Vá Exército! Vença a Marinha!

Quem já teve a oportunidade de visitar a Academia Militar do Exército dos Estados Unidos da América, localizada nas adjacências da pacata cidade de Highland Falls, a pouco mais de uma hora de carro da metrópole de Nova Iorque, não consegue disfarçar o deslumbramento diante da imponência das instalações da "Longa Linha Cinzenta". Diferentemente do que muitos possam imaginar, a expressão não foi cunhada em referência ao conjunto de pavilhões de arquitetura gótica, desenhados pelo arquiteto Ralph Adams Cram, no início do século XX, em um projeto que procurou preservar o design original das instalações que remontam ao ano de 1798.



O significado da frase é muito mais profundo! Refere-se aos laços únicos que vinculam as gerações de oficiais formados na mais antiga organização militar do Exército dos Estados Unidos em atividade. Membros de uma irmandade que viveram a inolvidável experiência de dedicar quatro anos de sua vida a uma rotina intensa de aulas, formaturas e treinamentos militares, em um processo árduo que permanece inalterado na sua essência, desde a criação da Academia em 1802.

A expressão baseia-se, ainda, no uniforme histórico utilizado por seus cadetes, cortado em um pesado tecido de lã cinza, com colarinhos rígidos, que, além de uma ligeira coceira, proporcionam um singular desconforto, compartilhado por grandes líderes da nação norte-americana. Entre eles, destacam-se dois ex-Presidentes dos EUA, inúmeros generais que ajudaram a escrever a história dos dois maiores conflitos armados mundiais e diversos políticos, empresários e personagens ilustres da sociedade americana.


A "Longa Linha Cinzenta" representa um caminho direto e imutável de disciplina, que baliza a formação dos oficiais do Exército Americano, para liderar com caráter e viver uma vida dedicada à nação, conforme prescreve o lema da Academia: "Dever, Honra, Pátria".

Ao deslocar-se pelas instalações da Academia, o visitante realiza uma viagem ao passado, mergulhando em um túnel do tempo e conhecendo uma parte importante da história do Exército dos EUA, a começar pela razão pela qual sua Academia é internacionalmente conhecida como Academia Militar de West Point. Durante a guerra da independência, entre 1778 e 1780, o engenheiro polonês Taddeus Kosciuszko, um dos heróis de Saratoga, foi designado para supervisionar a construção de posições defensivas em um terreno alto, acima de uma estreita curva do Rio Hudson, que infletia para o Oeste. Para o General George Washington, esta era a posição estratégica mais importante da América, possibilitando o controle do tráfego fluvial no Hudson e negando aos ingleses a utilização desse notável eixo logístico para o transporte de tropas e suprimentos. Logo após tomar posse do seu mandato, o Presidente Thomas Jefferson determinou a construção da Academia Militar do Exército Americano, no mesmo local onde as fortificações de Kosciuszko dominavam a sinuosa curva do Hudson para Oeste, vindo a ser conhecida mundialmente como Academia Militar de West Point.

Prosseguindo no passeio, ao chegar ao conjunto principal da Academia, o visitante depara-se com uma fachada moderna em granito New Hampshire e com janelas de vidro na cor âmbar, mas que em nada macula a harmonia da arquitetura das demais construções adjacentes. A Biblioteca da Academia de West Point foi inaugurada em 2008 e proporciona os meios mais modernos para a realização de pesquisas científicas, contando com várias salas de estudo para os cadetes e diversas áreas para a realização de eventos. De costas para a biblioteca, repousa, ironicamente, a estátua do General George Smith Patton Jr., conhecido por seu temperamento forte e certa aversão aos afazeres acadêmicos, eternizado pela atuação no norte da África, quando bateu o Africa Korps alemão, liderado pelo antológico General Erwin Rommel.



Mais adiante, surge a figura impassível do General Dwight David "Ike" Eisenhower, Comandante Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas durante a Segunda Guerra Mundial, cujo olhar acompanha, orgulhosamente, as gerações de futuros oficiais que, garbosamente, perfilam-se nas formaturas, no campo de parada à sua frente.

Um dos lugares mais espetaculares da Academia, sem dúvida, é o refeitório. Não há como não associá-lo ao interior de um castelo medieval. Adornando suas paredes, estão telas que retratam as figuras dos antigos superintendentes da Academia (ex-comandantes), como o General Douglas MacArthur, Comandante das Forças Armadas Americanas no Teatro de Operações do Pacífico, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em um ambiente tão rico em história e tradições, um visitante, mesmo desatento, vai perceber uma frase que se repete em placas, casas, telhados e até em um túnel: "Go Army! Beat Navy!". Quase um mantra, a frase é repetida em palestras, discursos, formaturas e retrata uma salutar rivalidade histórica entre a Marinha e o Exército, que, ao aliar-se à paixão do povo pelo "futebol americano", torna-se quase uma obsessão. Em 2016, após um amargo jejum de 15 anos, o Exército finalmente venceu a Marinha por um placar de 21-7, no Estádio M&T Bank, em Baltimore. A memorável vitória foi encarada com tamanho entusiasmo pelo Secretário do Exército Americano, que o levou a cogitar a concessão de um feriado para todo o Exército, o que, ao final, acabou não se concretizando.



No auditório Robinson (assim alcunhado em homenagem ao General Roscoe Robinson Jr., veterano da Guerra do Vietnã e primeiro General de quatro estrelas negro do Exército Americano), uma vez ao ano, pode-se ouvir o vibrante e uníssono brado: "Vá Exército! Vença a Marinha!". É em português mesmo! Nesse dia, uma nova turma, com cerca de 1100 cadetes, vai escolher um entre oito idiomas (alemão, francês, espanhol, russo, mandarim, persa, árabe e português) para estudar, obrigatoriamente, durante dois semestres.

O Departamento de Línguas Estrangeiras é um dos treze departamentos acadêmicos de West Point. É na seção de português que o Assessor do Exército Brasileiro junto à Academia Militar dos Estados Unidos da América desempenha suas funções. A missão surgiu fruto de um acordo de cooperação firmado ao término da Segunda Guerra Mundial, pelos Presidentes Eurico Gaspar Dutra e Harry S. Truman. O trabalho em conjunto dos integrantes dos dois exércitos durante o conflito revelou a importância do conhecimento mútuo do idioma, visando a proporcionar uma  melhor integração em missões futuras.

Em 1946, chegou a West Point o Capitão Jorge Augusto Vidal, observador aéreo da FAB (1ª Esquadrilha de Ligação Aérea e Observação) na Segunda Guerra Mundial, com 62 missões de combate no currículo, iniciando um dos mais profícuos e duradouros intercâmbios entre os Exércitos Brasileiro e Americano. Trinta e três oficiais sucederam o Capitão Vidal nessa missão, tendo a honra de participar da formação de gerações de líderes militares do Exército Americano.

O Assessor Militar é integrante do corpo docente da Academia Militar, com as mesmas prerrogativas e deveres dos oficiais instrutores dos outros departamentos. Ele atua como instrutor de cursos básicos e intermediários da língua portuguesa, além de ser coordenador e instrutor do curso de leituras militares no idioma português. Esse curso é específico para os cadetes que optam pela graduação na língua portuguesa. A Academia oferece um leque com mais de 40 graduações (Direito, Engenharia Nuclear, Pscicologia, entre outras), permitindo aos cadetes aprofundarem seus estudos e graduarem-se em um ou dois idiomas. Existe, ainda, a possibilidade de buscar-se a graduação em duas áreas diferentes, podendo ser uma delas em língua estrangeira. 

No exercício de suas atribuições como instrutor, o Assessor Militar prepara avaliações, elabora e atualiza o plano de disciplina dos cursos sob sua coordenação, coopera com outros departamentos ministrando aulas e palestras sobre temas relativos ao Brasil e ao Exército Brasileiro, participa da avaliação dos atributos da área afetiva dos cadetes e auxilia na coordenação de intercâmbios entre a AMAN, o IME e West Point. Apesar de o ensino da língua portuguesa ocupar bastante tempo da agenda do Assessor Militar, sua missão principal vai muito além das aulas de gramática. Ao longo de dois anos, ele é responsável por participar diretamente da formação de mais de 150 futuros oficiais americanos, tendo encontros diários, nos quais, além de conteúdos didáticos sobre a língua portuguesa, compartilha seus valores e experiências profissionais, ao mesmo tempo em que representa o Exército e a cultura brasileira.



Alguns assessores foram, inclusive, convidados por cadetes americanos para atuarem como seus mentores no curso PL300 de liderança militar, considerado um dos cursos obrigatórios mais importantes do currículo de West Point. Isto reforça a perspectiva de que o Assessor Militar tem a oportunidade ímpar de influenciar na formação do caráter, no desenvolvimento dos atributos da área afetiva e nos aspectos da liderança junto aos cadetes americanos, que poderiam ter optado por mentores da sua própria nacionalidade.

Mais do que ensinar os cadetes americanos a bradar corretamente "Vá Exército! Vença a Marinha!", o Assessor Militar do Exército Brasileiro tem por dever compartilhar suas experiências profissionais e os ensinamentos práticos colhidos ao longo da carreira, de modo a conduzi-los a refletir sobre suas próprias experiências, para que possam, cada vez mais, desenvolver os atributos necessários a um líder militar, no complexo mundo em que brevemente irão atuar.

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Universidade de Defesa Nacional

Os temas Defesa e Segurança Nacional estão em vias de serem reconhecidos como área multidisciplinar do conhecimento pelo CNPq e CAPES, ou, pelo menos, estão na pauta de discussão destes órgãos certificadores.

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Um Ano de Transformação do Sistema de Fiscalização de Produtos Controlados pelo Exército Brasileiro

Há um ano, o Exército Brasileiro iniciou o complexo desafio de transformar o seu Sistema de Fiscalização de Produtos Controlados (SisFPC). Um diagnóstico preciso, realizado por uma equipe de representantes dos mais diversos Órgãos da Força, identificou a exaustão do atual modelo e a necessidade de modernizá-lo. Assim, teve início um processo que faz uma verdadeira revolução nos pilares do Sistema. Trata-se de um desafio que vem sido cumprido com competência, profissionalismo e dedicação. É, ainda, uma oportunidade única para seus integrantes, que participam desse processo de transformação.

A missão de fiscalização surgiu com a vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 1808, e a consequente instalação das primeiras fábricas de armas e munições.

As sucessivas constituições federais e os dispositivos legais, desde 1934, outorgaram à União e ao Exército Brasileiro a atribuição de fiscalizar, de controlar a produção e o comércio de materiais bélicos e de produtos considerados perigosos ou essenciais à defesa do País.

Em virtude da complexidade, da diversidade das atribuições e das responsabilidades decorrentes, foi criada, em 1982, a Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC), com sede em Brasília, subordinada ao então Departamento de Material Bélico e oriunda da fusão da Assessoria Técnica do Departamento de Material Bélico e da Seção de Fiscalização, Importação, Depósito e Tráfego de Produtos Controlados.

A DFPC centralizou as ações que estavam dispersas, melhorando a eficiência das atividades, uniformizando e regulando procedimentos.

A fiscalização de produtos controlados é pouco conhecida pelos integrantes do Exército e, menos ainda, pela população em geral. Em contrapartida, o impacto das atividades junto à sociedade é relevante, à medida que afeta a segurança pública e a defesa nacional, proporciona o levantamento de dados para a Mobilização Nacional, além de incentivar o desenvolvimento da indústria nacional.

O crescimento do Brasil, aliado às características da sociedade moderna, tem aumentado a demanda sobre o setor público, exigindo respostas mais rápidas, mais eficientes e com maior transparência. Essas tendências afetaram também a fiscalização de produtos controlados.

Assim, o Exército Brasileiro, desde setembro de 2015, vem implantando as bases de um Sistema transformado, contemporâneo e eficaz. Uma Nova Governança está sendo aplicada ao SisFPC. Nesse contexto, tem se buscado maior agilidade, transparência dos atos, participação dos usuários e dos diversos integrantes nas suas atividades, além da permanente prestação de contas.

A implantação da Nova Governança do Sistema de Fiscalização de Produtos Controlados é um esforço coletivo, conduzido pelo Exército Brasileiro, coordenado pelo Comando Logístico, apoiado por todos os Órgãos e Comandos, e levada adiante pela DFPC, pelas Regiões Militares e pelos mais de 300 postos dispersos em todo o País.

O Sistema de Fiscalização de Produtos Controlados vive um momento que impactará a forma como cumpre sua missão, com ganhos de eficácia e efetividade. São mudanças significativas que estão ocorrendo em todas as faces do Sistema, aprimorando a sua estrutura organizacional, os processos, a gestão de recursos humanos e a tecnologia de informação, dentre outros.

Os resultados têm surgido. Os processos têm sido agilizados e a legislação vem sofrendo revisões. As operações de fiscalização ganharam intensidade e ocorrem de forma coordenada, em um ambiente interagências, empregando os meios mais modernos de que o Exército dispõe. Neste último ano, as inúmeras operações desencadeadas resultaram em mais de 4.000 ações de fiscalização, percorrendo uma distância superior a 400.000 km. Esse esforço tem alcançado resultados expressivos, como demonstrados pela redução em quase 30% dos crimes com empregos de explosivos e pela contribuição para a vitoriosa sensação de segurança durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

O trabalho é um esforço de todo o Exército Brasileiro, voltado para melhoria da capacidade de prestação de um serviço de grande relevância para a sociedade. O processo não está concluído, mas a perspectiva futura é de constante aperfeiçoamento.

A Nova Governança do SisFPC está sendo construída dia a dia pelos mais de 1.000 homens e mulheres que integram o Sistema, os legítimos agentes dessa transformação, que cumprem, com verdadeiro espírito público, com resiliência, de forma discreta e competente, essa complexa missão constitucional do Exército Brasileiro.

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Tradução especializada no contexto militar

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A arte de traduzir, seja para a língua que for, pode ser descrita como uma perfeita sintonia entre o texto de partida, o tradutor e sua compreensão da mensagem, o texto traduzido e o leitor final na língua de chegada. Como se vê, o processo tradutório é muito mais complexo do que se imagina, pois o produto desse esforço deve ser uma mensagem que atinja seu objetivo em todos os aspectos, atendendo a uma equivalência funcional e comunicativa. Em outras palavras, o texto deve chegar ao leitor final (na língua de chegada, que é o idioma para o qual se pretende traduzir) da mesma forma que havia chegado aos leitores nativos na língua de partida (que é o idioma de origem do documento). Isso significa que a mensagem traduzida não deve possuir truncamentos ou causar estranhamento ao leitor, seja quanto a formas linguísticas e sua transmissão, seja quanto à linguagem utilizada ou ao sentido da mensagem. O leitor na língua de chegada deve compreender o texto da mesma forma como um leitor nativo da língua de partida o faria.

Quando se trata de áreas de especialidade, como a militar, a questão pode ser ainda mais complexa, porque existem terminologias próprias, que veiculam o conhecimento especializado. Aqui, a atenção deve ser redobrada, pois, mais que um exímio domínio das línguas de partida e de chegada do texto, torna-se de extrema importância que o tradutor domine a terminologia específica. Por isso, um cenário ideal seria se o tradutor fosse um profissional da área, o que, no caso, significaria ser um tradutor especialista militar, o que traria um resultado muito mais eficaz.

Um exemplo do que foi explicado acima pode ser visto na tradução para o espanhol da sentença: "no ano de 1956, houve o primeiro desdobramento de tropas armadas representando as Nações Unidas". Como poderia ser traduzido o termo grifado? Se formos buscar em um dicionário de Português-Espanhol, a palavra encontrada seria "desdoblamiento", que até poderia ser compreendida com algum esforço extra, sem, no entanto, representar o exato significado desejado. Nesse caso, o termo mais adequado na terminologia militar seria "despliegue", e a sentença deveria ser traduzida da seguinte forma: "en el año de 1956 hubo el primer despliegue de tropas armadas representando las Naciones Unidas".

Outro aspecto relevante a ser salientado quanto à tradução de documentos militares refere-se a aspectos culturais e de uso idiomático. Mais que conhecimento da área especializada, o tradutor deve, ainda, conhecer a cultura do local e do próprio campo especializado. Deve, acima de tudo, saber como determinado termo é utilizado no país ou na cultura para a qual pretende transpor a mensagem.

Para fins de exemplificação, peguemos o termo em espanhol "Organismo Internacional de Energía Atómica (OIEA)", para ser traduzido ao português (falado no Brasil). Muitos devem se perguntar: "mas como assim? Devo traduzir nomes próprios?". A resposta é que não se trata de traduzir os nomes, mas de transpor, para a outra língua, a terminologia exatamente como é utilizada pelo falante nativo do idioma de partida (origem) do documento.

Consultando a página web da Organização das Nações Unidas no Brasil (ONU Brasil), verifica-se que o nome adotado em nosso País é "Agência Internacional de Energia Atômica", com a sigla "AIEA". Em uma breve pesquisa por páginas web governamentais, verifica-se, ainda, que o Ministério das Relações Exteriores e outros órgãos públicos também utilizam essa nomenclatura e essa sigla (AIEA).

Com essa breve explanação, ao se utilizar a terminologia adequada, linguística e culturalmente, a mensagem chegaria ao leitor que atua na área específica relacionada à ONU sem causar estranheza. O texto seria compreendido pelos leitores-fim sem qualquer dificuldade.

O fato é que existem inúmeros termos como esses que, mesmo entre línguas tão próximas como o Espanhol e o Português, necessitam de maior cuidado e até de uma pesquisa mais profunda do que uma consulta a um dicionário de línguas.

O mais importante é que não basta saber o idioma, é preciso conhecer a cultura e a área em que se está trabalhando, para que o produto de uma tradução seja o mais certeiro e eficaz possível.

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Tomada de Monte Castelo

21 de Fevereiro parece ser um dia comum no calendário da maioria dos brasileiros. Em 2016, foi um domingo. Lembro que passei os olhos em jornais de grande circulação nacional, na busca de alguma referência a um dos grandes eventos da história contemporânea ocorrido nessa data, mas nada encontrei. Vi notícias variadas, de Mick Jagger a Evo Morales, porém nada sobre o que realmente procurava.

Alguns mais eruditos poderiam arriscar que minha busca estava associada ao lançamento do polêmico "Manifesto do Partido Comunista", de autoria de Marx e Engels, no turbulento ano de 1848, e sua repercussão ainda nos dias atuais; ou mesmo à morte brutal de Al Hajj Malik Al-Shabazz, mais conhecido como Malcolm X, ocorrida em 21 de fevereiro de 1965, ativista do nacionalismo negro e dos direitos humanos, dos mais eloquentes nos Estados Unidos. Ledo engano.

Buscava algo ligado às nossas lutas como Nação democrática; a exemplos de patriotismo, de superação e sacrifícios pessoais; à conquista de brasileiros de hábitos simples, mas com muito brilho nos olhos, verdadeiros heróis, que deixaram o solo sagrado de nossa Pátria para combater o nazifascismo nos campos frios da Itália, durante a 2ª Guerra Mundial.

Tão difícil seria a tarefa do Brasil em organizar uma força expedicionária que os mais pessimistas apostavam ser mais fácil uma cobra fumar que o País enviar soldados para combater junto aos países Aliados. Como muito bem disse um ex-comandante que tive: "Nossos militares 'fizeram história, venceram desafios', e a cobra fumou".

Em 21 de fevereiro de 1945, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária, mesmo ainda inexperiente em combate, protagonizou uma das maiores conquistas em sua participação na Guerra: a Tomada das alturas do Monte Castelo.

Esta campanha militar prolongou-se por três "infindáveis" meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais se efetuaram, nada menos, que seis ataques frontais contra um inimigo fortemente entrincheirado, com privilegiada visão do terreno. Em seu livro intitulado 'Um Capitão de Infantaria da FEB', o então General Ruy Leal Campello, que foi um jovem tenente no 2º Regimento de Infantaria à época da Guerra, refere-se a Monte Castelo como "uma região ameaçadora, que dominava completamente o compartimento de ataque do Batalhão".

Não poderia haver cenário pior para os nossos pracinhas: a falta de adaptação ao frio; a forte neblina que prejudicava a visibilidade; a lama que criava grandes atoleiros, impedindo a passagem de viaturas, e obrigava os militares a deslocarem-se a pé, carregando o peso dos suprimentos; a inclinação do terreno; os incansáveis tiros ajustados de morteiro e de metralhadoras alemãs; e a falta, em muitas ocasiões, de apoio aéreo, de artilharia e dos carros de combate.

Condições extremas que provocaram pesadas baixas e muitas mortes, mas que não foram suficientes para o registro de fatos de indisciplina, relata o General em seu livro: "Ninguém relutava em cumprir as ordens, mesmo sabendo que seria em vão enfrentar o objetivo designado, quando já eram evidentes os sinais de fracasso".

Monte Castelo não caiu pela fraqueza da resistência alemã, mas pelo espírito de cumprimento de missão de nossos combatentes, pelo moral elevado de nossa tropa, pelos exemplos de liderança e coragem de militares, como o Tenente Apollo Miguel Rezk e o Sargento Max Wolff Filho, filhos de uma Nação que parece desconhecer o valor de seus soldados e que não preserva a memória dos que deram a própria vida por um ideário de liberdade de todos os povos.

Em tempos atuais de perniciosa crise moral, que deixou o País mergulhar no caos social e econômico, os exemplos de simplicidade, de obstinação, de patriotismo, de compromisso e de união de nossos 25.000 ex-combatentes mostram o valor dessa nossa "brava gente brasileira" e servem de motivação para as necessárias e urgentes mudanças, com vistas à reconstrução da sociedade que queremos, com base nos princípios da justiça, do amor ao País e do bem comum.

O dia 21 de fevereiro nos comove e deixa emoção e lembranças em todos nós militares. Não é um dia comum em nossos quartéis, pois, desde as lutas em Guararapes, nos idos de 1648, ao emprego recente em missões de paz, fora do território nacional, somos movidos pelos mesmos ideais de culto às tradições, aos valores e às virtudes militares, e ao reconhecimento dos exemplos daqueles que nos antecederam e deixaram um legado de amor à Pátria e de sacrifício.

Cultuar esse memorável feito de nossos pracinhas é mais que homenagem, é dever de todos nós, como cidadãos brasileiros. Que no próximo 21 de fevereiro, a sociedade brasileira possa refletir sobre esse passado glorioso e reconhecer, por meio dos feitos da Força Expedicionária Brasileira, a força que tem. A todos os "febianos", nosso eterno reconhecimento e gratidão e nossa mais vibrante e briosa continência.

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