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Refazendo o caminho da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália

Publicado: Sexta, 03 de Julho de 2015, 14h22 | Última atualização em Quinta, 16 de Julho de 2015, 13h27 | Acessos: 4226

Comitiva brasileira de ex-combatentes e oficiais do Exército participou das homenagens à Força Expedicionária Brasileira na Itália, quando das comemorações dos 70 anos do fim da 2ª Guerra Mundial. Ao percorrer grande parte do roteiro da FEB, o Cel Cav Alcides Valeriano de Faria Júnior registrou emoções e testemunhos desses heróis brasileiros.

A vocação para a vida militar pode ser ratificada por pequenos detalhes... Detalhes como encher o peito quando cantamos uma canção militar ou escutamos um dobrado, quando vemos uma coluna de blindados aprestada, pronta para partir e cumprir uma missão. Ou quando recebemos o sincero agradecimento da mãe de um recruta. Por um desses caminhos do destino, tive a oportunidade de percorrer, integrando a comitiva do Comandante do Exército, grande parte do roteiro da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Como oficiais de carreira, estudamos a Campanha dos Apeninos, conhecendo os aspectos maiores das manobras e das operações. No entanto, nessa ocasião, pude vibrar ao ver a “Mão Amiga” presente em uma situação de emprego real – o “Braço Forte”, como ocorreu na Campanha da FEB. Pude observar, nessa viagem, muitos detalhes e surpresas que, normalmente, não são apresentados nas escolas militares. A primeira surpresa ocorreu quando a comitiva chegou ao Monumento Votivo Militar Brasileiro, em Pistóia. Brasileiros entusiastas da FEB estavam presentes em grande número, todos com uniformes da época e, em forma, chamavam a atenção da assistência. Em quantidade praticamente igual, havia italianos, uniformizados ou não, prestigiando a cerimônia.

1 Comitiva brasileira em Pistoia, com uniformes de época

Foi grande a vibração em ver os nossos poucos pracinhas ainda vivos, prestigiando, com enorme esforço, as atividades realizadas em um lugar sagrado, onde estiveram sepultados heróis militares, como o Ten Amaro, o Asp Mega e o Sgt Max Wolff, além de inúmeros outros heróis desconhecidos.

2 Pracinhas na solenidade em Pistoia

Mesmo acreditando que, pela minha antiguidade e tempo de Exército, não mais seria surpreendido pela emoção, me vi tomado de uma grande vibração e profundo orgulho de ser soldado e brasileiro. Mas os detalhes, os pequenos detalhes... De Pistóia, seguimos para Staffoli, onde estava o Depósito de Pessoal da FEB. Nesse lugar, os pracinhas construíram, pedra por pedra, uma gruta. Ela estava abandonada e ficou desconhecida por muito tempo. Quando, mais uma vez, alguns aficcionados souberam de sua existência, passaram a procurá-la e, enfim, a encontraram. Hoje, está preservada, graças, também, a um italiano – Sr. Giuliano Capelli – agradecido à FEB pelo que ela fez por seu país de nascimento. Na singela cerimônia, conheci um senhor já idoso, que foi batizado pelo Frei Orlando. Contava-me suas histórias, quando, tomado pela emoção, se afastou. Outro senhor me contou que recebia chocolates de brasileiros. Mencionava-os pelos nomes e graduação. Ele que, à época era ainda muito jovem, guarda, vivos até hoje na memória, todos os detalhes.

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Monumento em Staffoli

As histórias se multiplicavam... Difícil guardar tudo, ante a profusão de datas, nomes, emoções e detalhes... O sentimento reinante era de amizade e de agradecimento. E existia, por parte das pessoas que passaram pelas agruras da guerra, fome, frio, medo e insegurança, um sentimento de gratidão aos brasileiros. Eram gratos a nós por termos saído de um país distante e tê-los libertado da tirania. No dia seguinte, prosseguimos para Castelnuovo e chegamos ao monumento em homenagem aos três pracinhas falecidos em Precaria/Vergato. Esses três militares morreram quando ofereceram tenaz resistência aos alemães, vindo a merecer, deles, o reconhecimento e a homenagem póstuma “Drei Brasilianische Helden” (Três Heróis Brasileiros). Foram eles que serviram de inspiração para a banda sueca Sabaton, quando escreveu a canção “Smoking Snakes”. Esse local, de uma beleza silenciosa, é hoje uma paisagem totalmente verde e florida, mas que ainda retém marcas do combate. Paredes de pedra estão cheias de marcas de tiros e com buracos de impacto de diversos calibres. Durante a solenidade, realizada naquele sítio, compareceu uma senhora humilde, já idosa (com seus 82 anos) e nos contou detalhes da primeira vez que encontrou os pracinhas. Ela tinha cinco anos de idade. Na primeira vez que viu uma patrulha brasileira, ela pôde ver um soldado brasileiro negro. Assustada, correu e se escondeu. Sua atitude foi consequência da propaganda nazista que disseminava, entre os italianos, a ideia de que os soldados da FEB eram selvagens e canibais. Com os olhos cheios de água, ela prosseguiu contando que foi conquistada pelas guloseimas que os brasileiros davam. Realmente, as marcas de tiro nas paredes não eram tão profundas quantos as marcas da guerra deixadas naquela senhora.

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A emoção de conhecer a história desta senhora me fez esquecer de anotar seu nome

Seguimos, então, para Monte Castello. Chegamos de carro ao Monumento Liberazione, erigido em homenagem aos que perderam sua vida naquela colina. Desembarcamos de frente para o bastião que tanto custou à nossa FEB. A primeira impressão é de deslumbramento. É uma região de uma paisagem ímpar, que em nada lembra as imagens daquele inferno. Naquele momento, saí do campo das emoções, voltei a ser soldado e, nesse contexto, me transportei para o ano de 1944. Imaginei como estaria a região naquele inverno rigoroso. Totalmente coberta de neve, com campos minados por toda parte e com as rajadas das metralhadoras alemãs – as lurdinhas – reinando soberanas.

5 Monte Castello, visto a partir da linha de partida para a conquista vitoriosa

Ao admirar a paisagem, de frente para Monte Castello, me esqueci, momentaneamente, de fazer um giro do horizonte e observar a região dominada por Monte Belvedere e Monte Castello. Ao estudar o terreno, vi, bem distante, no sopé do conjunto de elevações, o corte da Estrada 64: um aclive de muitos quilômetros, íngrime, com diversas outras elevações menos importantes, configurando um território dominado pelas patrulhas.

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Estrada 64 vista da Linha de partida do último ataque a Monte Castello

Naquele momento foi impossível não me colocar no lugar dos pracinhas. Quem alguma vez, em sua vida militar, não sofreu com uma mochila pesada? Quem nunca progrediu em formação morro acima? Quem não sentiu frio ou calor e não tinha como remediá-los? Quem não temeu o que viria ante as incertezas? Quem não viveu aqueles momentos, talvez nunca consiga imaginar o que os nossos pracinhas superaram para sobrepassar tais obstáculos. É, sem dúvida, muito difícil aquilatar o que eles passaram, mesmo vivendo uma vida de soldado. Prestei minha continência aos nossos soldados sobre a linha de partida do último e vitorioso ataque a Monte Castello e parti em direção ao topo daquela elevação. Subi em um dos muitos veículos militares históricos preservados que estavam presentes. Já era fim de tarde, fazia frio e o vento incomodava um pouco. Besteira, pensei. O que eles passaram foi muito pior. Eu e os que me acompanhavam, ao subirmos a montanha, não escondíamos nossa excitação. E não nos decepcionamos. Com o auxílio de outro apaixonado historiador da FEB na Itália, Sr. Giovanni Sulla, pudemos verdadeiramente nos inserir no ambiente da batalha. Nessa hora, busquei, em minhas memórias, as instruções de táticas de defensiva. Encontrei tocas, trincheiras interligadas em uma “pirambeira”. O terreno está, hoje, coberto de árvores e nos impede de ter uma visão em profundidade. Procurei ver a rasância que tinham os espaldões das “lurdinhas”. Imaginei o que seria progredir em direção a uma delas. Neve, sede, tiro, gritos, feridos, explosões... Esse exercício mental só me fez reforçar uma convicção: a conquista de Monte Castello foi um feito de heroísmo e bravura dos nossos soldados. Próximo dali, em Bombiana, ao lado de cerejeiras floridas, encontra-se o monumento ao Frei Orlando. Pausa para as emoções? Nem pense nisso...

 

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Cerejeiras embelezam o entorno do monumento em homenagem ao Frei Orlando. Ao fundo o corte da Estrada 64.

Foi impossível conter a emoção ao conhecer a história da sua vida e de seu falecimento, contada por um pracinha. A demonstração de uma vida de desprendimento e dedicação que nos foi dada contrastou com o final trágico de sua existência. Um disparo acidental tirou a vida de um voluntário especial. Naquela hora, me lembrei do senhor que havia sido batizado pelo Frei. Será que ele sabe o que aconteceu com Frei Orlando? Terminei o dia envolto em meus pensamentos... “o que sentiram os soldados quando conquistaram Monte Castello?” Outro dia se iniciou, e com ele o deslocamento para Iola. Pelo que havia acontecido no dia anterior, me preparei para as surpresas e os detalhes que poderiam surgir. Ao me aproximar do vilarejo, fui informado que Iola faz parte da cidade de Montese. Nessa hora, comecei a visualizar a façanha da conquista de Montese. Terreno alto, montanhoso, com estradas estreitas e sinuosas. Como bom cavalariano, imaginei a progressão dificultada por inúmeras posições de retardamento. Não foi fácil, ratifiquei, em meus pensamentos, o que a história comprovou. No entanto, ao chegar a Iola, a primeira sensação foi de surpresa. Deparei-me com uma quantidade incrível de veículos militares, motos, caminhões, viaturas-comando e muitas, muitas pessoas fardadas com uniformes da época – até uma pessoa com uniforme alemão. Era o encontro da Coluna da Vitória, composta de brasileiros, com a Coluna da Libertação, organizada por italianos. As duas comemoravam os 70 anos da libertação italiana do nazifascismo e o aniversário da FEB. Ainda não inventaram uma tecnologia que permitisse essa viagem, mas eu me teletransportei imediatamente para aquele período, ao participar do evento.

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Coluna da Libertação estacionada em Iola

Um clima de camaradagem e de amizade imperava. Parecíamos irmãos que não se encontravam havia bastante tempo, mas que, após cinco minutos de conversa, já estávamos todos irmanados novamente. Impressionante, como, a cada minuto, eu vivia emoções diferentes.

9 Confraternização entre as colunas, durante almoço em Iola

Contrastando com tudo isso, me senti insignificante. Insignificante, pela quantidade de pessoas, materiais de guerra e veículos, mas, sobretudo, por considerar que serão sempre os italianos a ter uma dívida muitas vezes maior, por mais que nós, brasileiros, possamos agradecer e reconhecer os feitos da FEB. Ainda nesse dia, prestamos nossa homenagem ao Asp Mega, sob o olhar da torre de Montese. Uma parada rápida, pois não imaginávamos o que ainda estava por vir. Prosseguimos nossa jornada em direção a Montese. A medida em que íamos nos aproximando da cidade, eu, literalmente, começava a entrar no cenário histórico que havia visto em livros. Chegamos à praça central de Montese, onde uma escola havia preparado uma homenagem aos pracinhas. A primeira visão é de um carro de combate antigo, um M8, repetindo a foto histórica capturada em frente de um prédio totalmente crivado de balas. Hoje esse prédio está restaurado, mas preserva, no entanto, uma fonte de água toda metralhada. Mais uma vez, me inserido na foto e na história...

10 Carro de combate M8 em Montese, buscando reproduzir a foto histórica

 

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Praça central de Montese, onde está localizada a fonte de água

As crianças da escola me trouxeram de volta à realidade. Escreveram “cartinhas”, fizeram cartazes, nos olhavam admiradas, como toda criança. O assunto era, para mim, uma novidade em trabalhos escolares. O tema era os “amici brasiliani” que saíram de suas casas, de um país “tão longe”. Dizia: “sem vocês (brasileiros), nós (italianos) não existiríamos”. As crianças prosseguiram: “vocês são corajosos, generosos e solidários”.

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Cartinha escrita pelos alunos em Montese

Imagine uma situação em que o coração de um brasileiro bate forte. Tenho certeza que essa situação não chegou nem perto do meu sentimento naquela hora. Terminou o dia, e comecei a sentir a angústia da partida. O próximo, seria o último. Despertei cedo para o deslocamento até o monumento dedicado ao Sgt Max Wolff Filho. Localizado em Riva di Biscia, a homenagem descansa à sombra de uma árvore, observando lindas montanhas ainda cobertas de neve. Um anfiteatro espetacular, onde um herói brasileiro surgiu. Uma história de vida exemplar, contada em voz alta na cerimônia, foi o fecho de ouro de uma jornada igualmente espetacular.

14 Ravina onde morreu o Sgt Max Wolff Filho vista do Monumento em sua homenagem, mostrando a Torre de Montese ao fundo

Comecei, então, a me dirigir a Montese. Era feriado na Itália. Eles comemoravam o Dia da Libertação. Ao chegar, já me surpreendi pela quantidade de pessoas. Era um evento cívico. Caminhei por diversos pequenos monumentos construídos para honrar os mortos na Segunda Guerra, brasileiros e italianos. No Monumento mais imponente, foi realizada a cerimônia principal. Os detalhes... as emoções... Nesse evento, para encerrar, outra surpresa... As crianças das escolas de Montese cantaram a Canção do Expedicionário. Cantaram sorrindo, sem saber ao certo o que significam aquelas palavras, mas cantaram alto e fizeram o peito, de todos os brasileiros presentes, quase estourar de orgulho. Foi vibrante ver uma das mais belas canções militares sendo cantada em solo estrangeiro por estrangeiros, agradecidos ao Brasil pelo que nós fizemos há 70 anos. Não poderia haver melhor final.

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As crianças que emocionaram os brasileiros ao cantar a Canção do Expedicionário

Terminei o caminho, onde procurei pisar as pegadas da FEB, ainda refletindo... Lembro-me agora do Haiti. Nosso sucesso em lidar com as pessoas, também lá no distante país do Caribe, causa surpresa e admiração. Exércitos de outros países vêm ao Brasil para compreender como é nosso treinamento e adestramento, no desejo de repetir o nosso “jeito” de conviver com a população local. Não vão descobrir nada de muito especial. Basta apenas ser do Exército Brasileiro. Basta apenas ser Brasileiro. Confirmei, mais uma vez, minha vocação.

 

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