Jovem do Serviço Militar – Novo Perfil

O Serviço Militar, compromisso obrigatório anual de todo brasileiro que completa 18 anos, é atividade que remonta a épocas antigas. Ao longo de mais de cem anos, as características físicas e intelectuais do jovem que se apresenta para a seleção vêm evoluindo com o desenvolvimento tecnológico.

Desde a sua informatização, o Serviço Militar reúne importante banco de dados, permitindo constatar que o perfil do jovem alistado se modificou ao longo do tempo. A Diretoria de Serviço Militar é o órgão técnico-normativo que regula as atividades do Serviço Militar. Para tanto, faz uso do "Sistema Eletrônico de Recrutamento Militar e Mobilização (SERMILMOB)".

Esse sistema corporativo, que gerencia o Serviço Militar inicial, contém dados definidores dos parâmetros de tributação, alistamento, seleção e designação de todos os cidadãos alistados para as três Forças (Marinha, Exército e Aeronáutica). São dados biométricos, antropométricos, sociais e educacionais de jovens dos diversos estratos. Trata-se de informações que permitem traçar cenário e panorama particulares à evolução do cidadão brasileiro.

Diante disso, em consulta ao banco de dados do SERMILMOB e consoante ao cenário que se deseja estabelecer, com mais de 25 milhões de registros de alistamento para o Serviço Militar inicial, no período 1980 a 2017, podemos verificar o seguinte.


Aumento significativo do nível de escolaridade

​Sob o ponto de vista do nível de escolaridade, é possível perceber melhora significativa. Na década de 1980, mais de 75% dos jovens possuía somente o ensino fundamental. Hoje, esse percentual representa quem possui o ensino médio, dos quais 20% têm esse curso concluído.

Outro dado relevante é que, em 1980, apenas 2% cursavam ou iniciavam o ensino superior ao se alistarem; hoje, são quase 10%. Esses dados demonstram que o ingresso no ensino médio, nas últimas décadas, ficou mais acessível. Com isso, chegam às nossas fileiras jovens mais bem escolarizados, que, incorporados, tornam-se militares potencialmente esclarecidos e capacitados a ler e entender instruções complexas, além de poderem usar material bélico avançado. Com maior preparo intelectual, eles se engajarão mais facilmente em cursos profissionalizantes do Sistema "S", possibilitando efetiva inserção no mercado formal de trabalho, quando de seu licenciamento.




O Sistema Serviço Militar, alinhado à Estratégia Nacional de Defesa, deve se adequar à Era da Informação e do Conhecimento, absorver as mudanças e acompanhar as tendências sociais, tecnológicas e culturais do ambiente em que se insere. Assim, na conjuntura atual, revestido pelas transformações no uso de equipamentos de defesa cada vez mais avançados e sofisticados, o Sistema necessita selecionar cidadãos para uma reserva mobilizável e contribuir na formação da consciência do brasileiro.


Os jovens brasileiros estão mais altos

Para fins de alistamento, percebe-se melhora no perfil do jovem também em sua estatura. Registra-se aumento médio de quase 10 cm entre quem se alistou nos anos 1980 e nos dias atuais. É interessante notar que esse aumento acontece em todo o País, corroborando uma tendência comum nesse período – de melhor acesso a serviços que denotam qualidade de vida.

Entre 1980 e 2017, a redução de 12,2% na quantidade de brasileiros com estatura inferior a 1,60 m – altura considerada inapta para servir às Forças Armadas. Em contrapartida, 29,8% dos alistados possuíam altura maior que 1,70 m. Atualmente, esse percentual é de 67,2%, significando mais que o dobro dessa medida e ampliando o rol de opções para a seleção dos alistados.


A diferença de estatura do jovem brasileiro sofre sensível alteração, conforme a região de origem. Analisando os registros de 2017, percebe-se que, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com exceção da capital do País, há a predominância de homens altos, com uma diferença de, aproximadamente, 5 cm para as regiões Norte e Nordeste.

Aumento de peso entre os jovens brasileiros acompanha o crescimento

Ao longo dos anos, o Sistema Serviço Militar vem se adaptando às exigências dos novos tempos. Desse modo, a estatura do cidadão, associada ao peso e à força muscular, define, por meio de parâmetros inseridos no Sistema Eletrônico de Recrutamento Militar e Mobilização (SERMILMOB), o tipo físico mais adequado a ocupar uma função militar que mais se ajuste às potencialidades do selecionado.

Os dados computados no Sistema apontam aumento de peso do jovem brasileiro no período estudado. Mas, ainda que o conscrito tenha adquirido mais peso (na década de 1980, o peso médio era de 60 kg; atualmente, é de 70 kg), ao analisarmos o índice de massa corporal (IMC), percebemos leve alteração – de 21 para 23 – e, com isso, deduzimos que o aumento médio de peso permanece dentro do considerado apto e saudável.

Em tal cenário, o cidadão que possuir altura maior que 1,70 m e peso maior que 60 kg e, ainda, no teste realizado pelo dinamômetro, aferir força muscular superior a 127 kg, será considerado tipo físico "A". Nessa condição, esses atributos são considerados requisitos especiais, o que significa que, caso o cidadão possua essas especificações, possivelmente será distribuído para unidades nas quais seja exigido arquétipo físico acima da média para o exercício da função.

Reforçando o exemplo, outro aspecto avaliado no alistamento para o serviço inicial é a preocupação em selecionar jovens saudáveis, em virtude da redução nesse quantitativo de 4,7% entre 1980 e 2017, e do aumento na taxa de sobrepeso/obesidade de 3,4% para 17%.

Todavia, ressalta-se que a seleção de cidadãos para ingresso nas Forças Armadas é realizada pelos seguintes itens de avaliação: tipo físico (altura, peso e força muscular); entrevista (observa indícios importantes, tais como: personalidade, expressão verbal, controle emocional e competências); escolaridade; características fisiológicas (audição e expressão oral); e inspeção de saúde.



Como as Forças Armadas aproveitam as informações


Os dados armazenados pelo SERMILMOB demonstram que "servir à Pátria", mais que um serviço obrigatório, tem se tornado opção real e concreta para os jovens. De 2003 a 2017, essa manifestação diminuiu 25%. Entre os que desejam servir, o Exército figura como a principal escolha em relação às demais Forças.

Por meio dessas informações, as três Forças têm a capacidade de estudar o passado, pensar o presente e projetar o futuro: no presente, esses dados ajudam no melhor aproveitamento de um contingente preparado e interessado nas atividades militares; no futuro, para que as Forças possam realizar planejamento inteligente do seu efetivo, utilizando com mais precisão as habilidades e capacidades dos conscritos.

Por fim, os jovens, ao deixarem o serviço ativo, retornam à sociedade com novas habilidades e aptos para os diferentes desafios pessoais e profissionais, contribuindo para a projeção e a imagem das Forças Armadas.


*Referências: Banco de Dados do SERMLMOB.


Co-autora: 2º Ten OTT Mayra Gonçalves de Souza Rezende - Oficial de Comunicação Social da Diretoria do Serviço Militar

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Em 2049 - China será a primeira potência mundial

Nas últimas décadas, o mundo testemunhou a evolução, na China, de um estado pouco conhecido no mundo ocidental para um dos principais membros do sistema internacional. Com crescente poder nacional e influência externa em expansão, a China define o seu interesse nacional ao defender amplamente uma estratégia para promover o desenvolvimento comum, em vez de apenas criar um ambiente favorável ao seu próprio progresso.

No campo econômico, a China é hoje a segunda maior economia e a maior parceira comercial do resto do mundo. O rápido crescimento econômico transformou o país num importante importador mundial de recursos naturais e grande investidor em setores avançados das economias desenvolvidas. É por isso que, do ponto de vista internacional, a China é um ator central em quase todas as grandes questões econômicas e da política contemporânea.

O fim da "Grande Revolução Cultural" ocorreu em outubro de 1976, começando uma nova era na história da China. Foi sob a liderança de Deng Xiaoping, que o país empreendeu as reformas econômicas de liberalização da economia socialista que permitiram alcançar índices de crescimento econômico impressionantes.

Em 1979, a China começou a implementar a política de reforma e abertura, buscando a inovação e a modernização. Deng Xiaoping estabeleceu o objetivo de construir uma "sociedade moderadamente próspera" durante a modernização do país.

Em setembro de 1982, o XII Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCC) elevou a meta de quadruplicar o valor da produção industrial e agrícola do país no período de 20 anos, entre 1981 e o final do século, e de melhorar as condições de vida das pessoas para atingir o nível de uma sociedade moderadamente próspera.

Em outubro de 1987, o XIII Congresso Nacional do partido definiu as disposições da estratégia de modernização. A conferência delineou uma estratégia de desenvolvimento econômico "em três etapas": primeira, dobrar o produto interno bruto (PIB) do ano de 1980, para resolver o problema da alimentação e do vestuário; segunda, quadruplicar o PIB de 1980, até o final do século, para alcançar um padrão de vida relativamente bom; e terceira, completar a modernização da nação, elevando o PIB per capita ao nível dos países de desenvolvimento intermediário e melhorar as condições de vida da população.

Em 1992, o XIV Congresso Nacional do partido declarou que o objetivo da reestruturação econômica da China era o estabelecimento de um sistema socialista de economia de mercado.

O objetivo do XV Congresso Nacional do partido, de 1997, consistiu em mobilizar as pessoas para se unirem, a fim de promover a construção do socialismo com características chinesas para o século XXI.

O XVI Congresso Nacional do partido reforçou a ideia de que o país deveria se concentrar em acompanhar os tempos, construir uma sociedade próspera, acelerar a modernização socialista e trabalhar arduamente para criar uma nova situação na construção do socialismo com características chinesas.

Em outubro de 2007, ocorreu o XVII Congresso Nacional. Embora preocupado com a necessidade de alcançar um desenvolvimento equilibrado, o partido manteve o crescimento econômico uma prioridade, anunciando como meta para 2020, a quadruplicação do PIB per capita (a meta anterior era quadruplicar o PIB total).

Em 2012, houve o XVIII Congresso Nacional do partido. Em questões econômicas, a China colocou como objetivo manter um crescimento saudável e continuado, a fim de cumprir a meta de dobrar o Produto Interno Bruto e a renda per capita em 2020, com base nos dados de 2010. Ainda, estipulou refinar e aprofundar a reforma do sistema de mercado econômico e acelerar a mudança do modo de desenvolvimento econômico e reestruturação econômica, ampliando ainda mais a abertura para o exterior.

A estratégia e os objetivos que foram discutidos nos Congressos foram um sucesso. A economia da China mostrou um crescimento constante, conforme demonstram os seus indicadores econômicos.

O plano Made in China 2025 é a nova estratégia que o governo chinês se propôs a seguir para impulsionar e reestruturar sua indústria, de modo a passar de uma era de quantidade para uma nova era de qualidade e eficiência na produção. Com este plano, a China pretende ser líder em tecnologia em escala internacional, à frente de potências como a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão.

O plano Made in China 2025 é um programa de modernização que mostra alguns resultados impressionantes; por exemplo, em junho de 2016, a fabricante de smartphones Xiaomi instalou uma fábrica no interior de São Paulo para atender à demanda brasileira. Contudo, o plano em tela faz parte de uma estratégia ainda mais ambiciosa, cujo horizonte temporal é 2049.

A iniciativa chinesa de "Uma Faixa, Uma Rota" surgiu de um discurso do Presidente Xi Jinping, proferido na Universidade Nazarbayev, no Cazaquistão, em setembro de 2013, no qual ele pediu a união de esforços para construir em conjunto uma "Faixa Econômica da Rota da Seda ", em referência à melhoria das infra-estruturas de conectividade ao longo do corredor eurasiano e, em particular, na Ásia Central. Pouco tempo depois, em outubro daquele ano, e em outro discurso, desta vez no parlamento indonésio, surgiu a "Rota Marítima da Seda do Século XX", em referência às rotas de navegação entre a China, o Sudeste Asiático e o Oceano Índico, atingindo a África Oriental.

As estratégias adotadas, observadas em vários congressos do Partido Comunista, foram postas em prática nos últimos 35 anos.

A determinação da China e a natureza aberta do sistema internacional também permitiram o seu desenvolvimento; hoje o país não é apenas a segunda maior economia do mundo, mas também a maior reserva de moeda estrangeira e o destino de muitas empresas estrangeiras, a maioria deles do mundo desenvolvido. Nesse sentido, a China atual tem fortes laços econômicos com os diferentes países do mundo.

Em pouco tempo, a China será um Estado com posição dominante ou predominante no sistema internacional e com capacidade e meios para influenciar eventos e projetos de poder em escala global.

Seu objetivo de ser a primeira potência mundial no dia 1º de outubro de 2049 (data que comemorará 100 anos da proclamação da República Popular da China por Mao Tsé-Tung) será alcançado, fruto de um uma estratégia coerente e de uma política muito bem definida.

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Centenária Medicina Veterinária Militar brasileira: legado da Missão Militar Francesa

A centenária Medicina Veterinária Militar no Brasil surgiu como iniciativa de inovação do Ministério da Guerra, diante da necessidade de enfrentar crises sanitárias que atingiam os soldados, os rebanhos produtores de alimento e, principalmente, os cavalos, grande força de transporte militar do início do século XX. Hoje, a Medicina Veterinária está na base da cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, pilar fundamental da economia nacional.

Nas Forças Armadas e Polícias Militares, os veterinários militares cuidam da tarefa mais conhecida dessa especialidade – a manutenção da sanidade dos plantéis de equinos e cães militares. No Exército Brasileiro, os cerca de 200 veterinários desempenham missões estratégicas, além de zelar pela saúde dos dois mil equinos e 200 cães de guerra. Em média, são os responsáveis pelo controle de zoonoses, pragas e vetores nos quartéis e pela inspeção sanitária de toda a alimentação consumida pelos mais de 200 mil militares, empregando 18 laboratórios, realizando auditorias nas mais de 400 cozinhas e acompanhando a tropa em operações no Brasil e no exterior, como ocorreu na missão de paz da ONU no Haiti.

O Dia da Veterinária Militar é comemorado pelo Exército Brasileiro em 17 de junho, data correspondente ao nascimento do seu patrono, o Tenente-Coronel Médico João Muniz Barreto de Aragão, precursor do estudo da Medicina Veterinária no Brasil. Muniz de Aragão nasceu em 17 de junho de 1874, em Santo Amaro, Província da Bahia. Formou-se em medicina e, ainda durante a graduação, voluntariou-se para compor a equipe médica das operações militares em Canudos, em 1897, destacando-se pelo dedicado trabalho e acentuado espírito de solidariedade. Em 1901, passou a integrar o Corpo de Saúde do Exército, sendo lembrado por seu legado na pesquisa biomédica e empenho no combate às doenças que assolavam os animais, como a febre aftosa e as zoonoses mormo e tuberculose.

O Serviço de Veterinária do Exército foi criado em 1908 e a Escola de Veterinária do Exército foi fundada em 17 de julho de 1914, graças ao apoio da Missão Militar Francesa, requisitada pelo governo brasileiro ao Instituto Pauster, na França. O então Capitão Médico Muniz de Aragão foi o primeiro diretor da Escola, instalada no quartel do 3º Grupo de Obuses, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, formando a primeira turma em 1917.

Muniz de Aragão participou de várias comissões, entre elas, a que organizou o Serviço de Defesa Sanitária Animal e de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura e aquela que instituiu a Profilaxia dos Quartéis. Foi fundador da Sociedade Médico-Cirúrgica Militar e nomeado Inspetor do Serviço de Veterinária do Exército. Sua história, exemplar, terminou de forma precoce, aos 48 anos de idade, quando faleceu de síncope cardíaca, em 16 de janeiro de 1922. Seus feitos e ideais permanecem gravados na história da Medicina Veterinária e do Exército Brasileiro.

Em 13 de março de 1975, fruto das transformações doutrinárias, da mecanização da cavalaria e da consequente e drástica redução dos efetivos hipomóveis, a Escola de Veterinária do Exército foi extinta. Porém, a partir de 17 de junho de 1991, a especialidade veterinária voltou a integrar os quadros do Exército Brasileiro, por meio do Quadro Complementar de Oficiais. Em 1992, formou-se, na Escola de Administração do Exército, atual Escola de Formação Complementar do Exército, a primeira turma de veterinários militares da nova geração, dos quais seis oficiais chegaram ao último posto da carreira – Coronel – em 2017, momento marcante da evolução recente da área.

A Veterinária Militar promove assessoria técnica essencial em várias áreas do emprego da Força. Seus integrantes realizam o aprimoramento zootécnico dos animais de interesse do Exército; prestam assistência na clínica médica e cirúrgica de equinos e cães de guerra; fazem a inspeção de alimentos e forragens; atuam na eliminação de agentes infecciosos e na pesquisa e produção de soros e vacinas; trabalham nas práticas de biossegurança; executam o controle de qualidade da água, das pragas, dos vetores e das zoonoses; cuidam do meio ambiente e das espécies silvestres. Todas essas funções colaboram para a preservação do potencial humano da Instituição.

Assim, os médicos veterinários do Exército, inspirados nos exemplos e ideais de Muniz de Aragão, reafirmam o orgulho de integrar os quadros do Exército Brasileiro e renovam o compromisso de continuar trabalhando e aplicando seus conhecimentos para a manutenção da saúde dos recursos humanos e animais da tropa. Além disso, orgulham-se de contribuir para a defesa e o desenvolvimento nacional, sob os auspícios do novo paradigma da "Saúde Única", que preserva a sustentabilidade dos padrões sanitários do meio ambiente, dos animais e humanos.

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Tradução especializada no contexto militar

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A arte de traduzir, seja para a língua que for, pode ser descrita como uma perfeita sintonia entre o texto de partida, o tradutor e sua compreensão da mensagem, o texto traduzido e o leitor final na língua de chegada. Como se vê, o processo tradutório é muito mais complexo do que se imagina, pois o produto desse esforço deve ser uma mensagem que atinja seu objetivo em todos os aspectos, atendendo a uma equivalência funcional e comunicativa. Em outras palavras, o texto deve chegar ao leitor final (na língua de chegada, que é o idioma para o qual se pretende traduzir) da mesma forma que havia chegado aos leitores nativos na língua de partida (que é o idioma de origem do documento). Isso significa que a mensagem traduzida não deve possuir truncamentos ou causar estranhamento ao leitor, seja quanto a formas linguísticas e sua transmissão, seja quanto à linguagem utilizada ou ao sentido da mensagem. O leitor na língua de chegada deve compreender o texto da mesma forma como um leitor nativo da língua de partida o faria.

Quando se trata de áreas de especialidade, como a militar, a questão pode ser ainda mais complexa, porque existem terminologias próprias, que veiculam o conhecimento especializado. Aqui, a atenção deve ser redobrada, pois, mais que um exímio domínio das línguas de partida e de chegada do texto, torna-se de extrema importância que o tradutor domine a terminologia específica. Por isso, um cenário ideal seria se o tradutor fosse um profissional da área, o que, no caso, significaria ser um tradutor especialista militar, o que traria um resultado muito mais eficaz.

Um exemplo do que foi explicado acima pode ser visto na tradução para o espanhol da sentença: "no ano de 1956, houve o primeiro desdobramento de tropas armadas representando as Nações Unidas". Como poderia ser traduzido o termo grifado? Se formos buscar em um dicionário de Português-Espanhol, a palavra encontrada seria "desdoblamiento", que até poderia ser compreendida com algum esforço extra, sem, no entanto, representar o exato significado desejado. Nesse caso, o termo mais adequado na terminologia militar seria "despliegue", e a sentença deveria ser traduzida da seguinte forma: "en el año de 1956 hubo el primer despliegue de tropas armadas representando las Naciones Unidas".

Outro aspecto relevante a ser salientado quanto à tradução de documentos militares refere-se a aspectos culturais e de uso idiomático. Mais que conhecimento da área especializada, o tradutor deve, ainda, conhecer a cultura do local e do próprio campo especializado. Deve, acima de tudo, saber como determinado termo é utilizado no país ou na cultura para a qual pretende transpor a mensagem.

Para fins de exemplificação, peguemos o termo em espanhol "Organismo Internacional de Energía Atómica (OIEA)", para ser traduzido ao português (falado no Brasil). Muitos devem se perguntar: "mas como assim? Devo traduzir nomes próprios?". A resposta é que não se trata de traduzir os nomes, mas de transpor, para a outra língua, a terminologia exatamente como é utilizada pelo falante nativo do idioma de partida (origem) do documento.

Consultando a página web da Organização das Nações Unidas no Brasil (ONU Brasil), verifica-se que o nome adotado em nosso País é "Agência Internacional de Energia Atômica", com a sigla "AIEA". Em uma breve pesquisa por páginas web governamentais, verifica-se, ainda, que o Ministério das Relações Exteriores e outros órgãos públicos também utilizam essa nomenclatura e essa sigla (AIEA).

Com essa breve explanação, ao se utilizar a terminologia adequada, linguística e culturalmente, a mensagem chegaria ao leitor que atua na área específica relacionada à ONU sem causar estranheza. O texto seria compreendido pelos leitores-fim sem qualquer dificuldade.

O fato é que existem inúmeros termos como esses que, mesmo entre línguas tão próximas como o Espanhol e o Português, necessitam de maior cuidado e até de uma pesquisa mais profunda do que uma consulta a um dicionário de línguas.

O mais importante é que não basta saber o idioma, é preciso conhecer a cultura e a área em que se está trabalhando, para que o produto de uma tradução seja o mais certeiro e eficaz possível.

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Comunicando a Intervenção Federal: o paradoxo informacional da confiabilidade verde-oliva

As características da Intervenção Federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro – setorial, consentida e com cargo de titularidade de um militar da ativa – representaram um ineditismo não apenas político e jurídico na História do Brasil. Todas as áreas funcionais que, tradicionalmente, apoiam as tomadas de decisão corporativas viram-se também diante de uma situação peculiar: seus contornos de atuação precisaram ser rapidamente definidos e, ainda mais importante, estipulados, preservando a natureza e as especificidades das Forças Armadas. Não foi diferente com a Comunicação Social, à qual foram impostos dois importantes desafios iniciais.

O primeiro deles foi estabelecer a adequada arquitetura de relacionamento entre os diferentes atores do processo de comunicação, que agora haviam passado à subordinação de um único ente centralizador. E quais seriam esses atores? Embora alguns permeiem eventualmente mais de um nível de decisão (como é o caso da Secretaria de Segurança), em linhas gerais, foi visualizado, para os fins da Comunicação Social, o seguinte escalonamento:

- no nível político, o Gabinete de Intervenção Federal (AsCom GIF);

- no nível estratégico, o Comando Militar do Leste (E7-CML);

- no nível operacional, o Comando Conjunto (D7-CCj) e a Secretaria de Segurança (AsCom SeSeg);

- no nível tático, as três Forças Armadas, o Comando-Geral de Polícia Militar e a Chefia de Polícia Civil.

Desse modo, os quatro atores dos níveis político, estratégico e operacional (AsCom GIF, E7-CML, D7-CCj e AsCom SeSeg) foram selecionados como depositários da responsabilidade pelo alinhamento do discurso. A centralização do comando e controle na Segurança Pública, que é inerente à Intervenção e, em tese, vantajosa para a gestão organizacional sob a ótica do pensamento cartesiano militar, não resultou em unicidade plena de narrativa da Comunicação Social. A razão pela qual não se conseguiu atingir aquele estado é simples: não era desejável que assim ocorresse. Embora todos os entes comunicadores tenham objetivos estratégicos comuns, como a recuperação da capacidade operativa dos órgãos de segurança pública e a redução dos índices de criminalidade, as searas de cada um guardam particularidades que precisam ser satisfeitas, sob pena de comprometimento de sua vocação prioritária.

É necessário, por exemplo, que o Comando Conjunto comunique seu protagonismo no contexto das operações de garantia da lei e da ordem "integradas" (aquelas nas quais as Forças Armadas atuam em parceria com os órgãos de segurança pública); da mesma forma, é importante que seja permitido à Polícia Militar, operando isoladamente, divulgar sua efetividade como força policial autônoma em aperfeiçoamento, pois esse é justamente um dos objetivos estratégicos estabelecidos. Igualmente, quando se trata de implementar medidas de reorganização interna da Polícia Militar, é imperioso que esse tema seja de exclusiva competência da Secretaria de Segurança, embora o efeito da maioria das medidas tenha reflexos diretos na atuação de outros órgãos do processo de Intervenção, em especial, do Comando Conjunto. Compreendidas as necessidades de comunicar, vis-à-vis, os traços inerentes ao perfil de cada um dos componentes, as exclusividades temáticas foram assim estabelecidas:

- AsCom GIF: medidas estruturantes da Intervenção, especialmente as de caráter político (ex.: negociação de recursos financeiros federais, normas de reformulação do sistema prisional, normas para fluxo de carreira de policiais, medidas administrativas para reequipamento das Polícias etc.), e a agenda do Interventor Federal;

- E7-CML: assuntos sobre o Exército no Rio de Janeiro, mas que não envolvam a execução de operações integradas de GLO e os temas ligados aos estados do Espírito Santo e Minas Gerais (também integrantes do CML);

- D7-CCj: operações integradas de GLO;

- AsCom SeSeg: temas eminentemente afetos às Polícias Civil e Militar (ex.: reestruturação de Unidades de Polícia Pacificadora, operações policiais isoladas, recompletamento de efetivos, investigações em curso etc.).

Estabelecida a arquitetura da comunicação, o segundo desafio que se impôs (de caráter permanente e sensível aos humores da opinião pública) foi o de romper a tendência decorrente dos altíssimos níveis de confiabilidade das Forças Armadas no âmbito da população brasileira: o desejo de ver tropas armadas e meios bélicos personificando a última nesga de esperança pelo restabelecimento da paz social. Trata-se, em verdade, de um efeito colateral do reconhecimento que é auferido às instituições militares, ou seja, um preço a ser pago pela legitimidade e pelo respeito conquistados em longa caminhada de profissionalismo, de apego a valores morais sólidos e de gestão eficiente de recursos públicos.

Embora esse fenômeno não seja necessariamente danoso para o processo de Intervenção, ele pode induzir as pessoas à percepção enganosa quanto à verdadeira eficácia de cada uma das medidas implementadas. Nesse sentido, a ideia-força de que "a Intervenção é federal e não militar" não é, por si só, suficientemente impactante para dissipar, do inconsciente coletivo, a imagem dos soldados atuando permanentemente e de modo ostensivo nas operações em força, que resultem na prisão de delinquentes e na recuperação de territórios alegadamente controlados pela criminalidade. Como resultado, os cidadãos fluminenses em geral – e a imprensa em particular – buscam enfatizar, por vezes hiperbolicamente, quaisquer demonstrações da aplicação dessas "virtudes marciais", percebidas como panaceia à grave crise de segurança do Estado: blindados, helicópteros, militares fortemente armados e efetivos massivos de tropas constituem o principal alvo dos noticiários.

Tal como o filósofo grego Diógenes, que, durante o dia, percorria as ruas empunhando uma lamparina e alegando estar em busca de um homem honesto, as luzes lançadas sobre o hard power da Intervenção, embora obtenham o apelo imagético que estimula o consumo da notícia, também não contribuem para a construção de uma lógica inescapável que precisa ser comunicada adequadamente: a de que o legado sustentável pós-Intervenção bebe na fonte das medidas estruturantes e não na dos balanços de apreensões de drogas e armas que, embora necessários, não são nem suficientes, nem determinantes para os resultados de longo prazo desejados.

Desse modo, estabelece-se um paradoxo informacional: a ênfase da mídia concentra-se nas ações ostensivas, que são emergenciais, porém espetaculosas, quando a chave para a consecução dos objetivos estabelecidos repousa nas ações de gestão (no soft power), que são silenciosas, todavia consistentes, mas que, em geral, padecem da notoriedade que lhes deveria fazer justiça. Como a imagem das Forças Armadas funciona indubitavelmente como lastro de credibilidade ao processo de Intervenção Federal, é preciso não apenas preservá-la, mas também divulgá-la adequadamente, uma vez que a comunicação constitui fator determinante para o sucesso.

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