Capacitação continuada dos docentes: fator crítico para o sucesso do incremento da educação assistida por tecnologias digitais no Sistema de Educação e Cultura do Exército (SECEx)

Após quase 10 anos de afastamento do Sistema de Educação e Cultura do Exército, retornei como Diretor de Educação Técnica Militar, em que expressões como educação ubíqua, sala de aula invertida e educação 4.0 estavam circulando pelos corredores e na pauta de conversações e discussões. Naquele instante, percebi que havia ficado preso ao passado e realmente estava desatualizado. Entretanto, como diz um velho jargão militar que nada resiste a um bom papiro”, fui em busca da literatura existente e do que já estava em curso na própria Diretoria e no Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx). Afinal, tinha que buscar não apenas o bizu, mas um aprofundamento maior sobre o impacto das tecnologias digitais na educação.

Em casa e no trabalho, já vivenciava algo nesse sentido, fruto da pandemia da covid-19, como as aulas on-line dos meus filhos e o uso mais intenso das videoconferências, substituindo as reuniões presenciais. Contudo, nada como um mergulho na história para entender a evolução do ensino no Exército; para tanto, irei retroceder até o início do século passado e caminhar em uma linha do tempo, começando com os “Jovens Turcos”, tenentes de turmas formadas na Escola Militar do Realengo que, no período entre 1905 e 1912, vivenciaram no Exército Alemão o que de mais moderno existia à época em termos de doutrina, material militar e especialização.

O propósito principal do envio de três turmas de oficiais para a Alemanha foi, justamente, capacitar esses oficiais para priorizar o caráter profissional e prático das lides militares em contraposição ao academicismo e à politização. Retornando ao Brasil, extremamente motivados e com o firme propósito de realizar mudanças, esses jovens oficiais serviram de mola propulsora para a Profissionalização do Ensino Militar.

Surgiram, logo depois, as primeiras manobras, a divisão da instrução militar em períodos e o lançamento da Revista Defesa Nacional, em 1913, com a publicação de artigos, em que a modernização do Exército sempre estava em pauta. Ademais, propiciaram o advento da Missão Indígena, em que instrutores selecionados sob a nova ótica da profissionalização foram responsáveis pela instrução dos cadetes da Escola Militar do Realengo a partir de 1919.

Logo após a primeira Guerra Mundial, as inovações no campo de batalha e na arte da guerra, além do cenário político mundial, foram cruciais para a vinda da Missão Militar Francesa (1920-1940), destinada à Organização e Modernização da Instrução, especialmente nas escolas de aperfeiçoamento e de estado-maior, onde foram introduzidos os famosos temas escolares, até hoje em utilização nos nossos estabelecimentos de ensino. De igual forma, novos conceitos e novas teorias foram traduzidos em manuais e introduzidos os fatores da decisão no processo de planejamento, estimulando os estudos e as discussões dos estados-maiores.

A aproximação com os Estados Unidos da América, fortalecida pela participação da Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial, criou um intenso intercâmbio e mais uma Missão Militar, a Norte Americana, que veio acompanhada de inúmeros e modernos Materiais de Emprego Militar (MEM), como blindados, rádios e armamentos. A necessidade imperiosa de especialização para utilização e emprego tático desses novos MEM levaram à criação do Centro de Aperfeiçoamento e Especialização do Realengo, gênese da DETMil. A influência norte-americana perdura até os anos 70 e, em um período que vai até o início dos anos 90, a Racionalização Científica, iniciada pelo Marechal Castello Branco, introduziu avanços significativos como o estudo de situação no planejamento do estado-maior, os programas-padrão e o currículo por objetivos, calcados por uma pedagogia tecnicista.

A evolução na educação era sentida, porém havia a necessidade de um profundo diagnóstico no setor, com base nos seguintes questionamentos: o que ensinar? como ensinar? como avaliar? e como possibilitar um maior intercâmbio com o restante do mundo acadêmico? O propósito era dar um salto qualitativo no ensino militar, superando os desafios do século XXI. Para a consecução desse objetivo, a partir de 1995, o Grupo de Trabalho para o Estudo da Modernização do Ensino (GTEME), que contou com a participação do então Cel Paulo Cesar de Castro (antigo Chefe do então Departamento de Ensino e Pesquisa) atuou no contexto do Processo de Modernização do Ensino (PME) e produziu um relatório bastante crítico, indicando a necessidade de colocar o discente como foco do processo ensino-aprendizagem, o estímulo ao trabalho em grupo e o fomento à construção do conhecimento com o aprender a aprender.

O resultado do PME serviu de base para as mudanças requeridas no ensino pelo Processo de Transformação do Exército, iniciado em 2010, como a estruturação e sistematização da pesquisa e pós-graduação com a criação do Instituto Meira Mattos (IMM), na Escola de Comando e Estado-Maior (ECEME), e a implantação do ensino por competências a partir de 2012.

Nesse ínterim, na Alemanha, em 2011, surge a terminologia “Indústria 4.0”, considerando os avanços tecnológicos como a nanotecnologia, a internet das coisas e a realidade aumentada, entre outros. Enfim, já não era necessário um empregado apertando parafusos em uma linha de produção, mas um profissional altamente capacitado para operar e gerenciar equipamentos e sistemas complexos com alta tecnologia.

Surgia, assim, a necessidade de docentes com a capacidade de formar profissionais para essa nova realidade do mundo industrial. Essa nova geração deveria se valer de abordagens e práticas pedagógicas focadas nos discentes e com alta inserção das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TIC). Dessa analogia com a indústria, nascia a terminologia Educação 4.0, hoje em voga entre os educadores.

Buscando manter-se na vanguarda da educação e alinhado com as Diretrizes do Comandante do Exército e com os Objetivos Estratégicos da Instituição, o DECEx promoveu no ano de 2020 o Estágio de Atualização Pedagógica (EsTAP), nível 1, com foco nos princípios da Educação 4.0, no qual o discente é o foco do processo ensino-aprendizagem, e as técnicas de ensino são amplamente apoiadas pela integração de mídias analógicas e digitais, aprendizagem onde houver um aluno conectado, práticas interativas com simulação e com um docente capaz de promover desafios constantes, seja como facilitador, orientador ou mentor.

Seguindo nessa direção, no corrente ano (2021), as principais ideias foram plasmadas na Diretriz de Orientação para o Incremento da Educação Assistida por Tecnologias Digitais nos Processos de Ensino e Aprendizagem no Âmbito do Sistema de Educação e Cultura do Exército Brasileiro. Essa nova diretriz incorpora vários princípios e práticas pedagógicas da Educação 4.0, para potencializar o Ensino por Competências.

A diretriz orienta para a utilização de Metodologias Ativas de Aprendizagem (MAA), como a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em problemas, a gamificação, a aprendizagem baseada em projetos, o mapa mental, entre outras, esclarecendo que a mera utilização de uma mídia digital não implica, necessariamente, a aplicação de MAA.

É importante destacar a parte em que a diretriz afirma que o “ensino no SECEx continuará a privilegiar a prática individual e/ou coletiva, por meio de execução de tarefas ou problemas militares simulados” e segue orientando que as mídias digitais servirão para tornar o processo mais didático e, ao mesmo tempo, mais agradável aos discentes, em especial aos nativos digitais (geração Z – nascidos entre 1995 - 2015, segundo alguns autores), pois já nasceram deslizando seus dedos nos tablets e smartphones, são autônomos e necessitam interagir para se sentirem motivados.

A diretriz, ainda, coloca como uma das lições aprendidas durante a evolução do ensino no Exército a capacitação continuada dos docentes como um fator crítico para o sucesso no importante mister de educar, que extrapola o ensinar (criar as condições necessárias para a construção do conhecimento) e abrange, em seu significado mais amplo, o desenvolvimento de valores e atitudes com o propósito maior de formar futuros líderes.

Nesse sentido, o DECEx, em outubro de “A-1”, sempre promove o Estágio de Atualização Pedagógica, nível 1, que se reverbera em “A”, no início do ano de instrução, em todos os Estabelecimentos de Ensino, Centros de Instrução e OM com encargos de Ensino, nivelando e capacitando os docentes para o cumprimento da nobre missão de educar.

Em face à nova realidade mundial e às inúmeras inovações tecnológicas, foram criados, no corrente ano (2021), três estágios com o propósito de aprimorar a preparação dos agentes de ensino:

- O Estágio de Capacitação em Educação 4.0 (150 horas), coordenado pelo Centro de Estudos de Pessoal (CEP) e realizado de forma remota em Instituição de Ensino Superior Civil, com o objetivo de compreender a fundamentação teórica, os princípios da Edc 4.0 e suas ferramentas para otimizar a prática pedagógica, capacitou uma massa crítica de 25 agentes de ensino.

- O Estágio de Preparação de Instrutores e Monitores (EsPIM), conduzido pelo CEP em um total de 120 horas de atividades de ensino, e mais de 1.100 militares capacitados com a fundamentação conceitual do ensino por competências e exercícios para articular teorias e práticas educativas assistidas por tecnologias digitais e analógicas.

Inserido no material didático do EsPIM, encontra-se o CADERNO DA EDUCAÇÃO MILITAR NA ERA DIGITAL, apresentando e ensinando a utilização de aplicativos, ferramentas e tutoriais de forma interativa e intuitiva com o objetivo de tornar a instrução mais atraente e motivadora.

- O Estágio de Tecnologias Digitais na Educação (ETED), conduzido pelo Centro de Educação à Distância do Exército (CEADEx) e com 120 horas de atividades, tem como objetivo principal empregar ferramentas de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), como recursos didáticos dentro e fora do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), na tutoria da Educação a Distância (EAD) e no apoio ao ensino presencial nos cursos e estágios do SECEx. Cabe salientar outra iniciativa do CEADEx, que realizou, em novembro de 2021, a 1ª Jornada de Tecnologias Digitais na Educação, no formato de minicurso, em que os participantes, embora remotamente, aprenderam fazendo.

Os desafios na educação são enormes, mas os primeiros passos estão sendo dados com a capacitação de uma massa crítica de agentes de ensino, que permitirá um diagnóstico detalhado do Sistema de Educação e Cultura, baseado em indicadores que possibilitem a concepção, o planejamento e a implementação da Educação Assistida por Tecnologias Digitais. Uma contribuição importante, que já está servindo de base para esse propósito, é o Projeto Interdisciplinar da ECEME intitulado: A Implantação da Educação 4.0 no SECEx.

A Educação, “a jóia rara da coroa”, sempre foi entendida como a prioridade do Exército Brasileiro e, por isso, sempre esteve na vanguarda, buscando o que de mais avançado existia nas práticas e abordagens pedagógicas durante toda sua evolução. Atualmente, o desafio é ampliar a capacitação dos docentes, atuando na preparação daqueles que ainda não realizaram os estágios mencionados neste artigo. Somente a capacitação continuada dos agentes de ensino permitirá o desenvolvimento de uma cultura de inovação, o letramento digital necessário para o avanço da Educação Assistida por Tecnologias Digitais e a sua estruturação por meio de um diagnóstico crível e pormenorizado dos Estabelecimentos de Ensino, Centros de Instrução e OM com encargos de ensino e, por conseguinte, do próprio SECEx.

Por fim, por meio de estratégias de aprendizagem inovadoras e na busca constante do autoaperfeiçoamento, seguimos vibrantes e entusiasmados com essa paixão que é educar, moldando, com conhecimento e valores, o profissional militar da Era do Conhecimento para liderar nos ambientes voláteis, incertos, complexos e ambíguos da realidade atual e na imprevisibilidade dos cenários futuros.

Para saber mais acesse o vídeo pelo link ou QR Code.

http://www.ceadex.eb.mil.br/images/Detmil/CEP_CEADEx.mp4

Fontes:

BRASIL. Exército Brasileiro. Departamento de Educação e Cultura do Exército. Portaria DECEx/C Ex Nr 407, de 16 de setembro de 2021. Aprova a Diretriz de Orientação para o Incremento da Educação Assistida por Tecnologias Digitais no Âmbito do Sistema de Educação e Cultura do Exército (EB60-IR-05.006). Boletim do Exército Nr 38/2021, Brasília, DF, 24 Set 2021.

CARVALHO NETO, Cassiano Zeferino. Educação 4.0: princípios e práticas de inovação em gestão e docência. São Paulo: Laborciência Editora, 2018. 5ª ed 2019.

DE OLIVEIRA ALMEIDA, Eliasar (2020). Os “Jovens Turcos” e sua importância para o impulso da profissionalização do Exército BrasileiroA Defesa Nacional, (739). Disponível em: < http://www.ebrevistas.eb.mil.br/ADN/article/view/5434>. Acesso em: 19 dez 2021.

FARIAS, Johnestown Haulisson et tal. Projeto Interdisciplinar: a implantação da Educação 4.0 no Sistema de Educação e Cultura do Exército. Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, RJ, 2021.

Homo Deus e seu impacto para as Ciências Militares
Braço Forte, o podcast do Exército Brasileiro: ouç...
 

Comentários 3

Visitantes - Raissa serrão em Sexta, 07 Janeiro 2022 12:04

Muito bom vc é o orgulho dos brasileiros!
?parabéns pela sua conquista de ser um militar

Muito bom vc é o orgulho dos brasileiros! ?parabéns pela sua conquista de ser um militar
Visitantes - Raissa serrão em Sexta, 07 Janeiro 2022 12:00

Gostaria de participar

Gostaria de participar :(
Visitantes - Raissa em Sexta, 07 Janeiro 2022 11:59

Muito ?

Visitantes
Sexta, 27 Mai 2022

By accepting you will be accessing a service provided by a third-party external to http://eblog.eb.mil.br/