares pelos cadetes é a parte mais difícil e complexa da formação.

Mas, por que motivo essa internalização de valores deve ser obtida?

Ocorre que, no futuro, os cadetes terão não só que comandar seus subordinados de forma correta - chefiando, administrando e liderando -, mas também que ser "administradores da violência", uma vez que o Estado colocará nas mãos desses militares os meios coercitivos mais poderosos, para que sejam empregados na defesa dos legítimos interesses da Nação. Portanto, o futuro oficial deve possuir caráter bem formado, a fim de utilizar corretamente esses recursos.

Para que isso aconteça, quais são, no mínimo, os valores que precisam ser internalizados pelos cadetes?

Para que se tenha um bom entendimento da questão, os valores serão divididos em três grupos. No primeiro, estão relacionados os valores ligados à integridade de caráter: disciplina, honra, honestidade, lealdade, senso de justiça e respeito. Eles são fundamentais, pois constituem alicerces do bom caráter, além de ser importantes tanto para os militares, quanto para as pessoas de bem.

No segundo grupo, estão os valores chamados cívico - profissionais: patriotismo/civismo, espírito de corpo e camaradagem. Eles se referem, respectivamente, à Pátria, ao Exército e aos Irmãos de Armas.

Para os militares, são valores básicos e devem fazer parte do caráter do soldado, em todos os postos e graduações.

No terceiro, estão os valores impostos pelas necessidades profissionais, os quais, quando internalizados, ajudam a moldar o caráter do soldado eficiente e, principalmente, do bom comandante que, por intermédio da confiança que inspira com suas atitudes, consegue influenciar os subordinados, liderando-os. São eles: adaptabilidade, autoconfiança, comunicabilidade, coerência, cooperação, coragem, criatividade, decisão, dedicação, direção, entusiasmo, equilíbrio emocional, iniciativa, persistência, responsabilidade, autoridade, empatia, paciência e tato.

Esses quatro últimos valores dizem respeito à melhor maneira para se corrigir os subordinados, que devem ser orientados pelo comandante com "sereno rigor", o que significa emprego simultâneo de firme autoridade, conjugada com empatia, paciência e tato.

É esse o core dos valores militares que, num primeiro passo, precisam ser identificados para os Cadetes de Caxias, permitindo que venham a internalizá-los.

Por fim, pode-se afirmar que, enquanto os cadetes, futuros comandantes da Força, internalizarem os valores acima identificados, o Exército, certamente, permanecerá disciplinado, coeso e motivado, sempre em busca da capacidade operacional necessária para cumprir suas missões constitucionais.

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