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Entrevista do General Santos Cruz concedida ao EBlog

Publicado: Sexta, 03 de Julho de 2015, 14h34 | Última atualização em Quinta, 16 de Julho de 2015, 13h28 | Acessos: 3587

Entrevista do General de Divisão Santos Cruz

O general de Divisão Carlos Alberto dos Santos Cruz é o Comandante da Força Militar da Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo, MONUSCO, criada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas – ONU. Ao EBlog, o General fala sobre o trabalho que vem desenvolvendo no processo de paz da 2ª Guerra do Congo.

Gen Santos Cruz - É uma honra para mim ter essa oportunidade aqui no Exército, onde eu tenho praticamente a minha vida toda. Sou muito grato à todas as autoridades do Exército. Então é um momento realmente muito especial para mim essa oportunidade.

EBlog - Há exatamente um ano o Sr conduz essa Missão de grande relevância. Qual é a situação do país hoje?

Gen Santos Cruz - O Congo tem uma situação histórica bastante conturbada, complexa, com violência praticamente o tempo todo, desde o momento da sua independência e, há um ano atrás, era um cenário que tinha uma diferencia na área Leste do país, quando o Movimento M-23 estava nas proximidades de Goma. O movimento havia ocupado Goma em novembro/dezembro de 2012 acarretando uma situação de insegurançapara Goma, que é um local com um milhão de habitantes. Então, no andamento das ações, nós tivemos várias batalhas contra o M-23 até que o movimento foi derrotado em novembro do ano passado e a população, ao menos, de Goma, pode respirar um pouco mais aliviada. O cenário político no Leste do país também mudou um pouco. Mas o problema permanece ainda com uma quantidade muito grande de grupos armados, com uma consequência que é o sofrimento da população civil.

EBlog - E os maiores desafios da Missão?

Gen Santos Cruz - Olha, são tantos desafios que é muito difícil dizer qual deles é o maior. Mas, o grande desafio é exatamente a angústia de produzir uma condição de vida mais pacífica para as pessoas inocentes, para as mulheres, para as crianças, para os homens civis que não fazem parte da massa dos combatentes e que sofrem atrocidades; e todos sabem as atrocidades que acontecem naquela região. Então esse é o grande desafio, é a própria angústia de produzir algo que nos deixe mais realizados em termos de proporcionar alguma coisa para a população civil.

EBlog - Quantos homens estão sob o seu comando, general?

Gen Santos Cruz - A Missão, na parte militar, tem cerca de 20.000 homens. Esse é o nosso efetivo.

EB

log - Em uma operação militar, como é realizada a proteção humanitária?

Gen Santos Cruz - A proteção de civis é a primeira obrigação, é a grande prioridade das Nações Unidas. A única maneira de se fazer isso é você identificar quais são as ameaças à população civil e neutralizar ou eliminar essas ameaças. E ter a vontade e a determinação realmente de ir contra essas ameaças para que eles não cometam os massacres costumeiros contra a população. Agora, como fazer isso depende de cada situação. Infelizmente, os grupos armados desenvolveram, naquela região, uma característica de submeter as populações a massacres, a estupros, a incendiar as vilas, as residências, à pilhagem, porque dessa maneira eles se consideram ter importância no contexto, no cenário. Uma mentalidade criminal que se descarrega sobre as pessoas inocentes.

EBlog - E como a população está reagindo, vendo a atuação da MONUSCO?

Gen Santos Cruz - O Congo é um país muito grande. Não se pode falar pela população do Congo, mas pelas populações locais aonde nós temos tido algumas ações militares. Por exemplo, Goma, é uma cidade com um milhão de habitantes e estava sob ameaça de grupo armado. Hoje não está mais. Então você percebe que a vida muda; o comércio muda; o movimento muda; os produtores agrícolas da região têm liberdade de trazer esses produtos para o mercado da cidade, tem uma atividade econômica muito melhor. Em outras áreas, como no caminho que vai para Uganda, milhares de pessoas voltaram para casa. Tinham 65.000 pessoas refugiadas do outro lado da fronteira que retornaram para as suas residências. Um lugarejo muito pequeno que tem lá, chamado de Pinga, tinha quatro, cinco mil habitantes; o restante todo, nos últimos dois, três anos, tinha deixado a localidade. Hoje está com 25.000 habitantes.

EBlog – As pessoas estão mais seguras. Estão sentindo essa segurança lá.

Gen Santos Cruz - É. Percebe que tem condição de voltar e não ficar submetida à violência de grupos armados. Então 100.000 pessoas voltaram para casa. Essa é a grande recompensa que a gente tem. Logo após conquistar algumas áreas ou derrotar um grupo armado em determinados locais, no dia seguinte você via aquela quantidade de gente, naquela imagem bem característica da África, retornando para casa, com seus pertences, com as crianças carregando um monte de coisas. Essa aí é a grande compensação.

EBlog - General, o Exército Brasileiro, mais uma vez, comanda um componente militar em missões de Paz da ONU. Qual o reflexo dessa atuação para a formação do pensamento militar?

Gen Santos Cruz – Eu, na realidade, só represento uma massa de oficiais e de sargentos, de cabos e de soldados altamente competentes do Exército Brasileiro. Eu sou simplesmente mais um e que tenho essa chance de representá-los. O Exército tem muita gente competente, de qualidade. Nossa formação é muito boa, em todos os níveis, de soldado a general você tem pessoas admiráveis. E eu tive a oportunidade de ter essa experiência que eu estou tendo; consequência de todo esse prestígio do Exército; como o prestígio da nossa Diplomacia. O Itamaraty também tem uma atuação mundial relevante; o posicionamento do governo brasileiro perante os problemas. Então, na realidade, esse conjunto de fatores positivos acaba determinando a escolha de uma pessoa para representar todo esse conjunto. A formação do pessoal do Exército é muito boa, em todos os níveis; desde a formação do combatente básico, do soldado, até ao processo de escolha dos oficiais para comandar, dos oficiais da alta administração, dos generais do Exército. É um processo que tem funcionado ao longo da História. Outra coisa é que todo o mundo, no Exército, basicamente, somos idealistas e a mensagem é trabalhar por uma causa. Nossa motivação é o próprio gosto, o próprio uniforme. Enfim, é uma motivação completamente emocional. Eu acho que você tem que ser racional, entender o contexto político, entender a parte administrativa, a parte de orçamento, entender de tudo. Mas, o final do filme realmente é: você tem que levar uma vida emocional.

EBlog - General, qual é a importância da participação do Exército Brasileiro em Missões de Paz da ONU para projeção da força e do nosso país no cenário internacional?

Gen Santos Cruz - Quando o Exército vai em uma missão internacional está representando o país, não só o Exército. É muito mais do que isso. Quando é uma situação interna, você projeta mais a força singular, o Exército. Quando é no exterior, você projeta o nome do país. Então o Exército, junto com a Diplomacia, são grandes vetores de projeção do Brasil. E o comportamento do nosso pessoal tem sido muito bom, tem sido exemplar. Não me refiro ao meu caso, do comandante nesse nível, eu falo do soldado, do cabo, do sargento, do tenente, do capitão, do pessoal que está na rua, ali na linha de frente, nos problemas diários. Esse pessoal é o grande representante, na realidade, é quem faz todo esse prestígio. O grande show é deles, não é? O grande show não é da gente, não. O grande show é do pessoal que está a essa hora patrulhando na rua.

EBlog - Por isso o Exército Brasileiro é sempre convocado para Missões de Paz.

Gen Santos Cruz - E pelo prestígio, pela capacidade, pela competência, e temos muito mais responsabilidade de representar essa massa de militares representando o Brasil e que temos que corresponder às expectativas.

EBlog - Então a boina azul compõe muito bem a farda verde oliva?

Gen Santos Cruz - E principalmente o resultado, principalmente a competência. Mas é muito importante, como comandante, ao conceder uma entrevista ou qualquer projeção de mídia, lembrar que os grandes responsáveis são os graus hierárquicos que realmente estão na parte de execução.

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