Inteligência Emocional e Liderança

 

No início dos anos oitenta, o psicólogo Howard Gardner propôs a teoria das inteligências múltiplas, definindo sete inteligências a partir do conceito que o ser humano possui um conjunto de diferentes capacidades. São elas:

        - A LÓGICO-MATEMÁTICA, que está associada diretamente ao pensamento cientí-fico e ao raciocínio lógico e dedutivo: matemáticos e cientistas têm essa capacidade privilegiada;

        - A LINGUÍSTICA, que está associada à habilidade de se expressar por meio da linguagem verbal, escrita e oral: advogados, escritores e locutores a exploram bem;

        - A ESPACIAL, que está associada ao sentimento de direção, à capacidade de for-mar um modelo mental e utilizá-lo para se orientar; é importante, tanto para navega-dores como para cirurgiões ou escultores;

        - A MUSICAL, que está associada à capacidade de expressar-se por meio da músi-ca, ou seja, dos sons, organizando-os de forma criativa, a partir dos tons e timbres;

        - A CORPORAL-CINESTÉSICA, que está associada aos movimentos do corpo, que pode ser um instrumento de expressão: dançarinos, atletas, cirurgiões e mecânicos valem-se dela;

        - A INTERPESSOAL, que está associada à habilidade de notar e interpretar o hu-mor, o temperamento, as motivações e as intenções das pessoas, relacionando-se bem com elas; é necessária para vendedores, sacerdotes, políticos, professores e líderes; e

        - A INTRAPESSOAL, que está associada à capacidade de estar bem consigo mesmo, de conseguir controlar os próprios sentimentos, de conhecer-se e de usar essas informações para alcançar objetivos pessoais.

Howard Gardner mostrou, ainda, que cada tipo de inteligência parece desenvol-ver-se de forma independente dos demais e que o alto desempenho em uma das for-mas não implica o mesmo desempenho em outra.

A teoria da inteligência emocional, proposta por Peter Salovery e Daniel Gole-man, está relacionada às inteligências intrapessoal e interpessoal e será resumida-mente estudada neste artigo, devido à sua crescente importância para a liderança, focada através da visão da teoria do campo social. Na verdade, será a inteligência emocional que permitirá ao comandante, em qualquer escalão, agir com sereno rigor quando precisar corrigir algum de seus subordinados.

Os estudiosos da inteligência emocional dividem-na em quatro habilidades fun-damentais:

- Conhecimento das próprias emoções (autoconhecimento).

- Capacidade de controlar essas emoções (autocontrole ou equilíbrio emocional).

- Reconhecimento das emoções nas demais pessoas ou grupos (empatia).

- Administração dos relacionamentos com pessoas ou grupos (uso correto da au-toridade que lhe foi delegada, da paciência e do tato).

A primeira habilidade diz respeito à capacidade individual de entender as pró-prias emoções e sentimentos, sabendo como esses evoluem com o passar do tempo.

Daniel Goleman e outros estudiosos chamam tal capacidade de “consciência pa-ralela” e afirmam que um elevado nível de autoconhecimento representa a diferença entre um mero “ataque de raiva” e o reconhecimento do ataque de raiva, isto é, saber que “estou com raiva agora”.

Portanto, o autoconhecimento constitui-se em um fator fundamental no controle das emoções. Para adquiri-lo é preciso fazer um trabalho de treinamento que permita à pessoa regular suas ações, mesmo durante experiências emocionais complexas e causadoras de desequilíbrios, como as situações de guerra, por exemplo.

Na realidade, diante de um estímulo emocional, as respostas fisiológicas aconte-cem de modo imprevisível. Resultados de pesquisas neurológicas sugerem que reações químicas e elétricas no cérebro humano, provocadas por interferências emocionais, causam forte influência no pensamento. Emoções extremas e traumáticas tendem a induzir reações ou respostas instintivas aos estímulos sofridos.

Em seu livro “Inteligência Emocional”, Goleman descreve a maneira como o cé-rebro humano age, gravando todas as experiências ou “situações críticas” ocorridas durante a vida do indivíduo. Essas passagens permanecem, de forma indelével, escri-tas na mente. Quando circunstâncias semelhantes às vividas são reproduzidas, o organismo reage instintivamente ao impulso recebido, em uma fração de segundo, antes de equacionar uma resposta lógica e objetiva às situações consideradas.

Essas respostas instintivas são fatores importantes para a sobrevivência do indi-víduo em situações de perigo. Em conseqüência, é possível utilizar tais conceitos no treinamento de militares que enfrentarão os perigos do campo de batalha. Por outro lado, essas reações poderão produzir agressividade em excesso, nociva à inteligência emocional, pela possibilidade de exacerbar o uso da autoridade e inibir a paciência, a empatia e o tato, dificultando ou impedindo que indivíduos, em funções de direção e controle de grupos, atuem com sereno rigor.

A terceira habilidade, reconhecer as emoções em outras pessoas ou grupos, con-funde-se com a empatia, característica fundamental da personalidade, segundo Gole-man.

Observa-se que as pessoas, em muitas ocasiões, não expressam diretamente seus sentimentos e muitas coisas ficam escondidas sob um manto que só pode ser levantado por intermédio da cuidadosa observação das expressões faciais, dos gestos, do tom de voz e do entendimento das meias palavras.

Se, por exemplo, um comandante militar perguntar se está tudo bem, ao subor-dinado que passar cabisbaixo e visivelmente desanimado, esse tenderá a dizer que sim, por não querer apresentar sinais de fraqueza. Dificilmente confessará o motivo real de seu desânimo. Portanto, será preciso pesquisar e observar melhor. Tal trabalho só pode ser feito por alguém que tenha boa inteligência emocional e, consequente-mente, boa dose de empatia.

O bom ambiente de trabalho criado pelo diretor diz respeito à aplicação de sua inteligência emocional em relação ao grupo que lhe foi dado a dirigir. A fim de gerar tal ambiente, são importantes as três primeiras habilidades estudadas. No entanto, é a quarta habilidade, administração dos relacionamentos, que contém as ações que de-vem ser desenvolvidas para que seja criado um clima de confiança entre o diretor e o grupo.

As perguntas críticas que o diretor deve fazer frequentemente são:

- Estou usando minha autoridade de maneira correta?

- Meus subordinados aceitam bem a minha autoridade?

O modo como uma pessoa emprega a autoridade da qual foi investida e como esse uso é entendido pelos subordinados são fatores importantes para que surjam, ou não, a confiança e a credibilidade em relação àquele indivíduo.

Concluindo, ressalta-se a necessidade de que os diretores, comandantes e geren-tes, em todos os níveis, estejam atentos para as questões ligadas à inteligência emo-cional, que os auxiliarão a estabelecer laços de liderança com os subordinados.

Esse texto foi retirado e adaptado do documento denominado LIDERANÇA MILITAR, Caderno de Instrução utilizado na Academia Militar das Agulhas Negras, para ser utilizado, como fonte de estudo, pelo corpo docente e discente dessa Escola, que é a formadora dos oficiais combatentes do Exército Brasileiro.
O referido Caderno é de autoria do Coronel Mario Hecksher Neto e do Tenente- Coronel Eugênio de Godoy Machado, ambos reformados, mas ainda servindo como professores na Seção de Liderança do Corpo de Cadetes.

 

O Soldado, a Família e o Idioma
Chefia com Liderança e Disciplina Consciente

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Segunda, 21 Agosto 2017

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