As Mídias Sociais do Exército e o Gerenciamento de Crises

Até meados da década de 1990, as instituições públicas recorriam à imprensa, com seus meios de radiotransmissão e impressos, como forma de propiciar ampla publicidade aos assuntos de interesse de ambas e de dialogar, ainda que por terceiros, com a sociedade.

A partir dos anos 2000, iniciou-se o processo de popularização da Internet e das mídias sociais, nas quais a sociedade, gradualmente, distancia-se da passividade do consumidor de mídia e, simultaneamente, descobre-se capaz de gerar conteúdo e de influenciar tendências nesse novo cenário midiático. Esse processo intensifica-se a partir de 2010, fruto da redução dos custos de aparelhos celulares e do acesso móvel à rede mundial de computadores.

Nesse ambiente de comunicação, as mídias sociais possibilitaram o empoderamento e o protagonismo da sociedade no relacionamento com os entes públicos, seja dialogando, seja divulgando, elogiando, criticando e, em caso de crises, cobrando explicações sobre a verdade dos fatos.

Ciente da crescente importância em fortalecer conexões com o público nesse novo cenário informacional, o Exército Brasileiro, por meio do Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEX), tem utilizado as mídias sociais para a divulgação de comunicados oficiais nos casos de crises que possam danificar a imagem da Instituição. Nesse contexto, segundo o professor João José Forni, entende-se por crise os "acontecimentos que, pelo seu potencial explosivo ou inesperado, têm o poder de desestabilizar organizações e governos e suscitar pauta negativa."

Até 2015, o procedimento corrente do CCOMSEX para lidar com adversidades era o envio de respostas individuais aos órgãos de imprensa, mediante prévia solicitação dos interessados. Esse processo é correto sob a ótica de não se escalarem crises de pequeno porte e em um cenário com limites de acesso às tecnologias da informação, mas perde efeito em caso de ocorrências de grande repercussão, pois se torna impossível o controle da informação, ao mesmo tempo em que a cobrança de explicações, por parte da sociedade, ocorre de forma direta e intensa pelo uso das mídias sociais e não pode ser ignorada. Além disso, a resposta, seja direta, seja indireta, é, em última instância, direcionada sempre à sociedade.

Em 2016, dois acontecimentos mostraram uma mudança no modo de comunicação do Exército e se diferenciaram pelo uso das mídias sociais para a divulgação de informação oficial para esclarecer, diretamente à sociedade, os fatos envolvidos nos episódios.

O primeiro caso foi a morte da onça Juma, no dia 20 de junho de 2016, quando a cobrança pelo posicionamento do Exército dominou as redes sociais da Força, principalmente, o Facebook, o Twitter e o Instagram. Como resultado dessa interação, pela primeira vez na história das redes sociais do Exército, foi divulgada, no dia 21 de junho de 2016, a íntegra da Nota à Imprensa no Facebook, antes da divulgação no site ou do envio para a imprensa. Embora a maioria dos comentários sobre a nota tenha sido com conteúdo negativo, o posicionamento do Exército ajudou a arrefecer a crise nos dias posteriores. Além disso, diversos comentários associaram à imagem do Exército a palavra TRANSPARÊNCIA, o que é um resultado bastante positivo.

Em termos de repercussão, a postagem sobre a onça Juma no Facebook impactou 1.620.085 pessoas, gerou 19.903 reações (15 mil de curtidas, 2,1 mil de raiva, 1,9 mil de tristeza, 44 de amei, 26 de espanto e 4 de risadas), 6.047 compartilhamento e 5.202 comentários. Foi a publicação com o maior número de comentários recebidos no corrente a ano, o que representa a vontade da sociedade em debater o tema.

O segundo caso foi o da apreensão, pela Polícia de São Paulo, no dia 28 de agosto de 2016, de um caminhão do Exército transportando três toneladas de maconha. A Nota à Imprensa foi publicada no Facebook no dia 28 de agosto, sendo complementada, no mesmo dia, por uma segunda nota. Com menos de 24 horas, a postagem alcançou 358.068 pessoas, 7.275 reações (5,4 mil de curtidas, 145 de raiva, 121 de tristeza, 47 de amei, 21 de espanto e 7 de risadas), 791 compartilhamentos e 443 comentários. Novamente, as opiniões expressaram a associação da imagem do Exército com a palavra TRANSPARÊNCIA, além de diversos elogios pelo rigor no trato com os militares envolvidos.

Analisando os dois casos, percebe-se que a publicação de Nota à Imprensa por meio das mídias sociais é um modo direto e claro de atender aos anseios da sociedade por transparência e à carência de informações oficiais nos casos que afetem a imagem da Força. Utilizando-se dessas novas mídias, o Exército tem a oportunidade de apresentar, diretamente ao público, sua versão sobre os fatos ocorridos, os procedimentos que serão efetuados para a apuração de responsabilidades e das melhorias que serão implementadas nos processos internos para evitar ocorrências futuras. Independentemente do conteúdo, a reação do público, ou favorável ou desfavorável, é de agradecimento pelas explicações.

Além disso, com a publicação direta à sociedade, o Exército prioriza a ampla publicidade da versão oficial, atende a múltiplos órgãos de imprensa simultaneamente e finca um contraponto a distorções que possam ser publicadas em outros portais na Internet. Não se trata de ignorar os principais veículos de imprensa em caso de crise de imagem, já que estes ainda possuem grande penetrabilidade no País e possuem a capacidade de atingir um público mais amplo e heterogênio que o das redes sociais. A imprensa, dependendo do caso e da importância do veículo, deverá sempre receber a Nota à Imprensa em primeira mão.

No entanto, simultaneamente ou posteriormente, ao documento enviado aos órgãos de imprensa, deverá ser divulgada no site e nas mídias sociais, sob o nome de Nota de Esclarecimento, já que é direcionada para os públicos interno e externo. Nesse formato, a nota deverá sofrer pequenas alterações na linguagem e na forma, mas nunca no conteúdo, objetivando a adaptação ao meio de comunicação escolhido.

Por fim, sob a perspectiva das mídias sociais, o CCOMSEx, ao utilizar-se das novas mídias para a divulgação de notas de esclarecimento, demonstra uma importante mudança em processos internos estabelecidos à época do impresso e caminha na direção do pleno entendimento da cibercultura. Além disso, fortalece a percepção de que o Exército, como parte do Estado, é uma Instituição transparente e ciente de seu papel de informar à sociedade, aproximando-se da população e fortalecendo as conexões com os usuários dessas redes.

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As Forças Armadas e a Sociedade

 
Há quase duas décadas, o então Ministro da Defesa, Geraldo Quintão, declarou que a comunidade civil brasileira tinha perdido contato com a agenda de Defesa, em função da anestesia de 130 anos sem conflito armado com países vizinhos, da falta de inimigos evidentes e do fato de que o assunto tinha ficado restrito ao setor castrense nos governos militares.

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Ao Exército, com orgulho

No dia 15 de fevereiro de 1630, o Nordeste brasileiro começava a viver o pesadelo da invasão dos holandeses, pertencentes à Companhia das Índias Ocidentais. Após 15 anos de bravo enfrentamento, lutando contra forças superiores, em 23 de maio de 1645, 18 líderes da Insurreição Pernambucana assinaram um termo, no qual se destaca o uso, pela primeira vez no Brasil, da palavra "pátria", no seu sentido atual.

No documento, verdadeiro "Compromisso Imortal", há, também, providências que, hoje, seriam consideradas mobilização de Reservas:

"Nós abaixo assinados nos conjuramos e prometemos em serviço da liberdade, não faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo, em restauração da nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém (...)".

Estava criado, segundo o mestre Capistrano de Abreu, o sentimento da existência nacional brasileira, que iria se fortalecer ao longo dos próximos dois séculos, até a Independência, em 1822.

Paralelamente, surgia, consolidado, o Exército de Patriotas, formado pela fusão das três etnias - branca, negra e índia - com suas miscigenações. Nascia o Exército Brasileiro, democracia multirracial, sem discriminações e preconceitos, sem cotas, numa pluralidade étnica e social, unida pela alma de combatente do nosso soldado.

Em 19 de abril de 1648, uma força holandesa, com 7.400 homens, marchou no sentido Barreta-Guararapes, tendo como objetivo final apoderar-se do cabo de Santo Agostinho. O Exército Patriota, de 2.200 homens, deslocou-se para interceptar o invasor. O Sargento-Mor Antônio Dias Cardoso, "soldado mais prático e experiente", sugeriu que o melhor campo de batalha seria o Boqueirão dos Guararapes.

Na manhã de 19 de abril, primeiro domingo após a Páscoa ("pascoela"), dia de Nossa Senhora dos Prazeres, o Sargento Dias Cardoso, no comando de 200 homens, investiu contra a vanguarda inimiga para, em seguida, retrair em direção ao interior do Boqueirão, onde o restante do nosso Exército estava escondido, pronto para a batalha. Ao comando de "ás de espadas", os patriotas lançaram-se sobre o inimigo.

O terço (regimento) de Pernambuco, comandado por João Fernandes Vieira, auxiliado por Dias Cardoso, rompeu o inimigo nos alagados. Os índios de Felipe Camarão assaltaram a ala direita dos holandeses. O terço dos negros de Henrique Dias atacou a ala esquerda, ficando as tropas de Vidal de Negreiros em reserva. Os batavos contra-atacaram com suas reservas de 1.200 homens, enquadrando o terço de Henrique Dias.

Os patriotas, habilmente, lançaram a reserva de Vidal de Negreiros no momento adequado. Foram quatro horas de confronto, entre alagados e morros. Ao final, o exército holandês, derrotado, retirou-se com pesadas perdas: 1.038 combatentes, entre mortos e feridos.

Menos de um ano depois, em 19 de fevereiro de 1649, patriotas e holandeses enfrentaram-se na segunda e derradeira Batalha dos Guararapes. Novamente derrotados, os batavos fugiram para Recife, ainda sob o controle holandês, deixando para trás 927 mortos, 89 feridos e 428 prisioneiros, contra 45 patriotas mortos e 245 aprisionados.

Em 14 de janeiro de 1654, o Exército Patriota atacou o último reduto holandês em Recife. Após dez dias de combates, a cidade foi reconquistada. No dia 26 de janeiro, na Campina da Taborda, os holandeses assinaram a rendição e retiraram todas as suas forças no Brasil.

O Decreto do Presidente da República, de 24 de março de 1994, instituiu o Dia do Exército Brasileiro em 19 de abril, data da primeira Batalha dos Guararapes (1648), quando se uniram, no nascedouro, os conceitos de Pátria e de Exército.

Decorridos 370 anos do sacrifício daqueles bravos que, ao expulsarem o invasor holandês, deram origem ao Exército Brasileiro (instituição detentora dos maiores índices de confiabilidade do nosso povo), paira sobre a data um injustificável silêncio. São tempos estranhos, em que as comemorações ficam restritas, praticamente, ao meio militar. A quase totalidade da mídia ignora o acontecimento e os meios educacionais e culturais se omitem, contaminados pela nefasta doutrina do "politicamente correto".

A história do Exército Brasileiro confunde-se com a da Pátria. Os Soldados de Caxias - povo brasileiro em armas - participaram, intensa e decisivamente, dos acontecimentos mais relevantes de nossa jornada como Nação. O Exército atual é a mesma Pátria em armas do passado. Os soldados de hoje em nada diferem dos militares de ontem, eis que seus princípios, valores e atributos são imutáveis.

O espírito do Pacificador gera não só tolerância, paciência, grandeza, compreensão e capacidade de perdoar, mas também, firmeza, decisão, energia, coragem, retidão de propósitos, nobreza de ideais, culto à verdade e um inquestionável amor ao Brasil.

Ainda hoje, quando vivenciamos um cenário em que maus brasileiros promovem a degradação dos princípios e valores que forjaram a nacionalidade, os herdeiros de Caxias, de Tamandaré e de Eduardo Gomes são a grande reserva moral e ética que leva milhões de brasileiros às ruas e redes sociais, clamando por seu vigoroso Braço Forte e fraterna Mão Amiga. Os soldados brasileiros de terra, mar e ar são exemplos de cidadãos, e a Nação neles reafirma a sua irrefutável confiança.

Soldado do Brasil! ... Presente!


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Anomia, Barbárie e Direitos Humanos

O conjunto de causas da grave crise de violência que convulsiona a sociedade nacional constitui um mosaico intrincado e complexo de fatores sociais, políticos e econômicos. Alguns desses fatores são endógenos, outros, exógenos. Mas, sua motivação primária resulta do preocupante quadro de desarranjo social denominado anomia.

Segundo Jessica Coracini, "o conceito de anomia desempenha um papel importante na sociologia, principalmente no estudo das mudanças sociais e de suas consequências. Quando as regras sociais e os valores que guiam as condutas e legitimam as aspirações dos indivíduos se tornam incertos, perdem o seu poder ou, ainda, tornam-se incoerentes ou contraditórios devido às rápidas transformações da sociedade".

Vivemos um momento de transição histórica. Estamos abandonando um modelo de sociedade industrial para nos tornarmos uma sociedade da era da informação. Portanto, devemos refletir acerca das implicações do advento de uma ordem pós-industrial sobre o corpo de crenças e valores de diferentes sociedades.

Tais transformações podem suplantar, em amplitude, ritmo e profundidade, os sistemas adaptativos dos agrupamentos humanos, em termos culturais. Em casos extremos, a incapacidade de uma sociedade adequar seu corpo de crenças e valores pode levar à erosão da cultura, como aconteceu com muitos povos indígenas originários do Brasil, cujo processo de transfiguração étnica os fez perecer.

O período de redefinição e acomodação de padrões éticos, em face de intensas mudanças, pode contribuir para o surgimento de um estado de desordem moral extremamente perigoso. Tal fato explica, em parte, a tentativa de erradicação física de judeus e de outras minorias nos campos de extermínio nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Naquela ocasião, a humanidade emprestou os argumentos da ciência, a burocracia do Estado e a eficácia da tecnologia industrial para cometer seu crime mais nefasto. Seguindo a mesma dinâmica sociológica, na anomia gerada pela globalização e pelo advento da era da informação, encontra-se a causa primária de toda selvageria do mundo atual – das atrocidades praticadas por salafistas jihadistas, no Oriente Médio, aos crimes hediondos perpetrados por quadrilhas armadas na América Latina, incluindo o Brasil.

Ou seja, muito da barbárie e da violência extremista resulta do colapso moral decorrente do hiato gerado entre o corpo de crenças e valores que tradicionalmente dão sustentação à sociedade e o ritmo acelerado das mudanças sociais, políticas, econômicas e tecnológicas ora em curso. Em um artigo intitulado "A Crise da Modernidade e a Insegurança Social", o Tenente Francis Cotta, da Polícia Militar de Minas Gerais, apresenta uma interessante associação entre vácuo civilizatório, delinquência criminal e insegurança pública.

À anomia se soma o processo de brutalização ao qual membros de organizações terroristas e quadrilhas armadas são submetidos em guerras, campos de refugiados, presídios e favelas ao redor do mundo. Tanto o infame Estado Islâmico quanto algumas das principais facções criminosas do Brasil têm suas origens no cárcere, por exemplo. As prisões israelenses, também, têm desempenhado um papel histórico importante na radicalização de muitos militantes do Hamas.

A combinação de anomia e brutalização explica a ausência absoluta de limites. Perderam-se os mais tênues traços de racionalidade e humanidade. Execuções extrajudiciais, torturas, imolações, decapitações e esquartejamentos tornaram-se o insumo básico para a propaganda extremista, cuja audiência global pode ser facilmente alcançada por meio da moderna tecnologia da informação.

A crise de poder do Estado-Nação (conforme entendida pelo escritor venezuelano Moisés Naím), a ruptura do monopólio do uso da força e a admissão de espaços anárquicos geram as condições necessárias de tempo e espaço para que a barbárie desprovida de limites seja praticada livre e impunemente.

O poder do Estado deve ser urgentemente restaurado sobre o preceito fundamental da promoção do bem comum. É claro que a recomposição do poder coercitivo do Estado deve estar rigidamente atrelada ao princípio da legalidade, sem o qual o poder público jamais poderá reivindicar a legitimidade que o Estado de Direito requer.

Eis a mais séria e premente questão de Direitos Humanos que nosso tempo impõe!

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Amizade ou interesse?

Não existem países amigos; não há amizade. O que existe são interesses. Aliás, as nações estão em eterno conflito de interesses. Contraditório? Não.

Amigo é o indivíduo com o qual se mantém relação de afeto, consideração, respeito, lealdade e espírito de ajuda. Países não possuem nem sentimentos, nem remorsos. Mesmo que tenham ressentimentos, não dispõem de atributos afetivos. Contudo, isso não significa que sejam inimigos e que não exista cooperação entre eles.

Existe relação profícua quando há algo importante, útil, vantajoso, benéfico ou conveniente entre as partes. Assim, os povos relacionam-se na busca de obterem ganho. Às vezes os interesses colocam-nos em situações opostas, o que amplifica as divergências.

Ocorre desavença na falta de entendimento, na divergência e na contestação entre os envolvidos. Segundo o Manual de Campanha Estratégia – C 124-1, conflito "é o enfrentamento intencional entre oponentes, predispostos a usar variado grau de violência. Possui ampla faixa de abrangência que vai do conflito entre indivíduos ou grupos de indivíduos ao que ocorre entre Estados ou grupos de Estados. A guerra é o conflito no seu grau máximo de violência." Dessa forma, países somente estão em situação de hostilidade quando há violência, em maior ou menor grau. A teoria do manual é estrita e contribui para limitar o conceito.

Atualmente, as disputas devem ser observadas num espectro mais amplo, pois "guerras ou divergências" acontecem, diariamente, nos diversos campos do poder, e não exclusivamente pelo uso da força ou da violência. Dentro de um mesmo território, também pode haver desentendimentos. Como exemplo, no Brasil, criou-se o conceito de "guerra fiscal" entre Estados ou cidades que aprovam incentivos fiscais com o objetivo de atrair empresas. Evidencia-se, nesse caso, clara disputa econômica entre governos estaduais ou municipais.

O conflito de interesses é a situação gerada pela discordância de algo importante entre os envolvidos. É nesse sentido que se explica o porquê de as nações estarem em eterna desavença. Normalmente, ela é vencida por aqueles que possuem maior poder para impor sua vontade.

Essa capacidade tem origem no potencial que o país tem de articular, de forma inteligente e criativa, seus diversos campos do poder, barganhando para atender a seus objetivos. O emprego de diferentes áreas do poder chama-se estratégia. E uma boa estratégia diminui as possibilidades de conflito.

No tocante à situação de divergências, podemos mencionar a ausência de relações diplomáticas entre China e Nicarágua e a disposição chinesa em investir num canal naquela região. Nesse caso específico, a China não reconhece a independência de Taiwan, adotando a postura de não manter relacionamento diplomático com governos que reconhecem a ilha como país.

A Nicarágua, que mantém relações diplomáticas com Taiwan, tem intenção em construir um canal para fazer frente ao do Panamá. Portanto, é candidata a receber investimentos chineses para a abertura dessa nova passagem pela América Central, unindo os oceanos Atlântico e Pacífico. A China, que é grande exportadora e importadora, é interessada nesse possível empreendimento, pois permitirá encurtar distâncias, barateando o custo dos fretes. Percebe-se, portanto, a existência de divergência política e interesse econômico entre as duas nações.

Algumas disputas não se resolvem sozinhas, por isso, há necessidade de conciliadores, mediadores, tribunais, comissões, organizações e instituições, entre outros, para a solução dos conflitos. Mesmo que os países possuam fortes relações comerciais, nada impede que haja, por exemplo, divergências em taxações de produtos negociados entre eles. Nesses casos, é preciso que organismos busquem uma solução para essas controvérsias de menor intensidade.

Como se observa, ainda que povos não estejam em guerra, podem entrar em conflito em outros campos, normalmente, no econômico. Ainda que haja parcerias econômicas, sempre serão questionados se há vantagens mútuas ou "soma zero" entre eles. "Ganha-ganha" ou jogo de "soma não zero", no contexto da teoria dos jogos, são aqueles em que todos os participantes se beneficiam de forma cooperativa. Segundo a mesma teoria, o jogo de "soma zero" refere-se ao ganho de um jogador que implica, necessariamente, na perda do outro. É possível que nas relações internacionais o jogo de "soma zero" esteja mais próximo da realidade, mesmo que no dia a dia essa situação não seja ostensiva e tão explícita.

O biógrafo grego Plutarco, nascido há quase dois mil anos, escreveu diversas obras, entre elas, "Como tirar proveito de seus inimigos". Apesar de o livro tratar do aperfeiçoamento moral entre homens, fazendo analogia simplista em relação à convivência entre nações, pode-se considerar, como reflexão, um dos seus pensamentos: "É próprio de um homem ponderado tirar proveito de seus inimigos".

Desse modo, não significa que os países sejam inimigos, mas é de sua natureza a busca de vantagens. Eles sempre procuram obter ganhos quando se relacionam, sendo obrigados a ceder em algum ponto. É verdade que pode haver afinidade entre povos, seja por ligações culturais, seja pela origem comum ou conveniência, mas os benefícios nacionais serão prioritários. Nas relações internacionais, reza a máxima "amigos, amigos, negócios à parte". O que existe são os interesses de cada um, afinal, "uma coisa é a relação de amizade, outra é a comercial".

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